Há mais de um ano, uma estrutura metálica de aproximadamente quatro toneladas percorre uma órbita imensa entre a Terra e a Lua. Sem satélites a bordo, sem combustível suficiente para corrigir sua trajetória e sem qualquer missão a cumprir, ela permaneceu silenciosamente no espaço até ser capturada por um destino inevitável.
Na madrugada desta quarta-feira, 5 de agosto, esse estágio superior de um Foguete da SpaceX deverá atingir a superfície lunar a cerca de 8.700 quilômetros por hora. O impacto está previsto para aproximadamente 6h35 no horário universal, o equivalente a 3h35 no horário de Brasília. A colisão ocorrerá próxima à cratera Einstein, em uma região situada perto da borda do disco lunar observado da Terra.
Apesar das manchetes falarem em um foguete, não será um Falcon 9 inteiro atingindo a Lua. O objeto é apenas o estágio superior, responsável por transportar cargas depois que o primeiro estágio se separa e retorna em direção à Terra.
Esse componente possui aproximadamente 12 metros de comprimento, cerca de quatro metros de diâmetro e massa estimada próxima de quatro mil quilos. Ele deverá alcançar a Lua a 2,43 quilômetros por segundo, em uma colisão com energia de aproximadamente 11,8 gigajoules, valor semelhante à explosão de quase três toneladas de TNT.
A previsão transformou um pedaço abandonado de hardware espacial em uma oportunidade científica inesperada. Observatórios profissionais, sondas lunares e astrônomos amadores estão preparando equipamentos para tentar registrar o clarão, a nuvem de poeira e a nova cratera.
O estágio do Falcon 9 passará mais de um ano vagando pelo espaço antes de terminar sua trajetória em uma colisão de quase três toneladas de TNT.

O impacto não oferece perigo à Terra, mas mostra que o lixo espacial também começa a se transformar em uma preocupação ao redor da Lua
Quando o Foguete da SpaceX vai atingir a Lua?
O impacto está previsto para acontecer por volta das 3h35 da madrugada desta quarta-feira, no horário de Brasília. Existe uma pequena margem de incerteza de alguns minutos porque a trajetória do estágio pode sofrer alterações causadas pela pressão da radiação solar.
Embora seja extremamente fraca, a luz do Sol exerce uma pequena força sobre objetos espaciais. Ao longo de vários meses, essa pressão pode modificar discretamente a trajetória, principalmente quando o objeto está girando e apresenta lados diferentes à radiação. Ainda assim, os cálculos mais recentes indicam que a colisão ocorrerá próxima ao horário e ao local previstos.
O estágio atingirá uma área próxima à cratera Einstein, localizada nas proximidades da borda visível da Lua. A superfície estará iluminada pelo Sol no momento do choque, circunstância que facilitará a observação da poeira levantada acima do horizonte lunar, mas dificultará a identificação do clarão inicial contra o terreno brilhante.
Os modelos indicam que a colisão poderá produzir uma cratera com aproximadamente 27 metros de diâmetro e cinco metros de profundidade. Dependendo da posição do estágio no momento do impacto, a estrutura poderá se partir antes de atingir completamente o solo e formar uma cratera irregular ou até duas cavidades próximas.
A estimativa é que mais de um milhão de quilos de solo lunar sejam escavados. Grande parte desse material cairá novamente sobre a superfície em poucos segundos, formando uma camada de detritos ao redor da cratera. Fragmentos menores poderão permanecer no ar por vários minutos e alcançar distâncias consideráveis.
Uma segunda simulação, produzida por pesquisadores da Universidade do Texas, prevê uma cortina de detritos com aproximadamente 15 a 20 quilômetros de altura. No centro, uma coluna mais estreita e veloz poderá alcançar entre 75 e 100 quilômetros, enquanto a dispersão lateral da poeira poderá se estender por até 183 quilômetros.
Esses números descrevem possibilidades calculadas por modelos computacionais. A altura, a densidade e o formato reais dependerão da composição do terreno, da quantidade de combustível residual, da orientação do estágio e do ponto exato atingido.
O impacto poderá ser visto do Brasil?
Em teoria, observadores em partes da América do Sul poderão tentar acompanhar o acontecimento. No momento previsto, o céu estará escuro e a Lua estará acima do horizonte em grande parte das Américas, criando condições geométricas favoráveis.
Isso não significa que será possível sair de casa, olhar para a Lua e enxergar uma explosão.
O clarão deverá durar menos de um segundo e poderá ser muito fraco porque o impacto acontecerá na parte iluminada da superfície. As previsões de brilho variam enormemente, desde algo detectável por telescópios relativamente pequenos até um sinal praticamente invisível mesmo para instrumentos profissionais.
Para tentar registrar o instante exato, será necessário usar um telescópio conectado a uma câmera capaz de gravar em alta velocidade. Os pesquisadores recomendam taxas superiores a 20 quadros por segundo, reduzindo o risco de o clarão acontecer entre duas imagens e não ser registrado.
A nuvem de detritos talvez seja mais fácil de detectar do que o clarão. Parte da poeira deverá subir além da borda da Lua, aparecendo contra o fundo escuro do espaço durante alguns minutos. Mesmo assim, sua identificação poderá exigir processamento de imagens, comparação entre quadros e equipamentos capazes de controlar o intenso brilho lunar.
Observatórios profissionais nas Américas reservaram tempo para acompanhar o fenômeno. Entre os instrumentos envolvidos estão o telescópio de 3,5 metros do Observatório Apache Point, o Lowell Discovery Telescope e uma unidade do Very Large Telescope. Astrônomos amadores também foram convidados a compartilhar gravações por meio de projetos de ciência cidadã ligados à observação de impactos lunares.
Portanto, a resposta mais responsável é que o impacto poderá ser tecnicamente observado do Brasil, desde que o tempo esteja limpo e o observador possua equipamento adequado. Para a maioria das pessoas, a melhor oportunidade será acompanhar transmissões ou imagens divulgadas posteriormente pelos observatórios.
Por que esse estágio ficou abandonado no espaço?
O estágio foi lançado em 15 de janeiro de 2025, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida. O Foguete da SpaceX transportava simultaneamente duas missões privadas destinadas à Lua: a sonda Blue Ghost 1, desenvolvida pela Firefly Aerospace, e o módulo Resilience, da empresa japonesa ispace.
Depois de colocar as duas sondas em suas trajetórias, o estágio superior permaneceu em uma órbita terrestre extremamente alongada, capaz de cruzar periodicamente a região da Lua. Ele recebeu a identificação internacional 2025-010D e ficou vagando por mais de um ano até sua órbita evoluir para uma trajetória de colisão.
A Blue Ghost alcançou a superfície lunar com sucesso em março de 2025 e realizou mais de duas semanas de atividades científicas. A Resilience também chegou à Lua, mas perdeu-se durante sua tentativa de pouso. O destino das sondas, porém, não está diretamente ligado ao impacto do estágio.
É importante não apresentar a colisão como um experimento planejado pela SpaceX. Os estudos científicos descrevem o estágio como um objeto abandonado em uma órbita que atravessava a região lunar. Os pesquisadores aproveitarão um acontecimento que já seria inevitável, mas não foi organizado originalmente para produzir uma cratera ou levantar poeira.
A empresa costuma realizar manobras para retirar seus estágios superiores da órbita em muitas missões próximas à Terra. A própria SpaceX informou ter executado com sucesso 115 das 116 tentativas de desorbitação de segundos estágios realizadas em 2024. Missões com destinos mais distantes, porém, podem deixar o equipamento em trajetórias muito mais complexas.
Não há, nos estudos usados para prever o choque, evidência de que a empresa tenha escolhido deliberadamente atingir a Lua. Também seria impreciso afirmar apenas que a SpaceX poderia ter evitado a colisão e decidiu não fazer isso, já que uma mudança de trajetória dependeria do planejamento inicial, do combustível restante e das condições da missão.
O episódio expõe, porém, um problema que deverá crescer com o aumento das missões lunares: o destino dos estágios, sondas e outros equipamentos abandonados na região entre a Terra e a Lua.
O impacto não oferece perigo à Terra, mas mostra que o lixo espacial também começa a se transformar em uma preocupação ao redor da Lua.

O estágio do Falcon 9 passará mais de um ano vagando pelo espaço antes de terminar sua trajetória em uma colisão de quase três toneladas de TNT
Este será o segundo foguete a bater na Lua?
Não. Diversos foguetes, sondas e módulos já atingiram a Lua, alguns deliberadamente.
Durante o programa Apollo, estágios de foguetes foram direcionados contra a superfície para gerar ondas sísmicas medidas pelos equipamentos deixados pelos astronautas. Em 2009, a missão LCROSS lançou um estágio Centaur contra uma cratera próxima ao polo sul lunar para investigar a presença de água congelada.
Em 2022, um corpo de foguete atingiu a Lua perto da cratera Hertzsprung e criou uma estrutura dupla com aproximadamente 28 metros na maior dimensão. O objeto foi associado por pesquisadores a uma missão lunar chinesa, embora a NASA tenha afirmado que sua origem permanecia incerta.
O impacto do Foguete da SpaceX poderá ser considerado um dos raros choques não planejados de um estágio identificável e acompanhado antes da colisão. Ele não será o segundo foguete da história a atingir a Lua, como sugerem algumas publicações.
A vantagem científica é que os pesquisadores conhecem aproximadamente a massa, o tamanho, a velocidade, o ângulo e o horário do impacto. Essas informações permitem comparar o resultado real com os modelos usados para prever crateras e movimentos de poeira.
A sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA, deverá obter imagens anteriores e posteriores da área. Comparando as fotografias, os cientistas poderão localizar a nova cratera, medir suas dimensões e analisar a distribuição dos detritos. A sonda sul-coreana Danuri também planeja acompanhar a região depois do acontecimento.
Os dados poderão ajudar a entender como estruturas ocas e metálicas se comportam ao atingir o solo lunar. Diferentemente dos meteoros naturais, que são densos e viajam a dezenas de quilômetros por segundo, um estágio de foguete possui grandes tanques vazios e uma velocidade relativamente baixa.
Essas diferenças podem produzir crateras incomuns e lançar fragmentos por centenas de quilômetros. Os modelos indicam que alguns detritos poderão percorrer distâncias próximas de mil quilômetros antes de voltar à superfície, possibilidade que interessa ao planejamento de futuras bases, veículos e equipamentos instalados na Lua.
O acontecimento não mudará a órbita da Lua, não será sentido na Terra e não representa perigo para a população. O satélite natural recebe impactos naturais regularmente, muitos deles provocados por objetos que viajam em velocidades muito superiores.
A importância está em outro ponto. Pela primeira vez, cientistas terão a oportunidade de mobilizar diferentes observatórios para acompanhar em tempo real um impacto não planejado de grandes dimensões em uma área iluminada e próxima à borda visível da Lua.
Depois de transportar duas sondas, atravessar repetidamente a região entre a Terra e a Lua e permanecer mais de um ano sem função, o estágio superior encontrará seu destino final em poucos segundos. O que era apenas lixo espacial poderá deixar uma cratera permanente e dados valiosos para uma nova fase da exploração lunar.