Imagine receber uma tesoura e perceber que ela simplesmente não parece funcionar direito. Depois, sentar em uma carteira escolar e descobrir que o apoio para escrever está do lado errado. Abrir um caderno de espiral e sentir o metal pressionando sua mão. Por fim, usar uma caneta e ver a lateral da palma passar exatamente sobre a frase que você acabou de escrever.
Para a maioria das pessoas, isso parece uma sequência de pequenos inconvenientes.
Para quem é canhoto, pode ser apenas uma terça-feira qualquer.
Nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, é celebrado o Dia Internacional do Canhoto, conhecido no Brasil também como Dia Mundial do Canhoto. A data chama atenção para uma minoria que representa aproximadamente uma em cada dez pessoas e que passou boa parte da história tentando se adaptar a um mundo predominantemente destro.
Uma grande meta-análise publicada em 2020 reuniu dados de mais de 2,3 milhões de pessoas e chegou a uma estimativa geral de 10,6% de canhotos. O percentual varia conforme a maneira utilizada para definir e medir a preferência manual, mas a famosa ideia de que aproximadamente 10% da humanidade utiliza preferencialmente a mão esquerda está bastante próxima do que a ciência encontra.
Só que ser canhoto nunca significou apenas escolher outra mão para segurar a caneta.
Ao longo dos séculos, a mão esquerda foi cercada por superstições, tentativas de correção, equipamentos inadequados e até associações culturais negativas. Ao mesmo tempo, alguns dos nomes mais conhecidos da história, da arte e da música fizeram parte dessa minoria.
Leonardo da Vinci escrevia com a esquerda.
Jimi Hendrix tocava guitarra como canhoto.
Paul McCartney transformou seu baixo para canhotos em uma das imagens mais reconhecíveis dos Beatles.
E a ciência ainda tenta responder a uma pergunta aparentemente simples: afinal, por que alguém nasce canhoto?
Apenas cerca de uma em cada dez pessoas é canhota. Talvez por isso a maioria de nós nem perceba quantos objetos cotidianos foram desenhados pensando exclusivamente na mão direita.

Ser canhoto não torna alguém automaticamente mais criativo ou inteligente. O que a ciência encontra é uma lateralidade cerebral mais diversa, não um cérebro com poderes especiais
Por que 13 de agosto virou o Dia do Canhoto?
A história da comemoração possui dois momentos que frequentemente aparecem misturados.
Relatos históricos sobre a data remontam a 13 de agosto de 1976, quando Dean R. Campbell, ligado à organização Lefthanders International, promoveu uma celebração dedicada às pessoas canhotas. Esse episódio costuma ser apontado como o primeiro Dia do Canhoto.
O marco mais bem documentado da comemoração internacional atual veio depois.
O próprio Left-Handers Club afirma que lançou o International Left-Handers Day em 13 de agosto de 1992, criando um evento anual para celebrar a lateralidade esquerda e aumentar a conscientização sobre as vantagens e dificuldades de ser canhoto.
A organização chegou a promover no Reino Unido as chamadas “Lefty Zones”, espaços em que destros eram convidados a experimentar atividades utilizando equipamentos para canhotos. A brincadeira tinha um objetivo bastante inteligente: fazer a maioria sentir, mesmo que durante alguns minutos, a estranheza de utilizar um objeto projetado para a mão oposta.
Basta tentar.
Pegue uma tesoura para canhotos com a mão direita.
Utilize um abridor projetado ao contrário.
Tente escrever confortavelmente em uma carteira com apoio apenas do lado esquerdo.
Rapidamente aparece uma sensação de que alguma coisa está fora do lugar.
Para um canhoto, durante muito tempo, o mundo inteiro ofereceu pequenas experiências como essas.
O mundo ainda é mais difícil para quem é canhoto?
Muito menos do que já foi, mas alguns desafios permanecem.
Tesouras são um ótimo exemplo porque não se trata apenas da posição dos dedos. A maneira como as lâminas se sobrepõem pode favorecer a visão do corte e a pressão realizada por determinada mão.
Cadernos de espiral também revelam uma dificuldade óbvia.
Para um destro escrevendo da esquerda para a direita, a mão avança sobre uma área ainda vazia da página.
Para um canhoto, a mão frequentemente passa sobre as palavras recém-escritas. Dependendo da tinta, isso significa borrões nos dedos e no próprio texto.
Instrumentos musicais, ferramentas elétricas, utensílios de cozinha, equipamentos esportivos e diferentes interfaces também passaram décadas sendo produzidos principalmente para destros.
Hoje existe uma enorme variedade de produtos específicos para canhotos, mas nem sempre foi assim.
E houve uma época em que o problema ia muito além da ergonomia.
Crianças canhotas foram durante décadas obrigadas em diferentes lugares do mundo a aprender a escrever com a mão direita. A própria literatura científica sobre lateralidade registra a influência de fatores culturais e sociais sobre a maneira como a preferência manual era expressa e medida.
A linguagem também guarda vestígios dessa visão antiga.
A palavra “sinistro”, em português, tem origem no latim sinister, termo associado originalmente ao lado esquerdo e que, ao longo da história, também adquiriu sentidos ligados ao mau presságio.
Do outro lado aparece a raiz latina dexter, relacionada à direita e da qual surgem palavras associadas à destreza.
É quase como se o próprio vocabulário tivesse escolhido um lado.
O Dia do Canhoto ajuda justamente a inverter essa lógica.
Em vez de apresentar a lateralidade esquerda como uma falha que deveria ser corrigida, a data transforma a diferença em motivo de curiosidade.
E há exemplos históricos excelentes para isso.
Leonardo da Vinci é provavelmente o canhoto mais famoso da história da arte.
Registros de contemporâneos indicam que Leonardo escrevia e pintava utilizando a mão esquerda. Seus cadernos também ficaram famosos pela chamada escrita espelhada, realizada frequentemente da direita para a esquerda. O Museum of Science de Boston observa que escrever dessa maneira poderia inclusive ajudar um canhoto a evitar que a mão passasse sobre a tinta recém-aplicada, embora não exista consenso de que esse tenha sido o único motivo para Leonardo usar a técnica.
Imagine uma página de Leonardo.
Para quem olha normalmente, as letras parecem invertidas.
Coloque um espelho ao lado e elas passam a fazer sentido.
Séculos depois, outro canhoto transformaria uma adaptação em parte de sua própria imagem.
Jimi Hendrix tornou-se conhecido por tocar guitarras para destros viradas e encordoadas para utilização com a mão esquerda. A configuração alterava inclusive algumas características físicas e sonoras do instrumento, especialmente em modelos como a Fender Stratocaster.
E então temos Paul McCartney.
Quando os Beatles ainda estavam começando, McCartney comprou seu famoso baixo Höfner 500/1. O formato simétrico do instrumento era especialmente adequado para um músico canhoto. O próprio site oficial do artista destaca que o modelo podia ser usado confortavelmente por canhotos e que aquele baixo acompanhou McCartney durante os primeiros anos do grupo.
O instrumento acabou se transformando em uma espécie de extensão visual do músico.
Há algo curioso nesses três casos.
Leonardo adaptou sua escrita.
Hendrix adaptou instrumentos.
McCartney encontrou um instrumento cujo formato funcionava particularmente bem invertido.
Em épocas completamente diferentes, todos tiveram de negociar de alguma maneira com um mundo majoritariamente construído para a mão direita.

Apenas cerca de uma em cada dez pessoas é canhota. Talvez por isso a maioria de nós nem perceba quantos objetos cotidianos foram desenhados pensando exclusivamente na mão direita
Por que uma pessoa nasce canhota?
Aqui a história sai das tesouras e guitarras e entra no cérebro.
Durante muito tempo, diferentes explicações tentaram transformar a lateralidade em algo simples.
Existiria um “gene do canhoto”.
Ou a pessoa seria canhota porque utilizaria predominantemente o hemisfério direito.
Ou ainda porque seu cérebro seria naturalmente mais artístico e criativo.
A realidade é muito mais interessante.
A preferência manual é uma característica complexa. Estudos genéticos indicam que existe componente hereditário, mas não há um único gene capaz de decidir sozinho se uma pessoa será destra ou canhota.
Em 2024, pesquisadores analisaram dados genéticos de 38.043 canhotos e 313.271 destros do UK Biobank para procurar variantes raras relacionadas à lateralidade. Um dos principais resultados envolveu o gene TUBB4B, no qual variantes raras codificantes apareceram 2,7 vezes mais frequentemente entre canhotos do que entre destros.
Parece uma descoberta enorme.
E é interessante.
Mas ela não significa que cientistas tenham finalmente encontrado “o gene do canhoto”.
Essas variantes são raras e explicam apenas uma pequena parcela da preferência manual. O estudo reforça justamente a ideia de que lateralidade surge de uma combinação complexa de processos genéticos e de desenvolvimento.
Também existe relação entre preferência manual e lateralização cerebral.
A linguagem, por exemplo, tende a apresentar dominância no hemisfério esquerdo na grande maioria dos destros. Entre canhotos, a distribuição é mais variável, embora muitos deles também utilizem predominantemente o hemisfério esquerdo para funções linguísticas.
Isso desmonta aquele desenho popular em que o cérebro aparece dividido ao meio:
“esquerdo igual lógica”.
“direito igual criatividade”.
O cérebro humano não funciona como dois departamentos independentes.
Funções como criatividade, linguagem, memória, raciocínio e percepção dependem de redes distribuídas que trabalham em conjunto.
Uma pesquisa publicada recentemente sobre lateralidade e criatividade entre artistas, por exemplo, questionou diretamente a crença de que pessoas canhotas seriam necessariamente mais criativas ou mais propensas a se tornarem artistas.
Ser canhoto não concede automaticamente superpoder artístico.
O fato de Leonardo, Hendrix ou McCartney usarem a mão esquerda é fascinante.
Não significa que usavam a mão esquerda porque eram gênios.
Ser canhoto não torna alguém automaticamente mais criativo ou inteligente. O que a ciência encontra é uma lateralidade cerebral mais diversa, não um cérebro com poderes especiais.
Existe alguma vantagem real em ser canhoto?
Em determinadas situações competitivas, aparentemente sim.
Uma das hipóteses mais interessantes envolve esportes nos quais dois adversários precisam reagir rapidamente um ao outro.
Pense em tênis.
Esgrima.
Tênis de mesa.
Boxe.
Se aproximadamente 90% das pessoas são destras, atletas passam grande parte da vida enfrentando adversários destros.
Quando surge alguém atacando pelo lado oposto, a experiência acumulada pode ser menos útil.
Um estudo publicado pela Royal Society encontrou evidências de vantagem para canhotos especialmente em esportes interativos submetidos a grande pressão de tempo. A raridade do adversário canhoto pode dificultar a antecipação de seus movimentos.
Pesquisas mais recentes continuam encontrando representação elevada de canhotos em algumas modalidades antagonísticas, embora o efeito não apareça da mesma maneira em todos os esportes.
É uma vantagem curiosa porque nasce justamente da minoria.
O canhoto pode ser mais difícil de enfrentar porque quase todo mundo treinou muito mais contra o outro lado.
Fora dos esportes, porém, não existe razão científica para imaginar que ser canhoto seja uma vantagem ou desvantagem geral em inteligência, talento ou capacidade.
É simplesmente uma das maneiras pelas quais o cérebro humano organiza a preferência motora.
E talvez isso torne o Dia do Canhoto ainda mais interessante.
Estamos falando de uma característica presente em aproximadamente 10% da humanidade, conhecida há milhares de anos, extremamente fácil de perceber e que, ainda assim, não possui uma explicação única e definitiva.
A ciência já encontrou componentes genéticos.
Já identificou diferenças médias de lateralização cerebral.
Já observou influências culturais.
Já descobriu vantagens específicas em determinados esportes.
Mas ainda não existe uma resposta do tipo:
“Você é canhoto exatamente por causa disso.”
Talvez seja justamente por isso que 13 de agosto merece uma pequena experiência.
Se você for destro, tente passar alguns minutos fazendo tarefas comuns com a mão esquerda.
Abra uma lata.
Use uma tesoura.
Escreva uma frase.
Maneje o mouse.
Tente utilizar algum equipamento feito para a mão direita segurando-o do outro lado.
Provavelmente você sentirá uma estranha mistura de lentidão, falta de coordenação e irritação.
Depois imagine crescer em uma época em que a solução apresentada para esse desconforto não era fabricar um objeto adequado para sua mão.
Era dizer que a sua mão estava errada.
Foi essa visão que mudou.
Hoje, ser canhoto pode significar apenas comprar uma tesoura diferente, inverter algumas configurações ou procurar um instrumento adequado.
E isso parece pouco.
Mas é justamente o tipo de mudança cotidiana que mostra por que o Dia do Canhoto não celebra apenas a mão esquerda.
Celebra o direito de não precisar transformar uma diferença perfeitamente humana em algo que deveria ser corrigido.