Homens do Egito Antigo tinham folga quando a esposa menstruava?

Homens do Egito Antigo tinham folga quando a esposa menstruava?

Os documentos revelam um cotidiano surpreendentemente detalhado na vila dos artesãos responsáveis pelas tumbas reais.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine chegar ao trabalho há mais de 3 mil anos, encontrar o responsável pela equipe e explicar que naquele dia você não poderia trabalhar porque sua esposa estava menstruada. Mas afinal, homens do Egito Antigo tinham folga quando a esposa menstruava?

Hoje, uma justificativa como essa provavelmente despertaria uma sequência de perguntas. No Egito Antigo, porém, situações semelhantes chegaram a ser registradas oficialmente entre os motivos de ausência de trabalhadores.

A evidência aparece em documentos encontrados em Deir el-Medina, uma antiga comunidade localizada na margem oeste de Tebas, perto da atual Luxor. Ali viviam artesãos e trabalhadores especializados responsáveis pela construção e decoração de algumas das tumbas reais do Novo Império, incluindo sepultamentos no Vale dos Reis.

E esses trabalhadores deixaram algo extraordinário para os historiadores.

Listas de presença.

Uma delas é um grande pedaço de calcário atualmente preservado pelo Museu Britânico. O objeto, conhecido como ostracon EA 5634, foi produzido durante o reinado de Ramsés II e registra a presença e as ausências de dezenas de trabalhadores ao longo de cerca de 280 dias.

Ao lado das datas em que cada pessoa não apareceu para trabalhar, um escriba anotou o motivo.

Doença, cerimônias, compromissos familiares, trabalhos realizados para outras pessoas e até uma picada de escorpião aparecem entre as explicações.

Mas existe um motivo que chama especialmente a atenção de quem lê o documento mais de três milênios depois: alguns homens do Egito Antigo faltaram porque suas esposas ou filhas estavam menstruadas.

Não se trata de uma interpretação criada recentemente nas redes sociais. O tema vem sendo estudado por egiptólogos há décadas.

A surpresa começa quando tentamos descobrir o que exatamente aquelas ausências significavam.

O documento comprova que a menstruação de mulheres da família podia aparecer como justificativa para a ausência masculina. O que ele não comprova é que existisse uma “licença menstrual para maridos” como entendemos hoje.

Quando pensamos no Egito Antigo, nossa imaginação normalmente começa pelas pirâmides, faraós, múmias, templos e enormes estátuas de pedra.

Quando pensamos no Egito Antigo, nossa imaginação normalmente começa pelas pirâmides, faraós, múmias, templos e enormes estátuas de pedra

Por que homens do Egito Antigo faltavam quando mulheres menstruavam?

No ostracon do período de Ramsés II, 40 trabalhadores aparecem registrados. Apenas dois deles não possuem nenhuma falta anotada, enquanto os demais apresentam períodos de ausência que variam de um a 39 dias.

Dez trabalhadores, segundo a análise apresentada pelo Centro para o Estudo das Culturas de Manuscritos da Universidade de Hamburgo, tiveram entre suas justificativas a menstruação da esposa, da filha ou de ambas.

Em uma das anotações, o trabalhador Neferabu aparece ausente porque sua filha estava em um período traduzido pelos pesquisadores como menstruação ou, literalmente, “purificação”.

Em outro caso, um homem chamado Simut não trabalhou porque sua esposa estava menstruada.

O mais interessante é que exemplos semelhantes aparecem em outras listas de ausência da 19ª Dinastia, indicando que não se tratava simplesmente de uma justificativa absurda inventada por um único trabalhador naquele dia.

Mas por quê?

Essa pergunta ainda não possui uma resposta definitiva.

Uma das hipóteses levantadas por pesquisadores é extremamente cotidiana: talvez a ausência estivesse relacionada ao funcionamento da própria casa.

Se a esposa ou uma filha responsável por determinadas atividades domésticas estivesse temporariamente impossibilitada de realizá-las, o homem poderia precisar permanecer em casa para assumir parte dessas funções.

A própria irregularidade das faltas é importante.

Se todo homem tivesse automaticamente direito a faltar sempre que a esposa menstruasse, seria esperado encontrar ausências recorrentes praticamente todos os meses.

Não é isso que os registros mostram.

Por esse motivo, os pesquisadores consideram provável que apenas determinadas circunstâncias relacionadas à menstruação justificassem a ausência masculina.

É muito diferente, portanto, de imaginar um departamento de recursos humanos egípcio concedendo cinco dias de folga mensal para cada marido.

A realidade provavelmente era muito mais prática.

Não era exatamente uma licença menstrual

Nas redes sociais, essa história frequentemente aparece transformada em uma afirmação impressionante: “No Egito Antigo, homens tinham licença para cuidar das esposas menstruadas”.

A frase possui uma base histórica real, mas vai além do que as evidências permitem afirmar.

Sabemos que a menstruação de esposas e filhas aparece como motivo registrado para ausências masculinas.

Não sabemos exatamente o que cada trabalhador fazia durante aquele período.

Não existe nesses documentos uma regra conhecida dizendo quantos dias poderiam ser utilizados, quais mulheres da família davam direito à ausência ou se havia uma política geral equivalente a uma licença trabalhista moderna.

Nem sequer podemos garantir que a principal motivação fosse “cuidar” da mulher no sentido contemporâneo da palavra.

Talvez o trabalhador precisasse cuidar de crianças, preparar alimentos, buscar água, administrar determinadas atividades domésticas ou simplesmente substituir alguém que naquele momento não estava realizando seu trabalho habitual.

Há ainda discussões acadêmicas sobre o significado cultural e ritual da menstruação no Egito Antigo.

O egiptólogo Paul John Frandsen dedicou um estudo especificamente àquilo que chamou de “tabu menstrual” egípcio, analisando justamente a presença da menstruação de esposas e filhas nas listas de trabalhadores de Deir el-Medina.

Isso significa que precisamos evitar dois extremos.

Não há evidência suficiente para concluir que os antigos egípcios tratavam a menstruação exatamente como uma sociedade moderna preocupada com igualdade de gênero e divisão de tarefas.

Mas também seria errado imaginar que o assunto era completamente invisível ou ignorado.

Ele aparecia até na burocracia.

E talvez seja justamente isso que torne esses documentos tão fascinantes.

O documento comprova que a menstruação de mulheres da família podia aparecer como justificativa para a ausência masculina

O documento comprova que a menstruação de mulheres da família podia aparecer como justificativa para a ausência masculina

O que os registros revelam sobre os homens do Egito Antigo?

Quando pensamos no Egito Antigo, nossa imaginação normalmente começa pelas pirâmides, faraós, múmias, templos e enormes estátuas de pedra.

Deir el-Medina mostra outra coisa.

A vida comum.

Os habitantes da vila eram profissionais altamente especializados. Pintores, escultores, desenhistas e artesãos trabalhavam nas tumbas da elite real. O contato constante com a arte oficial egípcia fazia daqueles trabalhadores um grupo particularmente qualificado.

Eles também viviam em uma comunidade altamente documentada.

Papirus eram materiais relativamente caros, mas pedaços quebrados de cerâmica e lascas de pedra estavam disponíveis em abundância. Esses fragmentos, chamados ostraca, acabaram servindo como uma espécie de papel barato para anotações, cartas, exercícios, desenhos e documentos administrativos.

O resultado foi um gigantesco arquivo acidental da vida cotidiana.

O ostracon de presença hoje no Museu Britânico tem 38,5 centímetros de altura por 33 centímetros de largura. O texto foi escrito em hierático, uma forma cursiva da escrita egípcia, utilizando tinta preta e vermelha. Os nomes aparecem em preto, enquanto informações importantes, incluindo justificativas das faltas, eram destacadas em vermelho.

É quase uma planilha de RH feita em pedra.

O escriba registrava quem havia faltado, quando isso aconteceu e por quê.

E as justificativas tornam aquelas pessoas surpreendentemente próximas de nós.

Um trabalhador chamado Paherypedjet parece ter exercido atividades relacionadas à cura e aparece ausente diversas vezes porque estava visitando pessoas ou preparando remédios.

Outro, Pennub, não foi trabalhar porque estava carregando pedras para o escriba.

Doenças eram a causa mais comum de ausência. Em alguns períodos, vários trabalhadores adoeceram em sequência, levantando inclusive a possibilidade de surtos de doenças contagiosas naquela comunidade.

Há registros de problemas nos olhos.

E um homem chamado Seba aparentemente perdeu um dia de serviço porque foi picado por um escorpião.

Três mil anos depois, as desculpas parecem estranhamente familiares.

Doença na família. Compromissos domésticos. Trabalho para outra pessoa. Eventos comunitários. Problemas de saúde.

Só o escorpião talvez seja um pouco menos comum nos escritórios atuais.

Os registros de Deir el-Medina transformam pessoas que viveram há mais de três milênios em trabalhadores com doenças, famílias, responsabilidades e dias em que simplesmente não puderam aparecer no emprego.

As mulheres aparecem mesmo quando o documento fala de homens

Existe ainda uma característica particularmente interessante nessas listas.

Embora o registro acompanhe trabalhadores homens, as mulheres aparecem indiretamente dentro da documentação administrativa.

A menstruação de uma esposa ou filha podia produzir uma consequência prática suficiente para alterar a presença de um trabalhador na equipe.

Isso demonstra algo importante sobre o estudo da vida cotidiana no mundo antigo.

Grandes documentos políticos normalmente contam histórias sobre faraós, guerras, impostos e monumentos.

Uma pequena anotação em um pedaço de pedra pode revelar como uma família se organizava.

E é preciso cuidado ao interpretar esse tipo de evidência.

O fato de um homem faltar porque a esposa estava menstruada não prova automaticamente que existia uma divisão igualitária das atividades domésticas.

Também não revela exatamente como aquela mulher estava se sentindo.

Talvez houvesse dor ou mal-estar. Talvez existissem costumes relacionados ao período menstrual. Talvez determinadas atividades fossem evitadas. Talvez mais de um desses fatores estivesse presente ao mesmo tempo.

Os registros administrativos simplesmente não oferecem detalhes suficientes para reconstruir toda a situação.

Mas eles permitem afirmar uma coisa surpreendente: a menstruação de mulheres fazia parte das circunstâncias familiares consideradas relevantes o bastante para aparecer nos registros de trabalho de alguns homens.

Isso por si só já desmonta a ideia de que temas relacionados à saúde feminina eram completamente apagados da documentação egípcia.

Também nos lembra que a história não avança em uma linha simples.

Não faz sentido dizer que “o Egito Antigo era mais moderno do que nós”, assim como seria simplista imaginar que uma sociedade de três mil anos atrás não possuía qualquer forma de organização complexa do trabalho e da família.

As relações sociais daquele período pertenciam a outra cultura, com outras regras, crenças e estruturas.

O curioso é perceber pequenos pontos de contato.

Hoje, empresas discutem licença para acompanhamento de familiares, divisão do trabalho doméstico, saúde menstrual e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Há mais de três milênios, um escriba egípcio já precisava anotar que determinado funcionário não apareceu porque alguma coisa estava acontecendo em casa.

E, em alguns desses dias, essa “alguma coisa” era a menstruação da esposa ou da filha.

Portanto, quando alguém afirmar que os homens do Egito Antigo possuíam uma licença oficial para cuidar das esposas menstruadas, vale fazer uma correção.

Não sabemos se havia uma licença.

Não sabemos exatamente se eles estavam cuidando diretamente delas.

Mas a parte aparentemente mais inacreditável da história é verdadeira.

Alguns homens realmente deixaram de trabalhar, e a menstruação de uma mulher da família ficou registrada como motivo da ausência.

Três mil anos depois, o escriba que anotou aquilo talvez nunca imaginasse que sua lista de presença se transformaria em uma das janelas mais curiosas para a vida privada no Egito dos faraós.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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