Imagine estar dentro de casa e perceber que o chão começa a se mover lentamente, mas por tempo suficiente para fazer moradores deixarem prédios e correrem para as ruas. Foi essa a sensação relatada nesta quinta-feira, 20 de agosto, após um forte terremoto atingir a região central do Peru.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, registrou o evento com magnitude 6,7, a aproximadamente 99 quilômetros de profundidade. O epicentro foi calculado a cerca de 31 quilômetros a noroeste de Aniso, em uma região montanhosa dos Andes. Apesar da força, as autoridades peruanas não registravam mortos nem grandes danos nas primeiras horas após o tremor.
O Instituto Geofísico do Peru, o IGP, apresentou uma medição ainda maior. O órgão registrou inicialmente magnitude 7,2 e localizou o evento a cerca de 35 quilômetros ao norte de Coracora, na região de Ayacucho. Diferenças como essa podem acontecer porque instituições utilizam redes de sensores, métodos e dados distintos para calcular a magnitude de um evento sísmico.
O que chama atenção é que um terremoto tão intenso terminou, pelo menos nas primeiras avaliações, produzindo consequências muito menores do que sua magnitude poderia sugerir.
A explicação pode estar escondida quase 100 quilômetros abaixo dos pés dos moradores.
O terremoto foi forte, mas sua grande profundidade ajudou a reduzir os efeitos destrutivos diretamente na superfície.

As placas podem se deslocar apenas alguns centímetros por ano, mas isso é suficiente para acumular enorme quantidade de tensão nas rochas
Por que o terremoto foi forte, mas causou poucos danos?
Magnitude não é a única informação necessária para entender o potencial destrutivo de um terremoto.
Também importa a profundidade em que ocorre a ruptura, a distância entre o epicentro e as cidades, as características do solo e a qualidade das construções existentes na região.
Neste caso, o tremor aconteceu profundamente no interior da Terra.
Hernando Tavera, presidente executivo do Instituto Geofísico do Peru, afirmou que justamente essa profundidade ajudou a evitar consequências maiores. Segundo ele, moradores deixaram suas casas preocupados, mas não havia impacto significativo registrado após o evento.
Uma maneira simples de imaginar essa diferença é pensar em duas fontes de vibração.
Se uma delas estiver quase diretamente sob seus pés, a energia chega à superfície depois de percorrer uma distância relativamente pequena. Quando a ruptura acontece muito mais profundamente, essa energia precisa viajar por uma porção maior da Terra antes de atingir a superfície.
Parte dela se dispersa pelo caminho.
Isso ajuda a explicar por que alguns terremotos relativamente menores, porém rasos e próximos a áreas densamente povoadas, podem provocar destruição enorme, enquanto eventos de magnitude maior e muito profundos terminam produzindo menos danos.
Mas existe outro efeito interessante.
Por que o tremor conseguiu ser sentido tão longe?
A profundidade também pode fazer com que as ondas sísmicas sejam percebidas em uma área geográfica maior.
Relatos indicaram que o terremoto foi sentido inclusive em Lima, centenas de quilômetros distante da região epicentral. Em áreas afastadas, a sensação teria sido relativamente leve, mas prolongada.
Isso acontece porque a energia de um terremoto profundo pode se espalhar por uma grande extensão antes de chegar à superfície.
Assim, existe quase um paradoxo: a profundidade pode diminuir os efeitos violentos imediatamente sobre o epicentro, enquanto permite que o movimento seja percebido em cidades bastante distantes.
Vídeos divulgados após o tremor também mostraram nuvens de poeira nas montanhas. A agência Reuters registrou imagens de poeira suspensa em Pausa após o evento.
Em áreas montanhosas, terremotos também podem desencadear quedas de rochas e deslizamentos, mesmo quando prédios e residências não sofrem danos significativos.
Isso ocorre porque a vibração pode desestabilizar encostas que já estavam próximas do limite de estabilidade.
Por que o Peru tem tantos terremotos?
Para entender o que aconteceu nesta quinta-feira, é preciso olhar para um mapa muito maior.
O Peru está localizado em uma das regiões tectonicamente mais ativas do mundo, o chamado Anel de Fogo do Pacífico.
Essa faixa praticamente circunda o Oceano Pacífico e reúne zonas onde placas tectônicas colidem, se afastam ou deslizam umas em relação às outras. É justamente nesses limites que acontece grande parte dos terremotos e da atividade vulcânica do planeta.
Na costa oeste da América do Sul, um dos processos mais importantes envolve a placa de Nazca mergulhando sob a placa Sul-Americana.
Esse movimento acontece continuamente, embora seja extremamente lento na escala humana.
As placas podem se deslocar apenas alguns centímetros por ano, mas isso é suficiente para acumular enorme quantidade de tensão nas rochas.
Quando parte dessa tensão é liberada de maneira repentina, acontece um terremoto.
A Reuters destaca que o Peru está localizado no Anel de Fogo e lembra que a região concentra uma parcela enorme da atividade sísmica mundial.

O terremoto foi forte, mas sua grande profundidade ajudou a reduzir os efeitos destrutivos diretamente na superfície
O Peru já enfrentou terremotos muito mais destrutivos
A história peruana possui diversos exemplos de como essa configuração geológica pode gerar eventos devastadores.
Um dos episódios mais conhecidos ocorreu em 15 de agosto de 2007, quando um grande terremoto atingiu a região de Pisco.
O evento foi causado pela interação entre as placas de Nazca e Sul-Americana e atingiu magnitude próxima de 8. O desastre matou centenas de pessoas e provocou enormes danos em cidades da costa peruana. O USGS descreve o terremoto de 2007 como resultado do processo de subducção entre essas duas placas.
Essa comparação ajuda a perceber por que magnitude sozinha não explica a destruição.
Um terremoto pode ter magnitude elevada, mas acontecer profundamente e longe de grandes cidades.
Outro pode apresentar magnitude semelhante ou até menor e ocorrer de forma rasa, próximo a centros urbanos vulneráveis.
O resultado pode ser completamente diferente.
A magnitude mede o tamanho do terremoto, mas não determina sozinha o tamanho do desastre.
Existe ainda uma diferença que costuma causar confusão quando as primeiras informações aparecem no noticiário.
Por que o USGS diz 6,7 enquanto o Instituto Geofísico do Peru informou inicialmente 7,2?
O terremoto é o mesmo.
O que muda é a forma como cada rede sismológica analisa os sinais recebidos por seus instrumentos. Logo após um evento, os números também podem ser revisados à medida que mais estações enviam dados e os especialistas refinam os cálculos.
Por isso, não é incomum encontrar magnitudes diferentes nas primeiras horas depois de um grande tremor.
O que as fontes concordam é que o evento foi forte, profundo e ocorreu em uma região montanhosa do Peru na tarde de 20 de agosto.
Também não havia, até as atualizações consultadas, registro de grandes danos ou vítimas.
O episódio ganha ainda mais atenção porque ocorre em um período marcado por outros tremores relevantes em diferentes regiões do mundo. Isso pode criar a sensação de que terremotos estão acontecendo com frequência anormal.
Mas é importante lembrar que nosso planeta registra milhares de eventos sísmicos todos os anos. O próprio USGS mantém uma lista de eventos considerados significativos levando em conta não apenas a magnitude, mas fatores como intensidade percebida e nível de alerta.
Não existe, até agora, indicação de que o tremor peruano seja parte de algum fenômeno sísmico global incomum.
O que existe é uma explicação geológica muito conhecida.
O Peru está exatamente sobre uma região em que gigantescas placas da crosta terrestre interagem constantemente. Durante a maior parte do tempo, não sentimos absolutamente nada.
Até que, em algum ponto sob os Andes, décadas ou séculos de tensão encontram uma maneira de escapar.
E em poucos segundos uma energia acumulada silenciosamente no interior do planeta lembra que o chão que parece imóvel nunca está realmente parado.