Imagine um mineral retirado do solo de Goiás, transportado para o exterior e transformado em um pequeno ímã de alta potência. Meses depois, esse mesmo material retorna ao Brasil dentro do motor de um carro elétrico, de uma turbina eólica ou de um equipamento médico, valendo muitas vezes mais do que quando deixou o país.
Esse roteiro não é novidade na economia brasileira. Durante séculos, o Brasil exportou matérias-primas e importou produtos industrializados de maior valor. Foi assim com diferentes riquezas naturais e poderá acontecer novamente com um dos recursos mais disputados da atualidade: as terras raras.
O país possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas conhecidas, uma das maiores quantidades do mundo. O número coloca o Brasil atrás apenas da China nas estimativas mais recentes do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Apesar disso, a participação brasileira na produção e, principalmente, no processamento global ainda é pequena.
Essa diferença entre possuir reservas e controlar a tecnologia é o centro da questão. O verdadeiro poder econômico não está apenas em retirar as terras raras do solo. Ele está em separar os elementos, purificá-los, transformá-los em metais e ligas e, finalmente, fabricar os ímãs e componentes utilizados pela indústria.
Se o Brasil parar na extração ou na produção de um concentrado intermediário, continuará ocupando o início menos lucrativo da cadeia. Outros países ficarão com os empregos especializados, as patentes, as fábricas e a maior parte do valor criado.
As terras raras só se transformam em poder econômico quando o conhecimento industrial avança junto com a mineração.

A melhor negociação não é impedir o capital estrangeiro, mas fazer com que ele deixe fábricas, conhecimento, fornecedores e profissionais qualificados no Brasil
Por que as terras raras se tornaram tão estratégicas?
Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente escassas. O grupo reúne 17 elementos químicos, incluindo neodímio, praseodímio, disprósio, térbio, cério, lantânio, ítrio e európio.
O termo surgiu em uma época em que determinados óxidos minerais eram chamados de “terras”. O adjetivo “raras” está relacionado principalmente à dificuldade de encontrar esses elementos em depósitos concentrados e economicamente aproveitáveis.
Eles costumam aparecer misturados entre si e apresentam propriedades químicas muito semelhantes. Separar um elemento do outro exige processos complexos, conhecimento técnico, instalações industriais, controle ambiental e grande quantidade de capital. Por isso, encontrar o depósito é apenas o primeiro passo.
Esses elementos são utilizados em pequenas quantidades, mas podem mudar completamente o desempenho de um produto. O neodímio e o praseodímio, por exemplo, são usados na fabricação de ímãs permanentes muito potentes. O disprósio e o térbio ajudam esses ímãs a manter o desempenho mesmo em temperaturas elevadas.
Esses materiais aparecem em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, equipamentos médicos, robôs, computadores, sistemas de áudio, satélites, radares e tecnologias de defesa. Também são utilizados em catalisadores, lasers, iluminação e componentes eletrônicos.
É por isso que as terras raras são frequentemente comparadas a vitaminas da indústria. Uma quantidade relativamente pequena pode ser indispensável para que uma tecnologia funcione com eficiência.
A expansão dos carros elétricos, da geração eólica, da automação industrial, dos centros de dados e dos sistemas militares ampliou a importância desses elementos. A Agência Internacional de Energia calcula que a China responde atualmente por cerca de 60% da mineração das terras raras usadas em ímãs e por mais de 90% do refino. Em 2024, o país também produziu aproximadamente 94% dos ímãs permanentes sinterizados do planeta.
A força chinesa não surgiu apenas porque o país possui grandes reservas. Ela foi construída por décadas de investimento em mineração, química, metalurgia, formação profissional, pesquisa e fábricas.
Enquanto outras nações enxergavam as terras raras como uma atividade poluente e pouco rentável, a China desenvolveu a capacidade de transformar o minério em produtos de alta precisão. Hoje, mesmo países que extraem esses elementos podem depender de instalações chinesas para separá-los e convertê-los em materiais utilizáveis.
O Brasil tem reservas, mas ainda não controla toda a cadeia
O território brasileiro apresenta ocorrências de terras raras em diferentes contextos geológicos. Goiás, Minas Gerais, Bahia, Amazonas, São Paulo, Paraná e outros estados possuem áreas consideradas promissoras.
Em 2026, o Serviço Geológico do Brasil divulgou novos resultados de pesquisas realizadas em São Paulo e no Paraná. Algumas amostras apresentaram concentrações totais superiores a 8 mil partes por milhão de elementos de terras raras, além de teores relevantes de materiais magnéticos como neodímio e térbio. Isso não significa que todas as áreas se transformarão em minas, mas confirma que o potencial brasileiro ainda está longe de ser totalmente conhecido.
O interesse das empresas também cresceu. Dados da Agência Nacional de Mineração mostram que, em 2024, o número de novas autorizações de pesquisa relacionadas às terras raras aumentou 291% em comparação com o ano anterior, chegando a 1.370 alvarás.
O principal projeto em produção está localizado em Minaçu, no norte de Goiás. A operação Pela Ema, da Serra Verde, começou a produzir comercialmente em 2024 a partir de depósitos de argilas iônicas.
Esses depósitos despertam interesse porque podem conter uma combinação de elementos leves e pesados usados na fabricação de ímãs. A empresa prevê alcançar uma produção de aproximadamente 6.400 toneladas anuais de óxidos totais até 2027.
Em abril de 2026, a empresa norte-americana USA Rare Earth anunciou a aquisição da Serra Verde em uma operação avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A combinação pretende reunir atividades de mineração, processamento, separação, produção de metais e fabricação de ímãs em diferentes países. A operação ainda passou pela análise dos órgãos reguladores brasileiros.
A negociação mostra como o potencial brasileiro já está no centro da disputa internacional. Também cria uma pergunta estratégica: o Brasil participará dessa estrutura apenas como local de extração ou receberá investimentos nas etapas industriais mais avançadas?
O próprio Ministério de Minas e Energia informou que a Serra Verde pretende ampliar a capacidade de processamento e avançar para a separação dos elementos dentro do país. Se esse plano for concretizado, representará um passo importante além da simples produção de um concentrado misto.
Mesmo assim, uma única operação não resolve a fragilidade da cadeia nacional. O Brasil ainda precisa desenvolver fornecedores, laboratórios, plantas químicas, fabricantes de ligas, empresas de equipamentos e clientes industriais capazes de transformar essa produção em componentes.

As terras raras só se transformam em poder econômico quando o conhecimento industrial avança junto com a mineração
Como o Brasil pode transformar minério em tecnologia?
A cadeia das terras raras pode ser imaginada como uma longa escada industrial.
No primeiro degrau está a pesquisa geológica, que identifica a quantidade e a qualidade dos elementos presentes no depósito. Depois vêm a extração e o beneficiamento, etapas responsáveis por retirar impurezas e produzir um concentrado.
Em seguida começa uma das fases mais difíceis: a separação química. Como os elementos possuem características semelhantes, são necessárias várias operações para produzir óxidos individuais com alto grau de pureza.
Esses óxidos podem ser transformados em metais, ligas e pós magnéticos. Somente então surgem os ímãs de neodímio, ferro e boro utilizados nos motores, geradores e equipamentos de alto desempenho.
Quanto mais o país avança nessa escada, maior tende a ser o valor agregado. Os preços variam muito conforme o elemento, a pureza, a demanda e as restrições de oferta. Ainda assim, um concentrado misto possui valor muito inferior ao de óxidos separados, metais especiais, ligas e ímãs prontos.
Por isso, a discussão não deveria ser apenas sobre aumentar a quantidade extraída. O objetivo precisa ser construir uma cadeia integrada, capaz de transformar as terras raras em produtos industriais.
O primeiro passo é criar uma política estável. Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A proposta foi encaminhada ao Senado, onde ainda está em análise.
O texto aprovado prevê um Fundo Garantidor da Atividade Mineral com aporte inicial de até R$ 2 bilhões e um programa de incentivos para projetos de beneficiamento e transformação realizados no Brasil. Também foram previstos até R$ 5 bilhões em créditos fiscais durante cinco anos.
A ideia central é correta: favorecer projetos que mantenham as etapas mais valiosas dentro do país. O marco, entretanto, ainda precisa ser aprovado pelo Senado, sancionado e regulamentado para produzir efeitos concretos.
Outra frente é o financiamento. Uma chamada pública do BNDES e da Finep voltada à transformação de minerais estratégicos recebeu propostas que somaram R$ 85,2 bilhões. O valor não representa dinheiro já liberado, mas demonstra o tamanho da demanda empresarial por recursos para mineração, pesquisa, inovação e manufatura.
O Brasil também precisa formar profissionais especializados. Químicos, geólogos, engenheiros de minas, metalurgistas, técnicos de laboratório e especialistas em materiais serão necessários para operar uma cadeia de alta complexidade.
Esse conhecimento não pode ficar concentrado apenas nas empresas estrangeiras. Universidades, institutos federais, centros de pesquisa e companhias nacionais precisam participar do desenvolvimento das tecnologias.
A melhor negociação não é impedir o capital estrangeiro, mas fazer com que ele deixe fábricas, conhecimento, fornecedores e profissionais qualificados no Brasil.
Refino, ímãs e indústria devem permanecer no país
O investimento estrangeiro será necessário para acelerar a produção brasileira. Construir uma mina e uma planta de separação exige bilhões de reais, anos de pesquisa e tecnologias que poucas empresas dominam.
O Brasil não precisa escolher exclusivamente entre Estados Unidos, China, Europa ou Japão. Pode negociar com diferentes parceiros, desde que preserve seus interesses estratégicos.
A contrapartida deve incluir instalações de processamento no território nacional, treinamento de trabalhadores, pesquisa conjunta, desenvolvimento de fornecedores brasileiros e transferência de conhecimento.
Não basta construir uma mina que envia concentrado para outro continente. O objetivo deve ser conectar a produção mineral a uma indústria nacional de componentes.
Um dos projetos mais importantes nessa direção é o MagBras, desenvolvido em Minas Gerais. A iniciativa busca dominar tecnologias nacionais para a produção de ímãs de terras raras e criar uma estrutura capaz de atender indústrias brasileiras. O Ministério de Minas e Energia considera o projeto um passo relevante para aumentar o valor agregado da cadeia.
Pesquisadores brasileiros já trabalham há anos com processamento e aplicação de superímãs. O desafio agora é sair da escala de laboratório e alcançar uma produção industrial competitiva, com regularidade, controle de qualidade e preços capazes de disputar o mercado internacional.
O país possui condições para consumir parte dessa produção internamente. Há fábricas de veículos, equipamentos elétricos, máquinas industriais, sistemas de energia eólica e produtos eletrônicos. Uma política de compras, inovação e conteúdo tecnológico poderia ajudar a criar demanda inicial para os ímãs brasileiros.
Também existe potencial na reciclagem. Motores, discos rígidos, equipamentos eletrônicos e turbinas contêm materiais que podem ser recuperados. A chamada mineração urbana não substituirá a extração, mas pode reduzir desperdícios e criar uma fonte complementar de elementos estratégicos. O próprio projeto aprovado pela Câmara inclui a recuperação de minerais presentes em resíduos eletroeletrônicos e veículos em fim de vida.
A industrialização, porém, precisa considerar os riscos ambientais. A separação de terras raras pode consumir água, utilizar reagentes químicos e gerar rejeitos. Alguns depósitos também aparecem associados a elementos radioativos, como urânio e tório.
Isso exige estudos detalhados, monitoramento, rastreabilidade, planos de fechamento de mina, diálogo com comunidades e fiscalização pública. O Senado já discute os impactos ambientais, sociais, territoriais, trabalhistas e de soberania ligados à nova política mineral.
A responsabilidade ambiental não deve ser vista apenas como obstáculo. Em um mercado preocupado com emissões, desmatamento e origem dos materiais, uma cadeia rastreável e submetida a padrões rigorosos pode se tornar uma vantagem competitiva.
Países e fabricantes que procuram alternativas à China não querem somente novos depósitos. Eles também precisam demonstrar que suas cadeias respeitam exigências ambientais e sociais.
O Brasil tem a oportunidade de oferecer terras raras produzidas com energia predominantemente renovável, fiscalização, rastreabilidade e compromissos de recuperação ambiental. Para isso, as regras precisam ser claras e efetivamente cumpridas.
Não há necessidade de proibir completamente a exportação. O país pode continuar vendendo minerais e produtos intermediários, mas deve criar incentivos para que seja mais vantajoso separar, transformar e fabricar dentro de seu território.
Também é importante evitar promessas exageradas. As grandes reservas não garantem automaticamente a criação de uma potência industrial. Projetos podem enfrentar dificuldades técnicas, ambientais, financeiras e comerciais. O mercado também é volátil, e a China possui capacidade de influenciar preços e oferta.
Ainda assim, permanecer parado representa um risco maior. A demanda por ímãs de alto desempenho deverá continuar crescendo, e outros países estão investindo para construir cadeias alternativas. A janela de oportunidade não permanecerá aberta para sempre.
O Brasil já ocupou uma posição relevante na produção de minerais de terras raras a partir da monazita durante o século passado, mas não acompanhou a formação da indústria moderna de separação e ímãs. Agora, o país recebe uma segunda oportunidade.
A pergunta central não é se as terras raras serão extraídas. O avanço das pesquisas, a operação em Goiás e os novos projetos indicam que a mineração crescerá.
A verdadeira decisão é onde o Brasil pretende parar.
Se ficar apenas na extração, venderá um produto de menor valor e continuará importando motores, ímãs e equipamentos caros. Se avançar para o processamento, a metalurgia, as ligas e os componentes, poderá criar empregos qualificados, reduzir dependências e conquistar espaço em setores estratégicos.
A maior riqueza das terras raras brasileiras não está escondida apenas debaixo do solo. Ela também está nas fábricas, nos laboratórios, nas universidades e nas tecnologias que o país conseguir desenvolver a partir delas.