Já imaginou que a ideia da urna eletrônica surgiu numa partida de tênis?

Já imaginou que a ideia da urna eletrônica surgiu numa partida de tênis?

Uma conversa informal em Brasília faz parte dos bastidores do projeto que transformou a votação no país. Conheça as escolhas que moldaram a experiência de milhões de eleitores.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Entre uma troca de bolas e outra, uma conversa em Brasília ajudou a colocar em movimento uma transformação nas eleições brasileiras. Era 1994, e Carlos Velloso, então ministro do Tribunal Superior Eleitoral, conversava com o amigo Paulo Camarão sobre um desafio que estava longe das linhas da quadra: modernizar a votação no Brasil.

O episódio foi relembrado por Camarão, celebrando 30 anos da urna eletrônica, em entrevista ao g1, publicada em 3 de outubro de 2026. Aos 84 anos, o ex-secretário de Informática do TSE contou os bastidores de uma iniciativa que exigiria muito mais do que uma boa ideia. Seria necessário desenvolver um equipamento capaz de atender a milhões de pessoas, em condições muito diferentes.

Três décadas depois da estreia da urna eletrônica nas eleições, seu funcionamento parece familiar: digitar, conferir e confirmar. Mas cada etapa dessa experiência foi pensada para resolver um problema. A simplicidade percebida pelo eleitor é resultado de um projeto com exigências técnicas, humanas e logísticas.

A estreia ocorreu nas eleições municipais de 1996. Mais de 32 milhões de brasileiros, aproximadamente um terço do eleitorado da época, votaram pelo novo sistema

A estreia ocorreu nas eleições municipais de 1996. Mais de 32 milhões de brasileiros, aproximadamente um terço do eleitorado da época, votaram pelo novo sistema

Como a urna eletrônica ganhou forma no Brasil?

Segundo o relato de Paulo Camarão, a busca por soluções incluiu visitas a outros países. Os modelos encontrados não atendiam ao conjunto de necessidades brasileiras. A decisão foi desenvolver uma máquina adaptada à realidade nacional, chamada por Carlos Velloso de “tupiniquim”.

Nesse contexto, a expressão destaca a concepção brasileira do projeto. Ela não deve ser interpretada como uma afirmação de que cada componente eletrônico tenha sido fabricado no país. O aspecto central era criar uma solução própria para o processo eleitoral brasileiro.

A lembrança da conversa em 1994 também precisa ser situada dentro de uma trajetória coletiva. Conforme o histórico da urna eletrônica apresentado pelo TSE, a comissão técnica responsável pelo projeto foi formada em 1995, com participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Centro Técnico Aeroespacial.

Camarão liderou equipes envolvidas no desenvolvimento. Na reportagem do g1, aparecem entre os técnicos Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Antônio Ésio Salgado, Oswaldo Catsumi e Giuseppe Janino. O grupo ganhou o apelido de “ninjas”, uma curiosidade dos bastidores de um trabalho que reuniu diferentes especialidades.

A máquina precisava funcionar em grandes cidades e chegar a comunidades distantes, onde o transporte e o fornecimento de energia poderiam ser desafios. Resistência, facilidade de uso e possibilidade de operação com bateria faziam parte dessa equação.

Por que o teclado numérico foi uma escolha importante?

Hoje, digitar o número de um candidato parece uma etapa óbvia. Durante o desenvolvimento da urna eletrônica, porém, essa escolha encontrou resistência, segundo Camarão. Para políticos conhecidos pelo nome, fortalecer a associação com um número exigia uma mudança na maneira de se apresentar ao eleitor.

O teclado semelhante ao de um telefone oferecia uma referência reconhecível. A tela acrescentava outra etapa importante: permitir que a pessoa conferisse a opção selecionada antes de confirmar. De acordo com o entrevistado, foram definidos 22 requisitos para orientar o desenvolvimento técnico.

Essa combinação revela uma preocupação que vai além da informática. O equipamento precisava ser compreensível para pessoas com diferentes níveis de escolaridade e familiaridade com tecnologia. Não bastava funcionar corretamente no laboratório: era necessário funcionar na experiência real de votação.

Por trás de uma votação simples para o eleitor, existe um projeto pensado para a diversidade do Brasil.

Como a urna eletrônica chegou a todo o país?

A estreia ocorreu nas eleições municipais de 1996. Mais de 32 milhões de brasileiros, aproximadamente um terço do eleitorado da época, votaram pelo novo sistema. A implantação foi gradual: nas eleições de 2000, a votação eletrônica alcançou todos os municípios brasileiros.

Em 2026, portanto, completam-se 30 anos dessa primeira utilização eleitoral. A expansão ajuda a dimensionar a mudança: um equipamento inicialmente adotado por parte do eleitorado tornou-se presente nas seções espalhadas pelo país.

Uma característica permaneceu central ao funcionamento. Como explica o TSE em sua página sobre a operação da urna eletrônica sem conexão à internet, a máquina trabalha de forma isolada, sem ligação com redes de computadores. Isso é diferente da transmissão posterior dos resultados, realizada por outros equipamentos.

Essa distinção é importante porque a divulgação dos resultados pela internet pode criar a impressão de que a própria urna está conectada. A votação, a apuração de cada seção e a transmissão para totalização são etapas diferentes do processo.

Também existe uma dimensão logística pouco lembrada quando se olha apenas para a tela. Antes de receber o primeiro eleitor, o equipamento precisa ser preparado, transportado e instalado. A possibilidade de chegar a locais remotos fazia parte dos desafios considerados desde sua concepção.

Três décadas depois da estreia da urna eletrônica nas eleições, seu funcionamento parece familiar: digitar, conferir e confirmar

Três décadas depois da estreia da urna eletrônica nas eleições, seu funcionamento parece familiar: digitar, conferir e confirmar

O que mudou em acessibilidade, identificação e fiscalização?

Ao longo dos anos, a urna eletrônica recebeu aperfeiçoamentos. Recursos como sinalização em braile, áudio e apresentação de informações em Libras fazem parte da busca por uma experiência mais acessível. Esses mecanismos procuram atender necessidades diferentes, sem pressupor que todos os eleitores interajam com o equipamento da mesma maneira.

A identificação biométrica, introduzida gradualmente a partir de 2008, acrescentou uma ferramenta para auxiliar os mesários na verificação da identidade. Ela atua nessa etapa de identificação do eleitor, enquanto a escolha feita na cabine deve permanecer sigilosa.

A fiscalização também envolve diferentes procedimentos. A página do TSE sobre mecanismos de auditoria do voto eletrônico lista verificações de assinaturas digitais, análise do código-fonte, comparação de arquivos e conferência entre o boletim impresso e os dados recebidos na totalização.

O boletim de urna registra os totais apurados na seção. Sua comparação com os resultados totalizados permite verificar se os números correspondem. É um exemplo concreto de como a avaliação do sistema envolve documentos e procedimentos, além do equipamento utilizado para votar.

A história contada por Camarão chama atenção pelo cenário improvável de uma quadra de tênis. Mas seu desenvolvimento mostra algo igualmente interessante: transformar uma conversa em uma solução nacional exigiu equipes, critérios e sucessivos aperfeiçoamentos.

Quando o eleitor digita seus números e aperta o botão de confirmação, encontra apenas a parte mais visível desse trabalho. Conhecer a trajetória da urna eletrônica é perceber quantas decisões existem por trás de um gesto que passou a fazer parte da vida brasileira.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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