Conheça o paraíso dos idosos no Brasil, cidade com 107 centenários

Conheça o paraíso dos idosos no Brasil, cidade com 107 centenários

O município reúne 107 centenários, programas de envelhecimento ativo e um jardim reconhecido pelo Guinness.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

O dia começa cedo na orla de Santos. Enquanto o sol aparece sobre o mar, grupos caminham pelo calçadão, pessoas pedalam pela ciclovia e moradores se encontram nos bancos espalhados entre árvores, flores e monumentos. Muitos desses frequentadores já passaram dos 60, dos 70 ou dos 80 anos.

A cena ajuda a entender por que Santos, no litoral de São Paulo, ganhou fama de paraíso dos idosos. A cidade reúne praia, áreas para atividades ao ar livre, serviços de saúde, programas de convivência e uma das populações mais envelhecidas entre os grandes municípios brasileiros.

De acordo com dados municipais baseados no Censo Demográfico de 2022, cerca de 25,3% dos habitantes de Santos possuem 60 anos ou mais. Isso representa mais de 106 mil pessoas em uma cidade que tinha 418.608 moradores no levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O mesmo Censo encontrou 107 moradores com pelo menos 100 anos. Entre eles, estavam 91 mulheres e apenas 16 homens, uma diferença que acompanha a forte presença feminina na composição da população santista.

Esses números são impressionantes, mas precisam ser interpretados corretamente. Eles não provam que morar em Santos faça alguém viver mais, nem revelam uma fórmula secreta para chegar aos 100 anos. Longevidade depende de genética, alimentação, renda, acesso aos serviços de saúde, vínculos sociais, condições ambientais e diferentes acontecimentos acumulados ao longo da vida.

Ter 107 centenários não transforma Santos em uma fonte da juventude, mas revela uma cidade que precisa organizar sua estrutura para uma população cada vez mais velha.

Uma cidade amiga da pessoa idosa não é apenas aquela que oferece praia e jardins, mas a que permite envelhecer com autonomia, segurança e participação

Uma cidade amiga da pessoa idosa não é apenas aquela que oferece praia e jardins, mas a que permite envelhecer com autonomia, segurança e participação

Por que Santos é chamada de paraíso dos idosos?

A expressão está ligada principalmente ao perfil demográfico da cidade e à maneira como a orla se integra ao cotidiano. Em vez de ser apenas uma área visitada durante as férias, a praia funciona como extensão da vida urbana.

O município possui sete quilômetros de praias acompanhados por calçadão, ciclovias, espaços esportivos e áreas de convivência. Entre a avenida e a areia está um jardim que se tornou o maior símbolo da cidade.

O Guinness World Records reconhece o jardim frontal das praias de Santos como o maior do mundo em sua categoria. A área verde possui 5,3 quilômetros de extensão e 218,8 mil metros quadrados, atravessados por seis dos tradicionais canais santistas. O recorde foi registrado em 29 de julho de 1999.

A vegetação forma um corredor que conecta diferentes bairros e permite caminhar longas distâncias sem abandonar a paisagem marítima. O espaço também reúne canteiros, árvores, palmeiras, monumentos, fontes e equipamentos públicos.

Segundo as informações reunidas no material-base, o jardim possui aproximadamente 1.800 árvores, 1.300 canteiros e mais de 70 espécies ornamentais. As plantas são escolhidas não apenas pela aparência, mas também pela capacidade de resistir ao vento, à salinidade, à maresia e à exposição constante ao sol.

A possibilidade de realizar atividades ao ar livre pode favorecer movimento, contato social e ocupação dos espaços públicos. Ainda assim, o jardim não beneficia exclusivamente a população idosa. Crianças, trabalhadores, turistas, atletas e moradores de todas as idades compartilham diariamente o mesmo corredor verde.

O que explica a presença de tantos moradores idosos?

Parte da resposta está no próprio envelhecimento da população brasileira. As pessoas vivem por mais tempo, as famílias têm menos filhos e a proporção de moradores nas faixas etárias mais avançadas aumenta em diferentes regiões do país.

Em Santos, esse processo aparece de maneira mais intensa. A participação de pessoas com 60 anos ou mais chega a aproximadamente um quarto da população, enquanto a média nacional registrada para esse grupo no Censo 2022 ficou abaixo desse percentual.

A cidade também pode atrair aposentados e famílias que buscam proximidade com a praia sem abandonar completamente uma estrutura urbana de grande porte. Santos está a cerca de 70 quilômetros da capital paulista, possui hospitais, universidades, comércio, serviços e conexão com os demais municípios da Baixada Santista.

O clima, a possibilidade de caminhar em áreas planas da parte insular e a oferta de atividades culturais também contribuem para a imagem de destino adequado ao envelhecimento. Essa relação, porém, não pode ser generalizada para todos os bairros ou moradores.

Santos possui morros, áreas com calçadas irregulares, trânsito intenso e diferenças importantes entre regiões. Uma pessoa com renda elevada, plano de saúde e moradia próxima à praia pode ter uma experiência muito diferente daquela vivida por alguém em situação de vulnerabilidade.

A fama de paraíso dos idosos também não significa que todos os serviços sejam suficientes diante da demanda. Quanto maior a população idosa, maior é a necessidade de ampliar atendimento médico, transporte acessível, prevenção de quedas, moradias adequadas, proteção contra violência e apoio para quem perdeu a autonomia.

Quais serviços ajudam a sustentar essa fama?

A presença de mais de 100 mil pessoas idosas levou Santos a desenvolver diferentes políticas públicas. A cidade mantém programas relacionados a saúde, cultura, assistência social, inclusão digital, esporte e convivência.

Uma das iniciativas é o Televida, serviço público de teleassistência domiciliar criado inicialmente em 2013. Pessoas idosas que atendem aos critérios do programa recebem um dispositivo que pode ser acionado em casos de queda, mal-estar ou acidente doméstico, permitindo contato com uma central de atendimento. Em 2024, o serviço atendia mais de 470 participantes.

Outro exemplo é o Vovô Sabe Tudo, que valoriza conhecimentos e experiências de pessoas mais velhas por meio de atividades com outras gerações. A proposta combate a ideia de que envelhecer significa deixar de aprender, produzir ou participar da vida comunitária.

Santos também foi incluída no programa Envelhecer nos Territórios, uma iniciativa federal voltada ao levantamento das condições de vida e das possíveis violações de direitos enfrentadas pela população idosa. O trabalho foi planejado para ouvir aproximadamente 4,5 mil pessoas e orientar novas políticas públicas.

Atividades físicas, bailes, cursos, oficinas culturais e ações de conscientização complementam essa estrutura. A cidade promove ainda conferências municipais para discutir mobilidade, saúde, segurança e participação política das pessoas idosas.

Uma cidade amiga da pessoa idosa não é apenas aquela que oferece praia e jardins, mas a que permite envelhecer com autonomia, segurança e participação.

Ter 107 centenários não transforma Santos em uma fonte da juventude, mas revela uma cidade que precisa organizar sua estrutura para uma população cada vez mais velha.

Ter 107 centenários não transforma Santos em uma fonte da juventude, mas revela uma cidade que precisa organizar sua estrutura para uma população cada vez mais velha

Alto IDHM significa qualidade de vida para todos?

Santos também aparece entre os municípios brasileiros com melhor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. O IDHM registrado é de 0,840, considerado muito alto, resultado que colocou a cidade na sexta posição nacional no ranking elaborado com informações do Censo de 2010.

O índice reúne três dimensões: longevidade, educação e renda. Quanto mais próximo de 1, maior é o desenvolvimento humano médio registrado.

Apesar de importante, o IDHM não deve ser utilizado como se fosse uma fotografia atual e completa. O ranking municipal ainda é baseado no Censo de 2010, pois não existe uma nova edição equivalente calculada com todos os dados do Censo 2022.

Além disso, médias municipais podem esconder desigualdades. Santos possui imóveis valorizados, especialmente nas regiões próximas à praia, e o custo da moradia pode dificultar a vida de aposentados com renda reduzida.

A qualidade da calçada, a proximidade das unidades de saúde, o tempo de espera por consultas, a segurança e o acesso ao transporte também variam. Portanto, afirmar que Santos é um paraíso dos idosos não significa que a cidade esteja livre de problemas.

A própria administração municipal reconhece a necessidade de se preparar para um envelhecimento ainda maior. A projeção utilizada pela Secretaria de Saúde indica que a participação dos moradores com mais de 60 anos poderá chegar a 40% da população nas próximas duas décadas.

Isso exigirá mudanças profundas. Não será suficiente oferecer atividades recreativas. A cidade precisará ampliar o cuidado de longa duração, adaptar moradias, melhorar acessibilidade e enfrentar o isolamento social, a violência patrimonial e a sobrecarga das famílias cuidadoras.

Enquanto a orla simboliza descanso e bem-estar, outra paisagem mostra o lado industrial de Santos. O município abriga o Porto de Santos, que fechou 2025 com o recorde de 186,4 milhões de toneladas movimentadas, crescimento de 3,6% em relação ao ano anterior.

Navios, terminais, trens e caminhões convivem com prédios residenciais, praias, jardins e equipamentos culturais. Essa proximidade movimenta empregos e receitas, mas também produz desafios ligados ao trânsito, ao ruído, à poluição e à disputa pelo espaço urbano.

A história local também oferece atividades que vão além da praia. O centro histórico conserva construções ligadas ao ciclo do café, incluindo o edifício da antiga Bolsa Oficial de Café. Bondes turísticos percorrem a região do Valongo, onde fica o Museu Pelé, enquanto o Aquário Municipal, o Orquidário e o Monte Serrat ampliam as opções de lazer.

Esse conjunto ajuda a explicar a atração exercida pela cidade. Santos permite combinar vida urbana, mar, áreas verdes, serviços e memória histórica em um território relativamente compacto.

Ainda assim, os 107 centenários não devem ser transformados em propaganda simplista. Cada pessoa chegou a essa idade por uma trajetória própria, formada por condições biológicas, sociais e familiares que não podem ser atribuídas apenas ao endereço.

Santos merece atenção por estar enfrentando hoje uma realidade que chegará a muitas outras cidades brasileiras nas próximas décadas. Com um quarto da população acima dos 60 anos, o município funciona como uma espécie de laboratório urbano do envelhecimento.

O verdadeiro teste para o chamado paraíso dos idosos será garantir que uma vida longa também possa ser segura, acessível, independente e digna, não somente para quem mora diante do maior jardim de praia do mundo, mas para pessoas idosas de todos os bairros e faixas de renda.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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