Já imaginou um país em que o governo não tem sempre a palavra final?

Já imaginou um país em que o governo não tem sempre a palavra final?

O sistema suíço combina representantes eleitos com instrumentos que permitem à população interferir diretamente nas decisões.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine acompanhar a aprovação de uma lei, discordar dela e descobrir que existe um caminho para colocar a decisão nas mãos dos eleitores. Sem precisar esperar a próxima eleição nem o governo, um grupo de cidadãos pode reunir assinaturas e exigir uma votação nacional. Na Suíça, essa possibilidade faz parte do funcionamento da democracia.

O mecanismo chama atenção por uma combinação bastante objetiva: 50 mil assinaturas válidas, reunidas em até 100 dias após a publicação oficial de um ato sujeito a referendo. Cumpridos os requisitos, a população vota para decidir se aceita ou rejeita a medida. É o chamado referendo facultativo.

Mas existe uma distinção importante: quem aprova as leis federais é o Parlamento, enquanto o governo exerce as funções do Executivo. Por isso, dizer que “o governo não tem a palavra final” resume uma característica do sistema, mas a explicação completa envolve os representantes parlamentares e os poderes que os cidadãos têm para contestar suas decisões.

Reunir assinaturas não significa vencer a discussão. Significa conquistar o direito de levar a discussão à decisão dos eleitores.

Reunir assinaturas não significa vencer a discussão. Significa conquistar o direito de levar a discussão à decisão dos eleitores

Como os cidadãos podem contestar decisões apoiadas pelo governo?

Segundo a página oficial suíça sobre referendos, a maioria das leis entra em vigor sem passar por uma votação popular. O referendo facultativo existe justamente para os casos em que há mobilização suficiente para contestar uma nova lei ou uma alteração legislativa abrangida pelo mecanismo.

Isso significa que não há uma consulta automática sobre tudo o que os políticos aprovam. É necessário organizar a coleta, respeitar o prazo e obter assinaturas de pessoas com direito a voto. A Chancelaria Federal verifica se foram reunidas as condições para que o referendo aconteça.

As assinaturas, portanto, não derrubam a lei. Elas abrem o caminho para uma decisão coletiva. Essa diferença é essencial: um grupo mobilizado consegue levar a questão às urnas, mas não determina sozinho o resultado.

Imagine, como exemplo hipotético, uma lei federal sobre transportes que provoque forte discordância. Se ela estiver sujeita ao referendo facultativo, os opositores poderão reunir as assinaturas necessárias. Depois, tanto os defensores quanto os críticos terão de convencer os eleitores sobre os efeitos da proposta.

O que acontece se a maioria votar contra?

No referendo facultativo comum, a aprovação depende da maioria dos votos válidos. Se prevalecer o “não”, a lei submetida à consulta não entra em vigor. A publicação institucional CH Info apresenta esse instrumento como uma forma de impedir uma nova lei por decisão popular.

Esse resultado tem consequência jurídica, não é apenas uma pesquisa de opinião. Os eleitores estão decidindo sobre a medida. Também não se exige, nesse tipo de consulta, a dupla maioria que aparece nas mudanças constitucionais.

Há regras específicas para leis declaradas urgentes, que podem começar a valer antes de uma votação posterior. Por isso, a descrição de uma lei que aguarda o resultado para entrar em vigor explica o funcionamento comum, sem esgotar todas as situações previstas no sistema suíço.

Reunir assinaturas não significa vencer a discussão. Significa conquistar o direito de levar a discussão à decisão dos eleitores.

O governo convive com outras formas de participação popular

O referendo facultativo é apenas uma parte dessa estrutura. A Suíça também utiliza referendos obrigatórios e iniciativas populares, instrumentos que cumprem funções diferentes. Compreender essa divisão evita imaginar que qualquer abaixo-assinado permite alterar qualquer decisão pública.

Conforme explica o portal oficial sobre democracia direta na Suíça, a iniciativa popular federal permite propor mudanças na Constituição. Para isso, são necessárias 100 mil assinaturas de eleitores em até 18 meses. Trata-se de um caminho para apresentar uma mudança, enquanto o referendo facultativo permite contestar determinados atos já aprovados.

As alterações constitucionais precisam passar por votação popular. Para serem aprovadas, exigem a chamada dupla maioria: apoio da maioria dos votantes e da maioria dos cantões, as unidades que compõem a federação suíça. Essa exigência combina a escolha dos eleitores com o equilíbrio federativo.

O governo e o Parlamento continuam tendo responsabilidades centrais. A participação direta acrescenta possibilidades de intervenção popular ao trabalho das instituições representativas. Assim, escolher representantes e votar sobre assuntos específicos fazem parte do mesmo sistema político.

Segundo a página oficial suíça sobre referendos, a maioria das leis entra em vigor sem passar por uma votação popular

Segundo a página oficial suíça sobre referendos, a maioria das leis entra em vigor sem passar por uma votação popular

Participar diretamente resolve todos os problemas?

Seria exagero tratar o modelo como uma fórmula perfeita. A existência de uma ferramenta de participação não elimina divergências, campanhas de convencimento ou a dificuldade de compreender temas complexos. Uma votação sobre uma lei continua exigindo debate sobre custos, benefícios e consequências.

Também vale olhar com cuidado para a palavra “bastam”. Cinquenta mil assinaturas representam uma exigência bem menor do que mobilizar milhões de pessoas, mas consegui-las dentro do prazo demanda organização. É preciso explicar o tema, encontrar apoiadores e cumprir as formalidades necessárias. A ferramenta é concreta, porém seu uso exige trabalho.

Outra distinção importante é entre participar e concordar com o resultado. Quem pede um referendo pode perder a votação. A população pode confirmar a decisão parlamentar, mesmo depois de uma campanha intensa contra ela. O instrumento oferece uma oportunidade de decisão, não uma garantia de vitória para quem o aciona.

O aspecto mais instigante está na possibilidade de continuar participando entre as eleições. Um cidadão pode apoiar determinados representantes e, ao mesmo tempo, discordar de uma lei específica. Na Suíça, existem caminhos institucionais para que essa discordância se transforme em uma pergunta submetida ao eleitorado.

Essa experiência convida a pensar sobre a distância entre acompanhar a política e influenciar uma decisão. Quando o governo e o Parlamento sabem que determinadas medidas podem enfrentar uma votação popular, a relação com os cidadãos ganha uma etapa adicional de prestação de contas.

Já imaginou poder levar uma lei que afeta sua rotina a uma votação nacional? Mais do que perguntar quem deve governar, o modelo suíço abre espaço para outra questão: em quais decisões os próprios eleitores devem ter a palavra final?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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