Imagine olhar para a Lua cheia durante a madrugada e perceber que, aos poucos, uma sombra começa a avançar sobre sua superfície. O brilho branco desaparece em grande parte do disco e dá lugar a tons escuros, acobreados e, dependendo das condições, até avermelhados. É exatamente esse espetáculo que poderá acontecer na madrugada de 28 de agosto de 2026.
A Lua pode ficar vermelha durante o eclipse lunar parcial que será visível nas Américas, incluindo o Brasil. E será um eclipse particularmente profundo. Segundo os cálculos da NASA, a magnitude umbral chegará a aproximadamente 0,93, ou seja, quase todo o diâmetro lunar estará mergulhado na região mais escura da sombra terrestre no momento máximo.
Apesar da aparência impressionante, é importante fazer uma distinção: não será um eclipse lunar total. Uma pequena parte da Lua continuará recebendo luz solar direta. Por isso, chamar o evento simplesmente de “Lua de Sangue” pode ser impreciso, embora partes do satélite realmente possam apresentar uma forte coloração avermelhada.
No Brasil, o fenômeno acontecerá entre a noite de 27 de agosto e a madrugada de 28 de agosto. Em cidades no horário de Brasília, como São Paulo e Brasília, a fase parcial começa por volta das 23h33, atinge o máximo aproximadamente à 1h12 e termina perto das 2h52. Considerando também a fase penumbral, o evento se estende por mais de cinco horas.
A Lua pode ficar vermelha porque a própria atmosfera da Terra filtra a luz do Sol e direciona principalmente tons avermelhados para dentro da sombra terrestre.

O eclipse será parcial, mas tão profundo que visualmente poderá lembrar muito um eclipse total durante seus minutos mais intensos
Por que a Lua pode ficar vermelha durante o eclipse?
À primeira vista, existe uma pergunta bastante lógica: se a Terra está bloqueando a luz solar, por que a Lua não simplesmente desaparece no escuro?
A resposta está na atmosfera do nosso planeta.
Durante um eclipse lunar, a Terra fica posicionada aproximadamente entre o Sol e a Lua. Nosso planeta projeta uma grande sombra no espaço. Essa sombra possui duas regiões principais: a penumbra, mais clara, e a umbra, onde a luz direta do Sol é bloqueada.
Entretanto, a Terra possui atmosfera. E uma pequena quantidade de luz solar consegue atravessá-la antes de alcançar a Lua.
Quando a luz do Sol entra na atmosfera terrestre, as diferentes cores que compõem a luz branca não se comportam da mesma maneira. Comprimentos de onda menores, associados principalmente aos tons azulados, são espalhados com maior facilidade pelas moléculas presentes no ar.
Os comprimentos de onda mais longos, associados ao vermelho e ao laranja, conseguem atravessar melhor a atmosfera.
É praticamente o mesmo fenômeno que ajuda a produzir os tons intensos de um pôr do sol.
Imagine, então, todos os amanheceres e entardeceres da Terra formando um anel luminoso ao redor do planeta. Parte dessa luz avermelhada é desviada pela atmosfera e consegue atingir a superfície lunar mesmo quando ela está dentro da sombra.
É assim que a Lua pode ficar vermelha.
A cor vermelha está relacionada ao pôr do sol?
Sim, e essa talvez seja uma das maneiras mais interessantes de imaginar um eclipse lunar.
Se alguém estivesse na superfície da Lua durante um eclipse total e olhasse para a Terra, veria nosso planeta cobrindo o Sol. Ao redor da Terra apareceria uma espécie de anel avermelhado produzido pela luz solar atravessando a atmosfera terrestre.
A Lua estaria sendo iluminada justamente por essa luz.
Por isso, alguns astrônomos gostam de explicar que a Lua avermelhada durante um eclipse é iluminada simultaneamente pelos amanheceres e entardeceres da Terra.
Mas a cor não é sempre igual.
Dependendo da quantidade de poeira, aerossóis, fumaça de incêndios ou partículas vulcânicas presentes na atmosfera, a Lua pode variar entre tons alaranjados, avermelhados, acobreados ou até muito escuros.
É por isso que dois eclipses aparentemente semelhantes podem apresentar cores bastante diferentes.
O eclipse de 28 de agosto será uma Lua de Sangue?
Tecnicamente, não será um eclipse total.
A NASA classifica oficialmente o fenômeno de 28 de agosto de 2026 como eclipse lunar parcial, com magnitude umbral de aproximadamente 0,9299. A fase em que a Lua atravessa a umbra terrestre terá duração de cerca de 3 horas e 18 minutos.
Isso significa que uma pequena região do disco lunar permanecerá fora da umbra no momento máximo.
Esse detalhe cria uma cena interessante.
Enquanto grande parte da Lua poderá estar bastante escura e possivelmente avermelhada, uma pequena região continuará recebendo iluminação solar direta. O contraste entre as duas partes pode ser muito forte.
Por isso, talvez seja mais correto dizer que veremos uma Lua quase completamente eclipsada, com potencial para apresentar tonalidades vermelhas, do que falar em uma Lua de Sangue completa.
A expressão “Lua de Sangue”, afinal, não é uma classificação astronômica oficial. É um nome popular usado principalmente para eclipses lunares totais em que a Lua assume uma tonalidade avermelhada bastante evidente.
O eclipse será parcial, mas tão profundo que visualmente poderá lembrar muito um eclipse total durante seus minutos mais intensos.

A Lua pode ficar vermelha porque a própria atmosfera da Terra filtra a luz do Sol e direciona principalmente tons avermelhados para dentro da sombra terrestre
Quando e como observar o eclipse no Brasil?
A boa notícia é que grande parte do Brasil terá uma posição privilegiada para acompanhar o evento.
A NASA indica que o eclipse será visível nas Américas, além de partes da Europa, África e Pacífico.
Em Brasília e em cidades que seguem o mesmo fuso horário, a sequência será aproximadamente esta: a fase penumbral começa às 22h23 de 27 de agosto, a fase parcial começa às 23h33, o máximo ocorre por volta de 1h12 de 28 de agosto, e a Lua deixa completamente a penumbra perto das 4h01.
Para observar, não é preciso telescópio.
Também não são necessários os óculos especiais utilizados em eclipses solares. Olhar diretamente para um eclipse lunar é seguro porque estamos observando a Lua, e não o Sol.
O melhor é procurar um lugar com horizonte desobstruído e, se possível, afastado da iluminação intensa das cidades. Binóculos ou telescópios podem tornar o espetáculo ainda mais interessante porque permitem observar com maior detalhe a progressão da sombra pela superfície lunar.
Outra curiosidade acontece justamente quando a Lua fica mais escura.
Em uma noite normal de Lua cheia, seu brilho ofusca grande parte das estrelas mais fracas. Durante um eclipse profundo, essa luminosidade diminui significativamente. O resultado é um céu onde mais estrelas podem se tornar perceptíveis.
E existe algo poeticamente estranho nisso.
Durante algumas horas, nosso próprio planeta projetará sua sombra sobre a Lua. Ao atravessar essa sombra, o satélite receberá uma pequena quantidade de luz que percorreu toda a borda da atmosfera terrestre.
Por isso a Lua pode ficar vermelha.
Não por estar emitindo uma luz diferente, mas porque estará refletindo uma versão filtrada da luz do Sol.
É uma espécie de pôr do sol planetário visto a quase 400 mil quilômetros de distância.
Na madrugada de 28 de agosto, portanto, talvez valha colocar o despertador.
Porque quando quase toda a Lua mergulhar na sombra da Terra, poderemos ver no céu uma demonstração gigantesca de algo que acontece diante dos nossos olhos praticamente todos os dias: a maneira como nossa atmosfera transforma a luz.