O que é ciclone bomba? Entenda o fenômeno que pode atingir o Sul do Brasil

O que é ciclone bomba? Entenda o fenômeno que pode atingir o Sul do Brasil

Os ventos mais intensos devem ocorrer sobre o oceano, mas rajadas fortes também podem alcançar o continente.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

O céu ainda pode parecer tranquilo quando os primeiros sinais começam a se organizar a milhares de quilômetros de distância. Uma área de baixa pressão avança entre o Paraguai e o norte da Argentina, encontra ar quente e úmido e, pouco a pouco, ganha força em direção ao Uruguai e ao litoral do Rio Grande do Sul.

É desse encontro entre diferentes condições atmosféricas que poderá surgir um intenso ciclone extratropical no Atlântico Sul. Os modelos meteorológicos indicam a possibilidade de uma rápida queda da pressão no centro do sistema, fenômeno conhecido como ciclogênese explosiva ou, de maneira mais popular, ciclone bomba.

O Instituto Nacional de Meteorologia acompanha o sistema e prevê os principais impactos entre quinta-feira, 6 de agosto, e sábado, 8 de agosto. A Região Sul poderá registrar chuva intensa, descargas elétricas, queda de granizo e rajadas fortes de vento. O sul de Mato Grosso do Sul e áreas próximas à divisa entre São Paulo e Paraná também podem ser atingidos pelas instabilidades associadas à frente fria.

Apesar do nome assustador, um ciclone bomba não explode e não representa uma bomba no sentido literal. A expressão descreve a velocidade com que a pressão atmosférica diminui e o sistema ganha intensidade.

Outro ponto importante é que ainda não é possível afirmar definitivamente que o fenômeno receberá essa classificação. Os modelos indicam um cenário compatível, mas a confirmação dependerá da evolução realmente observada nas próximas horas.

O perigo não está no nome “bomba”, mas na rapidez com que o sistema pode se intensificar e provocar mudanças severas no tempo.

Mesmo com o centro do ciclone sobre o oceano, a frente fria e as linhas de instabilidade podem provocar impactos severos dentro do continente.

Mesmo com o centro do ciclone sobre o oceano, a frente fria e as linhas de instabilidade podem provocar impactos severos dentro do continente

O que é um ciclone bomba e por que recebe esse nome?

Um ciclone é uma extensa região de baixa pressão atmosférica. No Hemisfério Sul, os ventos circulam ao redor de seu centro no sentido horário. O ar converge para essa área de menor pressão, sobe e favorece a formação de nuvens, chuva e tempestades.

O sistema previsto para o Atlântico Sul é um ciclone extratropical, formado principalmente pelo contraste entre massas de ar com características diferentes. O encontro entre o ar quente e úmido vindo de latitudes mais baixas e o ar frio que avança pelo sul do continente cria condições favoráveis ao desenvolvimento de uma frente fria.

Ciclones extratropicais não são o mesmo que furacões. Os furacões são ciclones tropicais alimentados principalmente pelo calor das águas oceânicas. Já os extratropicais estão relacionados a frentes e ao contraste de temperatura entre massas de ar.

O termo ciclone bomba é utilizado quando um ciclone de latitudes médias se intensifica muito rapidamente durante aproximadamente 24 horas. A referência clássica considera uma queda de 24 hectopascais em 24 horas na latitude de 60 graus, mas o valor necessário varia conforme a latitude em que o fenômeno acontece.

Essa queda indica que o centro de baixa pressão está ficando mais profundo e que a diferença entre a pressão interna e a pressão das áreas ao redor está aumentando. Quanto maior esse gradiente, maior pode ser a velocidade dos ventos associados ao sistema.

A palavra “bomba” surgiu como uma comparação com a intensificação explosiva. Ela não significa que o ciclone produzirá uma explosão, nem que os efeitos acontecerão simultaneamente em todas as cidades.

Por que a classificação ainda não está confirmada?

O modelo COSMO utilizado pelo Inmet indica que o sistema deverá começar a se organizar na manhã de quinta-feira, 6 de agosto. A área de baixa pressão se desenvolverá sobre o norte da Argentina e o Paraguai, avançando posteriormente para uma região entre o Uruguai e o litoral gaúcho.

A previsão aponta pressão central próxima de 967 hectopascais na sexta-feira, 7 de agosto. No sábado, 8 de agosto, o valor poderá cair para aproximadamente 941 hectopascais, chegando perto de 940 hectopascais durante a fase mais intensa.

Essa redução de aproximadamente 26 hectopascais em 24 horas seria compatível com um processo de ciclogênese explosiva. Depois de alcançar sua maior intensidade, o ciclone deverá avançar para sudeste e se afastar gradualmente da costa sul-americana.

No entanto, modelos meteorológicos não são fotografias exatas do futuro. Eles utilizam dados atmosféricos, equações e simulações para estimar como o sistema poderá evoluir. A posição, a velocidade, a pressão e a intensidade podem mudar conforme novas observações são incorporadas.

Por isso, o Inmet ainda utiliza a expressão “possível formação”. Para confirmar que houve um ciclone bomba, será necessário verificar se a queda da pressão central realmente atingiu o critério correspondente à latitude do sistema.

Uma pequena alteração na trajetória também pode mudar a distribuição dos impactos. Se o ciclone se formar mais perto da costa, os ventos poderão ser mais fortes sobre áreas continentais. Caso se aprofunde mais distante, as rajadas mais intensas ficarão concentradas sobre o oceano.

Quando o ciclone bomba pode afetar o Brasil?

Os efeitos mais significativos são esperados entre os dias 6 e 8 de agosto. Antes mesmo de o ciclone atingir sua fase mais intensa, a frente fria associada ao sistema poderá produzir tempestades severas no Sul.

Na quinta-feira, as instabilidades devem avançar com maior força sobre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e partes do Paraná. Também existe possibilidade de chuva forte no sul de Mato Grosso do Sul e em regiões próximas à fronteira entre o Paraná e São Paulo.

O Inmet colocou todo o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, o oeste e o sul do Paraná e o sul de Mato Grosso do Sul sob aviso laranja de perigo para tempestades durante a intensificação do sistema. As demais áreas do Sul e partes do Centro-Oeste e do Sudeste permanecem sob atenção para possíveis mudanças no cenário.

A presença de ar quente e úmido antes da chegada da frente fria aumenta a instabilidade. Quando o ar frio avança, pode forçar o ar quente a subir rapidamente, favorecendo a formação de nuvens carregadas, raios, granizo e rajadas repentinas.

Linhas de instabilidade também podem se organizar entre o Sul do Brasil e o Paraguai. Essas estruturas são formadas por tempestades alinhadas e podem produzir frentes de rajada, com ventos que chegam de maneira abrupta antes ou durante a chuva.

Os ventos mais fortes relacionados à circulação do ciclone devem ocorrer sobre o Oceano Atlântico. Próximo ao centro do sistema, as rajadas podem superar 100 km/h. Na faixa costeira e em áreas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, o Inmet prevê rajadas superiores a 60 km/h entre os dias 6 e 8.

Essas velocidades podem derrubar galhos, deslocar objetos, danificar coberturas frágeis e provocar interrupções no fornecimento de energia. Rajadas associadas a tempestades isoladas também podem ser mais fortes em determinados pontos, mesmo longe do centro do ciclone.

A chuva não será necessariamente contínua ou distribuída da mesma forma por toda a região. Algumas cidades poderão enfrentar temporais intensos em um período curto, enquanto municípios próximos terão volumes menores.

O granizo também deverá ocorrer de maneira localizada. Isso significa que não atingirá todo o estado ou todas as cidades sob aviso, mas pode provocar danos importantes onde as nuvens mais severas se desenvolverem.

Mesmo com o centro do ciclone sobre o oceano, a frente fria e as linhas de instabilidade podem provocar impactos severos dentro do continente.

Depois que o ciclone começar a se afastar, uma área de alta pressão avançará sobre a Argentina e o Sul do Brasil. Esse movimento favorecerá a entrada de uma massa de ar frio e a queda das temperaturas.

O resfriamento deverá ser sentido inicialmente na Região Sul e poderá alcançar áreas do Centro-Oeste e do Sudeste nos dias seguintes. A intensidade do frio dependerá da trajetória e da força da massa de ar polar.

O perigo não está no nome “bomba”, mas na rapidez com que o sistema pode se intensificar e provocar mudanças severas no tempo.

O perigo não está no nome “bomba”, mas na rapidez com que o sistema pode se intensificar e provocar mudanças severas no tempo

Como se proteger de temporais e ventos fortes?

O primeiro cuidado é acompanhar os avisos oficiais do Inmet e das Defesas Civis estaduais e municipais. A previsão pode ser atualizada várias vezes ao longo do dia, principalmente quando o sistema começa a se formar e os meteorologistas recebem novas informações.

Durante rajadas fortes, a população deve evitar áreas abertas e manter distância de árvores, placas, estruturas metálicas, postes e coberturas frágeis. Veículos não devem ser estacionados perto de árvores ou torres que possam cair.

Em caso de granizo, o mais seguro é procurar abrigo em uma construção resistente. Permanecer debaixo de árvores não é recomendado, pois há risco de queda de galhos e descargas elétricas.

Objetos soltos em quintais, sacadas e varandas devem ser recolhidos ou fixados. Vasos, cadeiras, ferramentas e materiais de construção podem ser lançados pelo vento e causar acidentes.

Durante tempestades com raios, é recomendável evitar o uso de aparelhos conectados à tomada. Quando houver risco elevado, o Inmet também orienta desligar equipamentos elétricos e, se possível, o quadro geral de energia.

Quem estiver dirigindo deve reduzir a velocidade, aumentar a distância do veículo à frente e evitar atravessar ruas ou estradas alagadas. A profundidade da água pode ser maior do que parece, e a correnteza pode arrastar veículos.

Moradores de áreas com histórico de alagamentos, enxurradas ou deslizamentos devem observar sinais de risco e seguir imediatamente as orientações da Defesa Civil. Em situações de emergência, os telefones são 199 para a Defesa Civil e 193 para o Corpo de Bombeiros.

Também é importante não interpretar a ausência de chuva pela manhã como sinal de que o perigo passou. Tempestades podem se desenvolver rapidamente e atingir uma cidade em poucos minutos.

A previsão disponível na tarde de 5 de agosto indica um cenário de atenção, mas não significa que todas as áreas do Sul sofrerão tempestades destrutivas. Os impactos serão irregulares e dependerão da formação das nuvens, da trajetória da frente fria e da evolução do ciclone.

O fenômeno oferece um bom exemplo de como a linguagem meteorológica pode assustar quando aparece sem explicação. “Ciclone bomba” soa como algo repentino e fora do comum, mas descreve um processo específico de intensificação atmosférica.

Ainda assim, o fato de existir uma explicação científica não reduz a necessidade de cuidado. Uma rápida queda de pressão pode formar um sistema muito intenso, aumentar a força dos ventos e favorecer tempestades severas.

O melhor caminho é evitar alarmismo, mas também não ignorar os avisos. Entre quinta-feira e sábado, moradores do Sul do Brasil devem acompanhar as atualizações, preparar suas casas e adaptar deslocamentos quando houver alerta para sua cidade.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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