Terremotos estão aumentando? O que está acontecendo no mundo?

Terremotos estão aumentando? O que está acontecendo no mundo?

A sequência impressiona, mas dados históricos mostram que terremotos fortes podem se concentrar no calendário sem terem relação direta.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Você abre o noticiário e vê imagens de pessoas correndo para fora de prédios após um grande terremoto na Colômbia. Poucos dias depois, outro abalo poderoso acontece na Indonésia e provoca um alerta de tsunami. Entre um acontecimento e outro, um eclipse solar total atravessa parte do planeta. Nas redes sociais, vídeos de terremotos diferentes aparecem praticamente lado a lado.

Diante dessa sequência, a sensação é quase inevitável: a Terra está tremendo mais do que deveria?

Nos últimos dias, essa pergunta deixou de ser apenas curiosidade. Em 10 de agosto de 2026, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu San José del Palmar, no departamento de Chocó, na Colômbia. O Serviço Geológico Colombiano informou profundidade de 103 quilômetros e classificou o evento como o terremoto de maior magnitude registrado no país neste século.

Cinco dias depois, em 15 de agosto, a região de Flores, na Indonésia, foi atingida por outro grande terremoto. A agência meteorológica e geofísica do país, BMKG, revisou a magnitude para 7,7, com profundidade de apenas 15 quilômetros, e chegou a emitir alerta de tsunami.

Horas depois do tremor principal, a Indonésia contabilizava centenas de réplicas. Até as 14h do dia 15, a BMKG já havia registrado 235 abalos posteriores, com magnitudes entre 2,5 e 6,2.

Vistos dessa forma, os acontecimentos parecem formar uma sequência assustadora. O próprio material que deu origem a esta análise parte exatamente dessa sensação de que eventos sísmicos muito fortes estariam se acumulando em poucos dias.

Mas uma sequência no calendário não significa necessariamente uma sequência geológica.

Dois grandes terremotos separados por poucos dias podem parecer o início de um fenômeno global, mas coincidência temporal não é o mesmo que conexão física.

A ciência reconhece terremotos induzidos por atividades humanas, mas isso não transforma grandes abalos tectônicos naturais em operações secretas.

A ciência reconhece terremotos induzidos por atividades humanas, mas isso não transforma grandes abalos tectônicos naturais em operações secretas

Por que tantos terremotos parecem estar acontecendo agora?

A primeira informação capaz de mudar completamente nossa percepção é esta: terremotos acontecem todos os dias, o tempo inteiro.

O Centro Nacional de Informações sobre Terremotos dos Estados Unidos localiza aproximadamente 20 mil abalos por ano em todo o planeta. Isso equivale a cerca de 55 terremotos por dia. E muitos outros tremores pequenos são registrados por redes locais ou sequer são percebidos pela população.

A maioria é pequena e não vira notícia.

O que chama atenção são períodos em que eventos muito fortes acontecem próximos uns dos outros. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, os registros históricos desde aproximadamente 1900 indicam uma média de cerca de 16 grandes terremotos por ano. Em termos gerais, seriam aproximadamente 15 eventos na faixa de magnitude 7 e um terremoto de magnitude 8 ou superior.

Essa é uma média, não um cronograma.

A Terra não distribui esses 16 terremotos de maneira organizada, colocando um grande abalo a cada 22 ou 23 dias. Em alguns anos ocorrem mais eventos, em outros menos. E eles podem se concentrar no calendário.

Em 2010, por exemplo, o USGS registrou 23 terremotos de magnitude 7 ou superior, enquanto outros anos ficaram muito abaixo da média histórica.

Terremotos podem acontecer em grupos sem estarem conectados

Imagine jogar uma moeda centenas de vezes.

Em algum momento, você provavelmente encontrará uma sequência de cinco ou seis caras seguidas. Ao olhar apenas para aquele pequeno trecho, poderia parecer que algo estranho aconteceu com a moeda. Mas, diante de uma quantidade enorme de lançamentos, sequências aparentemente improváveis surgem naturalmente.

Com os terremotos, existe um fenômeno semelhante de percepção.

Nosso planeta possui inúmeras falhas acumulando tensão simultaneamente. Placas tectônicas estão se deslocando em várias partes da Terra ao mesmo tempo. Assim, é possível que duas falhas completamente diferentes atinjam seus respectivos pontos de ruptura com poucos dias de diferença.

Foi justamente isso que ocorreu em duas regiões tectonicamente muito ativas.

A Indonésia está situada em uma zona extremamente complexa de interação entre placas, dentro da vasta região sísmica associada ao chamado Cinturão de Fogo do Pacífico. Já a Colômbia também se encontra em uma região marcada por importantes interações tectônicas.

Terremotos grandes nesses locais, portanto, são geologicamente possíveis sem que seja necessário existir algum mecanismo extraordinário ligando os dois episódios.

Também vale uma correção importante sobre informações que circularam nesses dias. O material-base menciona um terremoto de magnitude 5,0 na região de Granada, na Espanha. Porém, o catálogo oficial do Instituto Geográfico Nacional espanhol para 15 de agosto não confirma esse evento com essa magnitude. A região apresentou uma sequência de tremores menores, incluindo registros na faixa de magnitude 3.

Isso mostra por que informações divulgadas imediatamente após eventos sísmicos precisam ser verificadas. Dados preliminares podem ser confundidos, revisados ou apresentados fora de contexto.

Dois grandes terremotos separados por poucos dias podem parecer o início de um fenômeno global, mas coincidência temporal não é o mesmo que conexão física.

Dois grandes terremotos separados por poucos dias podem parecer o início de um fenômeno global, mas coincidência temporal não é o mesmo que conexão física

Terremotos recentes podem estar ligados ao eclipse ou ao HAARP?

Aqui entramos em uma área onde ciência e teorias da conspiração frequentemente se misturam.

Existe uma coincidência temporal particularmente chamativa em agosto de 2026.

O terremoto colombiano aconteceu em 10 de agosto. Dois dias depois, em 12 de agosto, um eclipse solar total atravessou regiões como Groenlândia, Islândia, norte da Rússia e Espanha. Em 15 de agosto aconteceu o grande terremoto de Flores, na Indonésia.

A sequência parece quase cinematográfica:

Colômbia, eclipse, Indonésia.

Mas isso é evidência de alguma conexão?

Até agora, não.

O USGS explica que eclipses solares e lunares são casos particulares das configurações de Lua nova e Lua cheia. Eles não produzem algum efeito de maré extraordinário e exclusivo capaz de explicar uma sequência de grandes terremotos pelo planeta.

Isso não significa que Sol e Lua não exerçam nenhuma influência sobre a Terra.

As forças gravitacionais envolvidas nas marés podem produzir pequenas alterações nas tensões da crosta. Em determinadas condições, pesquisadores estudam se essas variações podem contribuir para o momento exato em que uma falha já extremamente próxima de romper acaba cedendo.

Mas existe uma distância enorme entre isso e afirmar que um eclipse provoca grandes terremotos.

O eclipse de 12 de agosto realmente aconteceu, como registrado pela NASA. Porém, sua ocorrência entre os terremotos da Colômbia e da Indonésia representa uma coincidência temporal, não uma demonstração de causa e efeito.

E um grande terremoto pode provocar outro do outro lado do mundo?

Aqui a resposta é mais interessante: em certas circunstâncias, terremotos podem influenciar outros terremotos.

Depois de um grande abalo, a distribuição das tensões nas rochas próximas muda. É por isso que surgem as réplicas, que podem continuar durante dias, semanas, meses ou até mais tempo. O USGS explica que um terremoto principal é normalmente seguido por uma sequência de eventos menores na mesma região.

Existe ainda o chamado gatilho sísmico remoto.

As ondas produzidas por terremotos muito fortes atravessam o planeta e podem modificar temporariamente as tensões em falhas distantes. O fenômeno já foi documentado cientificamente, principalmente em áreas que já eram naturalmente vulneráveis, como regiões geotérmicas ou tectonicamente ativas.

Isso, porém, não significa que todo grande terremoto provoque outro grande terremoto em algum ponto distante.

Até o momento, não existe evidência apresentada pelas autoridades sismológicas consultadas de que os eventos da Colômbia e da Indonésia façam parte de uma única sequência tectônica global.

Outra teoria recorrente envolve o HAARP.

O High-frequency Active Auroral Research Program realmente existe. Localizado no Alasca e administrado pela Universidade do Alasca Fairbanks, o programa é dedicado ao estudo da ionosfera, uma região da atmosfera superior.

A teoria conspiratória afirma que suas transmissões poderiam controlar o clima ou provocar terremotos.

Não existe evidência científica que sustente essa afirmação.

Os experimentos do HAARP estudam fenômenos da ionosfera, enquanto grandes terremotos tectônicos envolvem rupturas de rochas no interior da Terra. O próprio USGS também afirma que nunca foi demonstrada uma relação causal entre fenômenos de clima espacial e a ocorrência de terremotos.

Existe, contudo, um detalhe curioso: seres humanos realmente podem provocar terremotos.

A ciência chama esse fenômeno de sismicidade induzida.

Atividades como mineração, enchimento de grandes reservatórios, retirada de fluidos subterrâneos e injeção de líquidos em profundidade podem alterar pressões nas falhas e desencadear abalos sísmicos. Isso está amplamente documentado.

Um dos mecanismos mais conhecidos envolve a injeção de fluidos no subsolo. Quando a pressão aumenta em uma falha já submetida a tensão, o atrito que mantém as rochas presas pode diminuir, favorecendo seu deslocamento.

Portanto, dizer que seres humanos podem induzir determinados terremotos não é teoria da conspiração.

O salto sem evidências acontece quando essa realidade é usada para concluir que qualquer grande terremoto natural foi deliberadamente provocado por um governo ou por alguma arma secreta.

Não há evidências disso nos grandes eventos recentes da Colômbia e da Indonésia.

A ciência reconhece terremotos induzidos por atividades humanas, mas isso não transforma grandes abalos tectônicos naturais em operações secretas.

E as mudanças climáticas?

O aquecimento global está relacionado a inúmeros riscos ambientais, como ondas de calor, secas, elevação do nível do mar e mudanças em determinados padrões de eventos extremos. Mas não existe evidência de que ele esteja produzindo uma onda planetária de grandes terremotos tectônicos.

O USGS inclusive afirma que não existe um “clima de terremoto”. Estatisticamente, terremotos acontecem sob condições de calor, frio, chuva e tempo seco, já que os processos responsáveis pela maioria dos grandes abalos ocorrem quilômetros abaixo da superfície.

Então, afinal, o que provavelmente estamos observando?

A resposta é menos misteriosa, mas talvez seja ainda mais impressionante.

Estamos vendo um planeta geologicamente ativo fazendo aquilo que sempre fez.

Placas tectônicas continuam se movendo poucos centímetros por ano. Algumas partes ficam presas pelo atrito. A tensão se acumula durante anos, décadas ou séculos. Em determinado momento, a resistência da rocha é superada e a falha se rompe, liberando energia na forma de ondas sísmicas.

O que mudou radicalmente foi nossa capacidade de acompanhar esse processo.

Hoje, sensores detectam terremotos em segundos. Pessoas filmam prédios balançando com smartphones. Alertas circulam instantaneamente. Vídeos gravados na Colômbia podem aparecer na mesma tela em que, cinco dias depois, assistimos às imagens da Indonésia.

Além disso, um grande terremoto produz dezenas ou centenas de réplicas, aumentando rapidamente a quantidade de registros que aparece nas redes e nos mapas sísmicos. Na Indonésia, por exemplo, centenas de réplicas foram identificadas poucas horas depois do evento principal.

Talvez exista aí uma das explicações mais importantes para a sensação atual.

O planeta sempre tremeu. Hoje, porém, todos os seus tremores cabem na tela do nosso celular.

Isso não significa que grandes terremotos devam ser tratados com indiferença. Regiões tectonicamente vulneráveis precisam de construção adequada, sistemas de alerta, planos de evacuação e preparação constante.

Mas os dados disponíveis até agora não indicam que uma misteriosa onda global de terremotos tenha começado em agosto de 2026.

Também não existe evidência de que o eclipse, HAARP ou alguma alteração repentina no funcionamento do planeta esteja conectando todos esses acontecimentos.

O cenário que temos é muito mais antigo.

Vivemos sobre uma superfície dividida em placas gigantescas que parecem imóveis durante nossa vida cotidiana, mas que nunca realmente param de se mover.

De vez em quando, sentimos o resultado.

Já imaginou isso?

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também