Tarô não serve para prever o futuro. O que sabemos sobre sua origem?

Tarô não serve para prever o futuro. O que sabemos sobre sua origem?

O tarô que hoje associamos ao ocultismo provavelmente começou sua trajetória como um jogo de cartas entre elites europeias.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine receber um conjunto de cartas pintadas à mão, decoradas com ouro e produzidas especialmente para uma família poderosa da Itália do século 15. Ali aparecem imperadores, figuras religiosas, a Morte, o Louco e outras imagens que hoje imediatamente associamos ao mistério e ao esoterismo.

Mas, há mais de 500 anos, a história provavelmente era bem diferente.

O tarô não parece ter surgido como um instrumento destinado a prever acontecimentos ou revelar o futuro. As evidências históricas mais aceitas apontam para o norte da Itália do século 15, onde os primeiros baralhos conhecidos eram utilizados como jogos entre membros da aristocracia.

A transformação veio aos poucos. O jogo cruzou fronteiras, ganhou novas imagens, passou pelas mãos de ocultistas franceses, foi relacionado ao Egito Antigo, à Cabala, à astrologia e à magia cerimonial e, finalmente, chegou ao século 20 com dois baralhos que mudariam profundamente sua história: o Rider-Waite-Smith e o Tarô de Thoth, de Aleister Crowley.

Hoje, grande parte do que imaginamos quando ouvimos a palavra tarô foi moldada justamente por essa longa mistura de jogo, arte, filosofia e ocultismo.

O mais curioso na história do tarô talvez seja perceber que ele não nasceu pronto como um sistema esotérico. Ele foi acumulando significados durante séculos.

Para alguns, o tarô continua sendo uma forma de adivinhação. Para outros, funciona como ferramenta de aconselhamento, meditação, reflexão pessoal ou autoconhecimento

Para alguns, o tarô continua sendo uma forma de adivinhação. Para outros, funciona como ferramenta de aconselhamento, meditação, reflexão pessoal ou autoconhecimento

Onde surgiu o tarô e como ele se tornou esotérico?

Entre os exemplares mais antigos preservados estão os chamados baralhos Visconti-Sforza, produzidos no norte da Itália no século 15. Eles apresentam vários elementos que ainda reconhecemos nos baralhos atuais.

As cartas faziam parte de um jogo de vazas no qual determinadas figuras funcionavam como trunfos. Aquilo que posteriormente seria chamado de Arcanos Maiores não nasceu necessariamente com esse nome ou com todos os significados esotéricos utilizados atualmente.

O Smithsonian Magazine destaca que esses primeiros trunfos surgiram na Itália renascentista e eram utilizados inicialmente como parte de jogos. Somente no final do século 18 o tarô passou a assumir uma associação explicitamente mística mais forte.

Com o crescimento e a popularização desses jogos, versões começaram a circular por diferentes partes da Europa. Na França, um modelo acabaria ganhando enorme importância histórica: o chamado Tarô de Marselha.

Sua estrutura de 78 cartas, com 22 trunfos incluindo o Louco e 56 cartas divididas em quatro naipes, ajudou a estabelecer uma configuração que permanece reconhecível até hoje.

O Egito entrou na história séculos depois

Uma das narrativas mais famosas afirma que o tarô teria surgido no Egito Antigo, talvez preservando algum conhecimento secreto dos sacerdotes egípcios.

É uma história fascinante.

O problema é que não existem evidências históricas sólidas que sustentem essa origem.

Um dos responsáveis por popularizar a hipótese foi Antoine Court de Gébelin, pastor e estudioso francês do século 18. Em sua obra Le Monde Primitif, ele defendeu que as cartas guardariam vestígios de uma sabedoria egípcia ancestral.

A ideia surgiu muito tempo depois dos primeiros baralhos italianos conhecidos. Ainda assim, teve enorme influência sobre o esoterismo europeu. O próprio Smithsonian observa que essa alegação de uma origem egípcia surgiu no final do século 18 e não possui comprovação histórica.

Jean-Baptiste Alliette, conhecido pelo pseudônimo Etteilla, foi além. Ele criou um sistema destinado explicitamente à adivinhação e desenvolveu um dos primeiros baralhos concebidos para a prática cartomântica.

A partir daquele momento, o tarô deixava definitivamente de ser apenas um jogo.

Nos séculos seguintes, diferentes ocultistas relacionariam as cartas à astrologia, à numerologia, à Cabala e a sistemas de magia cerimonial.

Essa evolução preparou o terreno para uma organização esotérica decisiva: a Hermetic Order of the Golden Dawn, criada no final do século 19 na Inglaterra.

Entre seus integrantes estiveram nomes como Arthur Edward Waite e Aleister Crowley.

E os dois acabariam criando, por caminhos muito diferentes, dois dos baralhos mais influentes da história.

O mais curioso na história do tarô talvez seja perceber que ele não nasceu pronto como um sistema esotérico. Ele foi acumulando significados durante séculos.

O mais curioso na história do tarô talvez seja perceber que ele não nasceu pronto como um sistema esotérico. Ele foi acumulando significados durante séculos

Como Rider-Waite e Tarô de Thoth mudaram o tarô moderno?

Em 1909 surgiu um baralho que redefiniu completamente a linguagem visual do tarô.

Arthur Edward Waite, ocultista e integrante da Golden Dawn, concebeu um novo conjunto de cartas ilustrado pela artista Pamela Colman Smith e publicado pela empresa William Rider & Son.

Hoje ele é conhecido como Rider-Waite-Smith, ou simplesmente Rider-Waite.

O British Museum identifica Waite e Smith como os responsáveis pelo desenho daquele que se tornou um dos modelos fundamentais do tarô moderno e registra que o baralho foi publicado originalmente em 1909.

A contribuição de Pamela Colman Smith foi particularmente importante.

Nos baralhos anteriores, muitas cartas numeradas dos Arcanos Menores apresentavam principalmente a quantidade correspondente de objetos. O Cinco de Copas, por exemplo, poderia simplesmente mostrar cinco cálices.

Smith transformou essas cartas em cenas.

Pessoas aparecem caminhando, brigando, comemorando, sofrendo, escolhendo ou contemplando acontecimentos. Isso ofereceu uma linguagem narrativa muito mais direta ao leitor.

O impacto foi enorme.

O Rider-Waite-Smith tornou mais fácil interpretar todo o baralho visualmente, e suas imagens passaram a influenciar milhares de decks criados ao longo do século 20 e do século 21. O Smithsonian o descreve como possivelmente o baralho de tarô mais famoso de todos os tempos.

Aleister Crowley, uma das figuras mais controversas e influentes do ocultismo moderno, desenvolveu o chamado Tarô de Thoth.

Aleister Crowley, uma das figuras mais controversas e influentes do ocultismo moderno, desenvolveu o chamado Tarô de Thoth

Aleister Crowley levou o simbolismo ainda mais longe

Algumas décadas depois, outro antigo integrante da Golden Dawn apresentaria uma visão bastante diferente.

Aleister Crowley, uma das figuras mais controversas e influentes do ocultismo moderno, desenvolveu o chamado Tarô de Thoth.

As imagens foram pintadas pela artista Lady Frieda Harris, em um trabalho realizado principalmente entre 1937 e 1943. O Warburg Institute preserva a história dessa colaboração e destaca as pinturas originais criadas por Harris para o projeto de Crowley.

O nome “Thoth” remete ao deus egípcio associado à escrita, ao conhecimento e à sabedoria.

Aqui aparece novamente aquela tradição ocultista que relacionava o tarô ao Egito, embora isso não signifique que o baralho tenha origem historicamente egípcia.

Crowley reorganizou e reinterpretou profundamente o sistema.

Seu tarô reúne referências à Cabala hermética, astrologia, alquimia, numerologia e ao sistema religioso e filosófico que ele próprio chamou de Thelema.

Algumas cartas também receberam novos nomes.

A tradicional Justiça tornou-se Adjustment, frequentemente traduzida como Ajustamento. A Força tornou-se Lust, ou Luxúria. O Julgamento tornou-se The Aeon, o Éon.

Até a ordem e as correspondências de algumas cartas passaram por modificações dentro do sistema de Crowley.

As pinturas de Frieda Harris contribuíram para que o baralho adquirisse uma estética completamente diferente do Rider-Waite-Smith. Em vez de cenas relativamente claras e narrativas, muitas cartas do Thoth parecem quase abstratas, compostas por geometrias, cores intensas, figuras simbólicas e múltiplas referências esotéricas.

O resultado é um baralho muito mais denso.

Enquanto o Rider-Waite-Smith se tornou uma espécie de linguagem visual de entrada para milhões de praticantes, o Tarô de Thoth ganhou fama por exigir estudo mais aprofundado de sistemas ocultistas.

O Smithsonian cita justamente Rider-Waite-Smith e Thoth entre os exemplos fundamentais da transformação do tarô em arte e ocultismo no século 20.

Há ainda uma curiosidade importante sobre autoria.

Durante muito tempo, o Rider ficou popularmente conhecido apenas como “Rider-Waite”, deixando Pamela Colman Smith em segundo plano. Atualmente, museus, historiadores e pesquisadores têm adotado cada vez mais a expressão Rider-Waite-Smith, reconhecendo o papel decisivo da artista.

Algo semelhante acontece com Frieda Harris. Apesar de o Thoth ser frequentemente chamado de “tarô de Aleister Crowley”, foram as pinturas de Harris que transformaram o complexo sistema conceitual de Crowley nas imagens que hoje conhecemos.

Assim, dois dos baralhos mais influentes da história moderna nasceram de parcerias entre ocultistas e artistas.

Waite concebeu e Smith desenhou.

Crowley estruturou e Harris pintou.

E talvez seja justamente essa combinação entre ideias abstratas e imagens poderosas que tenha permitido ao tarô sobreviver durante tanto tempo.

Hoje existem milhares de baralhos.

Alguns são inspirados diretamente no Rider-Waite-Smith. Outros seguem a tradição do Thoth, do Marselha ou criam sistemas completamente novos. Há versões inspiradas em mitologia, psicologia, cultura pop, religiões, animais, cinema e praticamente qualquer universo simbólico imaginável.

Também mudou a maneira como as pessoas utilizam essas cartas.

Para alguns, o tarô continua sendo uma forma de adivinhação. Para outros, funciona como ferramenta de aconselhamento, meditação, reflexão pessoal ou autoconhecimento. Existem ainda aqueles que o estudam exclusivamente como objeto histórico, artístico ou cultural.

O mais interessante talvez seja perceber que todas essas possibilidades nasceram de uma longa cadeia de reinvenções.

Primeiro, um jogo aristocrático italiano.

Depois, uma tradição europeia de cartas.

No século 18, um possível livro secreto do Egito imaginado por ocultistas franceses.

No século 19, correspondências com Cabala e astrologia.

Em 1909, o Rider-Waite-Smith transformando praticamente todas as cartas em pequenas cenas narrativas.

Décadas depois, Aleister Crowley e Frieda Harris criando o complexo universo visual do Tarô de Thoth.

Mais de cinco séculos depois dos primeiros baralhos conhecidos, continuamos embaralhando as mesmas 78 ideias básicas e atribuindo novos significados a elas.

Talvez esse seja o verdadeiro segredo da longevidade do tarô.

Ele nunca foi apenas uma coisa.

Foi jogo, arte, objeto aristocrático, instrumento ocultista, sistema simbólico e ferramenta de reflexão.

E continua se transformando cada vez que alguém pega o baralho, embaralha as cartas e pergunta:

“O que isso significa para mim?”

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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