O Brasil vai escolher um presidente hoje, mas o futuro depende de nós

O Brasil vai escolher um presidente hoje, mas o futuro depende de nós

A política influencia nossos caminhos, mas nenhum resultado eleitoral substitui o trabalho, o cuidado e os projetos que dão sentido à vida.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine a manhã de segunda-feira, 26 de outubro. Antes de o sol iluminar todas as janelas, alguém já estará preparando o pão, organizando uma sala de aula ou esperando um ônibus. Em uma casa, haverá comemoração pelo resultado das eleições. Em outra, decepção. Nas duas, a vida continuará fazendo seus pedidos: atenção, alimento, trabalho, cuidado e alguma coragem para começar o dia.

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil participa do segundo turno das eleições de 2026, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral. A escolha tem consequências importantes para o país. Mas, depois da apuração, haverá uma pergunta que nenhuma urna pode responder por nós: o que faremos com o dia que começa?

Essa pergunta cabe tanto a quem está esperançoso quanto a quem acompanha a disputa com receio. Cabe também a quem se sente pouco representado e gostaria de encontrar, entre tantas discussões, algum espaço para respirar. Independentemente do voto, todos têm uma vida que merece continuar recebendo atenção.

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil participa do segundo turno das eleições de 2026, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil participa do segundo turno das eleições de 2026, conforme o calendário do Tribunal Superior Eleitoral

O Brasil continua depois das eleições

A política participa da nossa rotina mesmo quando não estamos falando sobre ela. Está nas condições de uma escola, no atendimento de saúde, no transporte e nas oportunidades de trabalho. Seria injusto dizer que qualquer pessoa supera todos os obstáculos apenas com esforço. Há dificuldades que exigem respostas coletivas, investimento público e mudanças que ninguém consegue realizar sozinho.

Reconhecer isso permite cobrar os governos com seriedade. Também ajuda a perceber que uma vitória eleitoral não resolve automaticamente nossos problemas, assim como uma derrota não precisa encerrar nossos projetos. Entre as decisões tomadas em Brasília e a vida que construímos existe um espaço de participação que continua aberto.

Quem deseja aprender uma profissão ainda precisará estudar. Quem procura emprego continuará precisando de oportunidades e de apoio para encontrá-las. Quem mantém um pequeno negócio terá de atender clientes, organizar contas e adaptar planos. Nada disso acontece em condições iguais para todos, mas cada avanço possível merece valor.

O Brasil precisa continuar produzindo alimentos, conhecimento, serviços, arte e soluções. Precisa de gente que consiga ganhar a vida com dignidade, sustentar a família e imaginar um futuro. A responsabilidade dos governantes é criar condições para isso. A nossa participação inclui aproveitar oportunidades, construir outras e exigir que elas alcancem mais pessoas.

O resultado das urnas escolhe governantes. A construção do país continua exigindo a participação de todos.

O que Epicteto tem a ver com a próxima segunda-feira?

Uma reflexão antiga oferece uma maneira interessante de olhar para esse momento. Na abertura de seu Manual, disponível no acervo de clássicos do MIT, Epicteto distingue aquilo que depende de nós daquilo que não está sob nosso comando. O filósofo chama a atenção para nossas escolhas e ações diante de circunstâncias que não controlamos.

Aplicar essa ideia ao presente não significa aceitar qualquer situação em silêncio. Podemos votar, argumentar, participar de movimentos e cobrar representantes. Podemos influenciar a vida pública, mas não determinar individualmente a decisão de milhões de eleitores. Há uma diferença entre participar de um processo e conseguir comandar seu resultado.

Depois da eleição, essa distinção ganha uma dimensão prática. Talvez não possamos mudar o placar, mas podemos decidir se vamos cumprir um compromisso, enviar uma proposta, retomar um curso ou tratar alguém com respeito. São escolhas menores do que uma eleição, porém próximas o suficiente para se transformarem em ação.

Essa é uma leitura possível da reflexão de Epicteto para o nosso cotidiano: reconhecer limites sem abandonar a iniciativa. A preocupação pode continuar existindo enquanto damos o próximo passo.

Amanhã, o Brasil continuará precisando de bons profissionais, de pessoas dispostas a aprender e de comunidades capazes de cuidar umas das outras

Amanhã, o Brasil continuará precisando de bons profissionais, de pessoas dispostas a aprender e de comunidades capazes de cuidar umas das outras

Que Brasil estamos construindo nas pequenas atitudes?

Pense em quantas pessoas precisam cooperar para que uma manhã comum aconteça. Alguém produz o alimento, outro transporta, outro vende. Há quem limpe os espaços, cuide dos pacientes, conserte equipamentos e ensine crianças. Uma rotina aparentemente simples depende de trabalhos que se encontram, mesmo quando seus responsáveis nunca se conheceram.

Esse país cotidiano também precisa de atenção depois das eleições. É nele que uma indicação pode ajudar alguém a conseguir trabalho, uma parceria pode sustentar um pequeno empreendimento e uma conversa pode destravar um projeto. Construir oportunidades não precisa esperar pelo fim de todas as incertezas.

Talvez a próxima semana seja o momento de atualizar o currículo, apresentar um serviço ou procurar aquele curso adiado. Talvez seja hora de organizar as contas, pedir orientação ou reservar um período do dia para uma ideia que sempre fica por último. Nenhuma dessas atitudes garante sucesso, mas cada uma pode produzir um movimento concreto.

E continuar construindo o Brasil também exige condições para descansar. A Declaração Universal dos Direitos Humanos reúne o direito à participação política, ao trabalho em condições justas e ao repouso. Essa combinação lembra que uma vida digna envolve tanto a possibilidade de contribuir quanto a de se recuperar e viver além das obrigações.

Dar o melhor de si pode significar trabalhar com dedicação. Em outro momento, pode significar reconhecer o cansaço, cuidar da saúde ou oferecer ajuda a alguém. O valor de uma pessoa não se resume ao quanto ela consegue produzir.

E se o primeiro compromisso for melhorar a convivência?

Desejar um país mais respeitoso é relativamente fácil. A parte exigente aparece quando precisamos ouvir uma crítica, admitir um erro ou interromper o compartilhamento de uma informação que favorece nossa opinião, mas não foi verificada. É nesse ponto que os valores defendidos em público encontram nossas atitudes.

Quem comemorar o resultado poderá fazê-lo sem humilhar quem perdeu. Quem estiver frustrado poderá manter suas convicções sem transformar cada colega ou vizinho em inimigo. Convivência não exige concordância permanente. Exige encontrar maneiras responsáveis de atravessar as divergências.

Isso também vale para a relação com os eleitos. Apoiar um candidato não precisa significar concordar com todas as suas decisões. Fiscalizar, cobrar e mudar de opinião diante dos fatos são formas de levar a participação política a sério.

A esperança ganha força quando encontra alguma coisa concreta para fazer.

Amanhã, o Brasil continuará precisando de bons profissionais, de pessoas dispostas a aprender e de comunidades capazes de cuidar umas das outras. Continuará precisando de políticas públicas, instituições responsáveis e cidadãos atentos. Esses compromissos podem caminhar juntos.

Na segunda-feira, uma proposta poderá ser enviada. Um problema poderá encontrar solução. Alguém poderá receber o apoio de que precisava para recomeçar. Não será necessário resolver o país inteiro antes do almoço. Haverá, porém, alguma coisa ao nosso alcance que merece ser feita.

Depois de escolher quem vai governar, ainda teremos escolhas próprias a fazer. Que entre elas estejam trabalhar com dignidade, cuidar de quem importa, defender direitos e continuar construindo uma vida que faça sentido. O Brasil do dia seguinte também será formado por esses gestos.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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