Gamers como controladores de voo? Eles podem ganhar mais de US$ 155 mil por ano

Gamers como controladores de voo? Eles podem ganhar mais de US$ 155 mil por ano

Agência acredita que algumas habilidades desenvolvidas em jogos podem ser úteis em uma das profissões mais exigentes da aviação.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine passar anos tomando decisões em frações de segundo, acompanhando vários elementos simultaneamente em uma tela, calculando posições, antecipando movimentos e reagindo rapidamente quando alguma coisa sai do planejado.

Parece a descrição de uma partida competitiva de videogame.

Mas também lembra algumas das habilidades necessárias para trabalhar em uma torre de controle de tráfego aéreo.

Foi justamente essa semelhança que levou o governo dos Estados Unidos a lançar uma campanha bastante incomum: procurar gamers como controladores de voo.

Em abril de 2026, o Departamento de Transportes dos Estados Unidos e a Administração Federal de Aviação, a FAA, apresentaram uma campanha de recrutamento explicitamente inspirada na linguagem dos videogames. O objetivo era alcançar jovens adultos que pudessem possuir habilidades transferíveis para o controle de tráfego aéreo, como capacidade de realizar múltiplas tarefas, consciência espacial, estratégia, solução de problemas e elevado desempenho cognitivo.

A campanha adotou frases como “Level Up Your Career” e transformou o processo de ingresso em uma linguagem semelhante à de missões de jogos. A própria página de recrutamento descreve os candidatos como pessoas capazes de entrar para uma equipe responsável por proteger milhões de passageiros diariamente.

A estratégia parece ter chamado atenção.

Em agosto, o secretário de Transportes Sean Duffy anunciou que a FAA havia ultrapassado 2 mil novas contratações e alcançado 94% de sua meta anual em tempo recorde. Mas aqui aparece um detalhe importante que acabou desaparecendo em algumas manchetes: os mais de 2 mil contratados não são necessariamente gamers.

Segundo o Departamento de Transportes informou à Reuters em 11 de agosto, cerca de 75 candidatos oriundos das milhares de inscrições recebidas pela campanha direcionada aos jogadores estavam efetivamente em treinamento naquele momento. Paralelamente, a FAA tinha cerca de 2 mil novos contratados aguardando ou iniciando formação e aproximadamente 4 mil pessoas em diferentes etapas de treinamento.

Ou seja, a história real é até mais interessante do que simplesmente dizer que os Estados Unidos colocaram 2 mil jogadores diante dos radares de aeroportos.

Eles decidiram procurar talentos em um lugar pouco óbvio.

Os EUA não entregaram o controle dos aviões a 2 mil jogadores. A FAA passou a tratar o universo dos games como um novo campo de recrutamento para encontrar pessoas com habilidades potencialmente úteis à profissão.

Isso não significa que jogar Fortnite, Call of Duty ou Microsoft Flight Simulator transforme automaticamente alguém em controlador de tráfego aéreo.

Isso não significa que jogar Fortnite, Call of Duty ou Microsoft Flight Simulator transforme automaticamente alguém em controlador de tráfego aéreo

Por que buscar gamers como controladores de voo?

Controlar o tráfego aéreo exige acompanhar diferentes aeronaves ao mesmo tempo, interpretar informações visuais, comunicar instruções rapidamente e manter consciência permanente do que está acontecendo no espaço ao redor.

Na campanha apresentada em abril, a FAA destacou quatro características que considera transferíveis do universo dos jogos: alto desempenho cognitivo, multitarefa, consciência espacial e capacidade de estratégia e resolução de problemas.

Isso não significa que jogar Fortnite, Call of Duty ou Microsoft Flight Simulator transforme automaticamente alguém em controlador de tráfego aéreo.

A ideia é bem diferente.

O governo americano está partindo do princípio de que determinadas pessoas que passaram milhares de horas interagindo com ambientes virtuais complexos podem ter desenvolvido ou demonstrado aptidões interessantes para uma profissão que também exige processamento rápido de informações.

Um jogador competitivo pode precisar observar adversários, mapa, recursos, objetivos e comunicação da equipe simultaneamente.

Em jogos de estratégia, decisões precisam considerar diferentes elementos espalhados pela tela.

Em simuladores de voo, existe ainda familiaridade visual com conceitos relacionados a aeronaves, navegação e instrumentos, embora jogar um simulador doméstico seja completamente diferente de controlar tráfego aéreo real.

A FAA não criou um atalho especial para jogadores.

Gamers interessados precisam enfrentar os mesmos requisitos e avaliações necessários para qualquer outro candidato.

A FAA passou a tratar o universo dos games como um novo campo de recrutamento para encontrar pessoas com habilidades potencialmente úteis à profissão

A FAA passou a tratar o universo dos games como um novo campo de recrutamento para encontrar pessoas com habilidades potencialmente úteis à profissão

Jogar videogame não elimina os testes da FAA

Para concorrer às vagas de entrada, o candidato precisa ser cidadão americano, normalmente ter menos de 31 anos, falar inglês de forma clara, cumprir requisitos de experiência profissional ou educação e passar por avaliações específicas da FAA.

Entre essas etapas está o ATSA, sigla para Air Traffic Controller Specialists Skills Assessment Battery, uma bateria de testes utilizada para avaliar candidatos ao controle de tráfego aéreo. Há ainda exames médicos e investigação de segurança.

Quem consegue avançar começa um processo de formação que inclui treinamento na academia da FAA e posteriormente experiência prática em instalações de controle de tráfego aéreo.

A página oficial de recrutamento apresenta o caminho até a certificação como um processo de cinco etapas. Depois da academia, o profissional segue para treinamento no trabalho e pode levar de um a três anos para atingir a condição de controlador profissional certificado.

Portanto, ninguém termina uma partida no videogame em um domingo e começa a orientar Boeings na segunda-feira.

O jogo pode chamar a atenção dos recrutadores para determinados perfis.

A segurança continua dependendo de seleção, formação e certificação.

EUA enfrentam falta de controladores de tráfego aéreo

Existe uma razão bastante concreta por trás de toda essa criatividade publicitária.

Os Estados Unidos precisam de mais controladores.

Quando lançou a campanha em abril de 2026, o Departamento de Transportes informou que havia quase 11 mil controladores em serviço e mais de 4 mil profissionais em treinamento. A FAA também vinha acelerando seus processos de seleção para aumentar a velocidade de entrada de novos candidatos.

O plano de força de trabalho da agência previa contratar pelo menos 8.900 controladores entre 2025 e 2028. Para o ano fiscal de 2026, a meta prevista era de aproximadamente 2.200 novas contratações.

É nesse contexto que aparece a campanha para recrutar gamers como controladores de voo.

Em vez de depender apenas das formas tradicionais de apresentar a carreira, o governo resolveu falar diretamente com uma geração acostumada a computadores, ambientes digitais e jogos competitivos.

A página da FAA utiliza termos como “Level Up Your Career”, apresenta o processo seletivo como uma espécie de missão e destaca tecnologias utilizadas pelos controladores, incluindo radar avançado, comunicação por voz e sistemas digitais de gerenciamento de informações de voo.

Não é apenas uma brincadeira publicitária.

É uma tentativa de mudar a imagem de uma profissão pouco conhecida entre muitos jovens.

A própria FAA informa que a remuneração média de controladores certificados pode ultrapassar US$ 155 mil por ano dentro de três anos após a conclusão da academia.

A própria FAA informa que a remuneração média de controladores certificados pode ultrapassar US$ 155 mil por ano dentro de três anos após a conclusão da academia

O salário passa dos US$ 155 mil após a certificação

Existe outro elemento utilizado para tornar a carreira atraente: dinheiro.

A própria FAA informa que a remuneração média de controladores certificados pode ultrapassar US$ 155 mil por ano dentro de três anos após a conclusão da academia.

O valor ajuda a entender por que a campanha apresenta o controle de tráfego aéreo como uma carreira capaz de competir com profissões ligadas à tecnologia.

Também não é obrigatório possuir diploma universitário para concorrer à rota tradicional de entrada. Os requisitos educacionais e profissionais podem ser atendidos por experiência de trabalho, educação pós-secundária ou uma combinação dos dois, dependendo das regras aplicáveis ao processo.

Isso abre uma porta interessante.

Um jovem que nunca imaginou trabalhar com aviação pode descobrir que algumas das características que desenvolveu ou demonstrou em ambientes digitais também são valorizadas em outra área.

Mas o salário elevado vem acompanhado de uma responsabilidade enorme.

Controladores precisam manter aeronaves separadas de forma segura, organizar pousos e decolagens e lidar com mudanças de rota, condições meteorológicas e situações inesperadas.

Uma decisão errada não significa perder uma partida.

Pode envolver centenas de pessoas dentro de aeronaves reais.

É justamente por isso que a comparação com videogames precisa ser feita com cuidado.

O videogame pode ajudar a identificar certas aptidões, mas é o treinamento profissional que transforma um candidato em alguém preparado para controlar aeronaves reais.

A própria campanha deixa clara essa diferença com uma frase bastante direta: “It’s not a game. It’s a career.”

Não é um jogo.

É uma carreira.

E há algo particularmente interessante na estratégia americana.

Durante décadas, videogames foram frequentemente retratados apenas como entretenimento ou distração. Agora, uma agência responsável por um dos sistemas de transporte aéreo mais complexos do mundo está olhando para jogadores e perguntando se algumas das habilidades presentes naquele universo poderiam ajudar a encontrar futuros profissionais.

Isso também acompanha uma mudança mais ampla na maneira como empresas e governos enxergam competências.

Diplomas continuam importantes em inúmeras áreas, mas capacidade de resolver problemas, aprender sistemas, reagir sob pressão e interpretar ambientes complexos também ganhou valor.

No caso da FAA, porém, não basta dizer que alguém joga bem.

O candidato precisa provar que possui as aptidões necessárias nos testes da agência e sobreviver a um processo de formação exigente.

Os números mais recentes mostram bem essa diferença.

O anúncio de mais de 2 mil contratações para o controle aéreo americano é real. O programa também realmente foi promovido como uma iniciativa para alcançar gamers. Mas a Reuters informou que cerca de 75 candidatos provenientes especificamente da campanha voltada aos jogadores estavam em treinamento em 11 de agosto.

Portanto, a manchete “EUA contratam 2 mil gamers” transforma duas informações relacionadas em uma conclusão que os dados disponíveis não sustentam.

O que aconteceu foi mais preciso e, talvez, mais curioso.

Os Estados Unidos contrataram milhares de novos candidatos para reforçar o controle de tráfego aéreo.

Ao mesmo tempo, decidiram entrar no universo dos videogames para procurar uma nova geração de profissionais.

Se essa estratégia produzir bons controladores, só o tempo e os resultados do treinamento poderão mostrar.

Mas uma coisa já mudou.

Da próxima vez que alguém passar horas olhando para várias informações simultaneamente em uma tela, tomando decisões rápidas e dizendo que jogar videogame não serve para absolutamente nada, existe pelo menos uma agência federal americana que parece discordar.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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