7 curiosidades sobre a urna eletrônica que você talvez ainda não saiba

7 curiosidades sobre a urna eletrônica que você talvez ainda não saiba

Ela não se conecta à internet, imprime relatórios e pode ter os votos recontados digitalmente sem quebrar o sigilo.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

A cena é tão familiar que talvez pouca gente pare para pensar no que existe por trás dela. O eleitor entra na cabine, digita alguns números, vê o nome e a fotografia do candidato aparecerem na tela e, depois de conferir tudo, aperta o botão verde. Em seguida, um som característico informa que o voto foi registrado.

Em 2026, esse ritual completa três décadas.

A urna eletrônica estreou oficialmente nas eleições municipais de 1996 e chega aos 30 anos justamente em um ano de eleições gerais. A Justiça Eleitoral prevê colocar 563.910 equipamentos em operação para atender mais de 158,7 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar no primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Um eventual segundo turno está previsto para 25 de outubro.

Antes disso, a campanha entra em uma nova fase. A partir de 16 de agosto de 2026, passa a ser permitida oficialmente a propaganda eleitoral nas ruas e na internet.

É um bom momento, portanto, para olhar além do teclado numérico e descobrir como essa máquina surgiu, por que ela não fica conectada à internet, como seus resultados podem ser conferidos e até por que pesquisadores são convidados a tentar encontrar falhas nos sistemas eleitorais.

A urna eletrônica nasceu em 1996, mas a ideia de utilizar uma máquina para receber votos no Brasil apareceu oficialmente mais de seis décadas antes.

Antes da eleição começar, existe um documento mostrando zero votos. Depois que ela termina, existe outro mostrando exatamente o total daquela seção

Antes da eleição começar, existe um documento mostrando zero votos. Depois que ela termina, existe outro mostrando exatamente o total daquela seção

Como surgiu a urna eletrônica brasileira?

1. A ideia de uma máquina de votar apareceu no Brasil em 1932

Muito antes de computadores pessoais, smartphones ou internet fazerem parte do cotidiano, a legislação brasileira já imaginava uma votação realizada com auxílio de máquinas.

O primeiro Código Eleitoral do país, publicado em 1932, previa em seu artigo 57 o possível “uso das máquinas de votar”, que deveria ser regulamentado pela Justiça Eleitoral e preservar o sigilo do voto. Isso aconteceu 64 anos antes da estreia da urna eletrônica que conhecemos atualmente.

O projeto que levaria ao modelo eletrônico moderno começou efetivamente em 1995. O Tribunal Superior Eleitoral reuniu uma comissão técnica que contou com pesquisadores ligados ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, e ao então Centro Técnico Aeroespacial, CTA. O equipamento chegou a ter um nome bem menos popular: Coletor Eletrônico de Votos, ou CEV.

O desenho também foi pensado para facilitar a utilização pelo eleitor. O teclado numérico inspirado no telefone, por exemplo, ajudava a criar uma interface mais familiar para a população.

2. A primeira eleição eletrônica aconteceu em apenas 57 cidades

Hoje, a urna eletrônica está presente em uma eleição de escala nacional, mas sua implantação aconteceu aos poucos.

Nas eleições municipais de 1996, cerca de 70 mil equipamentos foram distribuídos por 57 cidades. Mais de 32 milhões de brasileiros, aproximadamente um terço do eleitorado daquele período, tiveram contato com a novidade. A experiência abrangeu capitais, todo o estado do Rio de Janeiro e cidades com mais de 200 mil eleitores.

Quatro anos depois, nas eleições municipais de 2000, a votação eletrônica alcançou todas as seções eleitorais do país. A transformação foi particularmente significativa porque substituiu um processo baseado em cédulas de papel e apuração manual, que podia levar muito mais tempo para ser concluído.

Para ter uma dimensão de como a operação cresceu, nas eleições municipais de 2024 foram mobilizadas cerca de 571 mil urnas para um eleitorado superior a 155 milhões de pessoas.

3. A urna eletrônica que recebe seu voto não fica na internet

Essa talvez seja uma das características que mais despertem curiosidade.

Embora seja um equipamento eletrônico, a urna utilizada dentro da seção funciona de forma isolada. Segundo o TSE, ela não possui mecanismo de hardware ou software para se conectar a redes de computadores, seja por conexão com fio ou sem fio.

Isso significa que a urna na qual o eleitor está digitando seu voto não está enviando informações pela internet naquele momento.

Mas como o resultado chega até a totalização?

Quando a votação é encerrada, a urna produz o Boletim de Urna e grava os arquivos de resultado em uma mídia. Essa mídia é retirada fisicamente do equipamento e utilizada em um computador destinado à transmissão dos dados. A transmissão e a totalização, portanto, são etapas posteriores e separadas do funcionamento da urna que recebeu os votos.

Essa diferença é importante. Uma coisa é o equipamento de votação, que funciona isoladamente. Outra é o sistema utilizado posteriormente para encaminhar os arquivos gerados até a estrutura responsável pela totalização.

A urna eletrônica nasceu em 1996, mas a ideia de utilizar uma máquina para receber votos no Brasil apareceu oficialmente mais de seis décadas antes.

A urna eletrônica nasceu em 1996, mas a ideia de utilizar uma máquina para receber votos no Brasil apareceu oficialmente mais de seis décadas antes

Como a urna eletrônica pode ser auditada?

4. Pesquisadores são convidados a tentar encontrar vulnerabilidades

À primeira vista pode soar estranho: por que uma instituição permitiria que especialistas tentassem atacar seus próprios sistemas?

A resposta está justamente na lógica dos testes de segurança.

O Teste Público da Urna permite que pessoas previamente inscritas apresentem e executem planos destinados a encontrar vulnerabilidades nos sistemas eleitorais em ambiente controlado. Os testes podem envolver sistemas de votação, apuração, transmissão, geração de mídias e mecanismos utilizados nas auditorias.

Quando um teste identifica um ponto que precisa ser aprimorado, o sistema é corrigido e posteriormente submetido a uma etapa de confirmação.

No ciclo das Eleições 2026, o Teste Público foi realizado entre 1º e 5 de dezembro de 2025, e o calendário eleitoral previu para maio de 2026 a confirmação das correções decorrentes dos resultados encontrados.

Outra camada é a inspeção dos códigos-fonte. Desde outubro de 2025, entidades autorizadas puderam analisar os códigos dos sistemas que serão utilizados em 2026. Entre elas estão partidos, Congresso Nacional, Ministério Público, Polícia Federal, Tribunal de Contas da União, Sociedade Brasileira de Computação e universidades credenciadas.

Em junho de 2026, por exemplo, o Senado Federal esteve entre as instituições que realizaram inspeção nos códigos-fonte no TSE.

5. Antes do primeiro voto, a urna imprime um documento dizendo que está zerada

Antes de qualquer eleitor utilizar a urna eletrônica, existe uma pequena cerimônia que muita gente nunca viu.

É a impressão da chamada zerésima.

Esse relatório é emitido depois da inicialização da urna e mostra que nenhum voto está registrado naquele equipamento antes da abertura da votação. O documento pode ser acompanhado por fiscais e é assinado pelos responsáveis pelos trabalhos da seção.

No final da votação ocorre outro momento importante. A urna imprime o Boletim de Urna, conhecido como BU, com os resultados daquela seção eleitoral. Ele informa os votos contabilizados para candidaturas e legendas, além dos votos brancos e nulos.

Esses boletins também permitem uma forma interessante de conferência. Os resultados de cada seção podem ser comparados posteriormente com os dados utilizados na totalização. O TSE divulga individualmente esses resultados, tornando possível verificar se os números de determinada seção correspondem àqueles produzidos pela respectiva urna.

Antes da eleição começar, existe um documento mostrando zero votos. Depois que ela termina, existe outro mostrando exatamente o total daquela seção.

6. Urnas são sorteadas e testadas com votos conhecidos em papel

Existe ainda uma espécie de experimento realizado no período da eleição para verificar se aquilo que é digitado corresponde ao resultado apresentado pelo equipamento.

É o Teste de Integridade.

Na véspera da eleição, urnas já preparadas e lacradas são selecionadas em cerimônia pública. Os equipamentos escolhidos para a auditoria são substituídos nas respectivas seções por urnas de contingência, permitindo que a votação oficial ocorra normalmente.

Em seguida, é feita uma votação simulada com cédulas de papel. No dia da eleição, durante o horário da votação oficial, os votos previamente conhecidos são digitados nas urnas submetidas ao teste.

No final, a contagem das cédulas de papel é comparada com aquilo que aparece no Boletim de Urna.

O teste é utilizado desde 2002. Segundo o TSE, ao longo de mais de duas décadas de aplicação em todos os estados, não foi registrada divergência entre os votos simulados inseridos nas urnas auditadas e os resultados produzidos por elas.

Há um detalhe importante: os votos utilizados nesse procedimento são apenas de teste e não entram na contagem oficial da eleição.

7. Os votos podem ser recontados digitalmente sem revelar o eleitor

Aqui aparece uma pergunta interessante: se o voto é secreto, como realizar uma recontagem?

A resposta está em um arquivo chamado Registro Digital do Voto, o RDV.

O RDV registra aquilo que foi digitado na urna, mas armazena os votos de maneira embaralhada entre os diferentes cargos. De acordo com o TSE, o arquivo não contém uma associação que permita relacionar determinado voto a uma pessoa ou simplesmente reconstruir a sequência de comparecimento dos eleitores.

A partir desse registro é possível realizar uma nova contagem e comparar o resultado obtido com o Boletim de Urna.

É uma solução pensada para conciliar duas coisas que parecem contraditórias à primeira vista: preservar o segredo da escolha individual e, ao mesmo tempo, permitir a verificação da soma dos votos.

A urna eletrônica também não é a única maneira de utilizar tecnologia em eleições pelo mundo. Diferentes países adotam diferentes modelos, que podem envolver máquinas eletrônicas, cédulas de papel processadas por leitores ópticos ou combinações entre sistemas físicos e digitais. O modelo brasileiro, porém, ganhou uma escala particularmente grande ao ser utilizado em um país com mais de 158 milhões de eleitores aptos em 2026.

Trinta anos depois da estreia em apenas 57 cidades, a máquina que um dia parecia uma novidade tecnológica passou a fazer parte da memória eleitoral de diferentes gerações de brasileiros.

E neste domingo, 16 de agosto de 2026, quando começa oficialmente o período autorizado para propaganda eleitoral nas ruas e na internet, as eleições voltam de vez ao cotidiano do país. Em 4 de outubro, milhões de pessoas estarão novamente diante daquele teclado numérico, da fotografia na tela e do conhecido botão verde de confirmação.

Por trás de alguns segundos necessários para registrar um voto existe uma história iniciada em 1932, décadas de desenvolvimento tecnológico, documentos impressos, códigos analisados, testes com cédulas de papel e diferentes mecanismos de auditoria.

E pensar que tudo isso acontece antes e depois daquele simples som que confirma o seu voto.

Já imaginou isso?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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