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Físico com prêmio Nobel afirma que a alma é eterna. Entenda a teoria

Físico com prêmio Nobel afirma que a alma é eterna. Entenda a teoria

Microtúbulos, experiências de quase-morte e informação quântica aparecem nessa discussão, com significados diferentes dos que circulam nas redes.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine alguém que sobrevive a uma parada cardíaca e, depois de recuperar a consciência, conta que sentiu uma paz profunda ou teve a impressão de observar o próprio corpo de fora. Relatos assim despertam uma pergunta antiga: nossa experiência de existir depende inteiramente do cérebro ou poderia continuar de alguma forma depois da morte?

É nesse encontro entre curiosidade, ciência e espiritualidade que aparece uma ideia frequentemente chamada de “alma quântica”. Ela costuma ser associada ao físico Roger Penrose e ao anestesiologista Stuart Hameroff, autores de uma hipótese sobre a origem da consciência. Nas versões que circulam pela internet, porém, a proposta muitas vezes ganha uma conclusão que as pesquisas não demonstraram: a de que nossa identidade escaparia do corpo e permaneceria eternamente no universo.

Não há, nos estudos apresentados, comprovação de que uma alma abandone os neurônios, sobreviva no espaço ou retorne ao corpo durante uma reanimação. A investigação real é sobre possíveis mecanismos da consciência. E essa história já é suficientemente intrigante sem precisar transformar hipóteses em certezas.

Roger Penrose recebeu o Nobel de Física de 2020 por demonstrar que a formação de buracos negros é uma previsão robusta da relatividade geral

Roger Penrose recebeu o Nobel de Física de 2020 por demonstrar que a formação de buracos negros é uma previsão robusta da relatividade geral

O que a hipótese de Penrose tem a ver com a alma?

Roger Penrose recebeu o Nobel de Física de 2020 por demonstrar que a formação de buracos negros é uma previsão robusta da relatividade geral. O prêmio reconheceu esse trabalho específico, não uma explicação da consciência ou uma descoberta sobre a alma. A distinção importa porque o prestígio de um pesquisador não confirma automaticamente todas as suas propostas.

Em parceria com Hameroff, Penrose desenvolveu a hipótese da Redução Objetiva Orquestrada, conhecida pela sigla Orch-OR. Na revisão publicada pelos próprios autores em Physics of Life Reviews, eles propõem que processos quânticos organizados em microtúbulos dos neurônios participem da produção de momentos conscientes. A hipótese também relaciona esses processos à estrutura fundamental do espaço-tempo.

Em linguagem acessível, a proposta sugere que compreender a mente exigiria investigar fenômenos em uma escala menor do que a das conexões entre neurônios. O funcionamento dessas estruturas internas teria um papel especial na experiência de perceber, sentir e escolher.

Isso é diferente de identificar uma entidade espiritual. “Consciência”, nesse contexto, diz respeito à experiência subjetiva: existir um ponto de vista a partir do qual sentimos o mundo. Já “alma” pode significar coisas distintas em tradições religiosas e filosóficas, incluindo uma essência pessoal que sobreviveria ao corpo. Aproximar os dois conceitos exige argumentos adicionais.

O que são os microtúbulos e por que eles chamam atenção?

Microtúbulos são estruturas reais, formadas por proteínas e presentes em muitas células. Integram o citoesqueleto, ajudam a organizar o espaço celular e participam do transporte de materiais. Nos neurônios, funcionam como caminhos pelos quais componentes importantes podem se deslocar.

Uma comparação útil é imaginar uma cidade microscópica. Os microtúbulos participam tanto de sua organização quanto de suas rotas de transporte. A Orch-OR acrescenta a essa infraestrutura conhecida uma função muito mais ambiciosa: participar de processos quânticos associados à consciência.

O ponto em debate é justamente essa função adicional. Encontrar estruturas celulares ou fenômenos físicos interessantes não demonstra, por si só, que eles expliquem a experiência consciente. É necessário mostrar como o mecanismo funciona e produzir resultados capazes de distinguir essa hipótese de outras explicações.

Há críticas científicas importantes. Uma análise publicada em Physical Review E questionou a viabilidade biológica da proposta original. Pesquisas posteriores também investigaram limitações de modelos físicos relacionados à Orch-OR. Seus autores defendem a hipótese e respondem a objeções, mas ela permanece uma proposta debatida, não uma explicação estabelecida da mente.

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Uma hipótese sobre como a consciência surge não é, por si só, uma demonstração de que ela sobrevive à morte.

a proposta sugere que compreender a mente exigiria investigar fenômenos em uma escala menor do que a das conexões entre neurônios

a proposta sugere que compreender a mente exigiria investigar fenômenos em uma escala menor do que a das conexões entre neurônios

Experiências de quase-morte comprovam a existência da alma?

As experiências de quase-morte são um objeto legítimo de pesquisa. Pessoas reanimadas podem relatar lembranças, sensações e percepções marcantes. Reconhecer esses relatos, entretanto, não determina automaticamente sua origem nem comprova que a consciência tenha funcionado fora do cérebro.

Uma distinção essencial é que parada cardíaca e morte encefálica não são a mesma condição. A parada cardíaca interrompe a circulação efetiva e pode ser revertida em determinadas circunstâncias. A morte encefálica corresponde à perda irreversível das funções cerebrais, estabelecida por avaliação médica específica. Estudos com sobreviventes de reanimação não são estudos com pessoas que recuperaram a vida após morte encefálica confirmada.

O estudo AWARE II, publicado na revista Resuscitation, acompanhou 567 casos de parada cardíaca hospitalar. Houve 53 sobreviventes, dos quais 28 participaram das entrevistas. Entre esses entrevistados, 11 relataram lembranças ou percepções sugestivas de consciência. Os relatos incluíram experiências diferentes, não uma narrativa idêntica compartilhada por todos.

A pesquisa também registrou, durante a ressuscitação, atividade elétrica cerebral compatível com processos cognitivos em alguns momentos. Nos testes de percepção, ninguém identificou a imagem visual apresentada e uma pessoa reconheceu o estímulo auditivo. Esses resultados ajudam a investigar consciência durante a emergência, mas não demonstram uma alma deixando o corpo nem validam a Orch-OR.

Informação quântica preservada significa uma pessoa eterna?

Esse é um dos maiores saltos presentes nas versões populares da história. Mesmo quando se fala em preservação de informação em física, não se pode concluir automaticamente que memórias, personalidade e experiência subjetiva permaneçam reunidas como uma pessoa consciente.

Há uma diferença entre descrever fisicamente um sistema e demonstrar a continuidade de alguém que sente, reconhece sua história e mantém uma identidade. Para sustentar a ideia de sobrevivência pessoal, seria necessário explicar e testar essa continuidade. A expressão “informação quântica” não resolve essa etapa.

Também não é adequado apresentar como resultado científico a narrativa de que dados pessoais saem dos microtúbulos durante uma parada cardíaca e retornam quando o coração volta a bater. Os estudos citados não acompanharam esse suposto percurso nem demonstraram tal mecanismo.

A consciência continua sendo um problema científico aberto, com diferentes abordagens tentando explicar como a experiência subjetiva se relaciona com a atividade cerebral. Uma revisão em Nature Reviews Neuroscience, por exemplo, discute várias linhas teóricas e os desafios de diferenciá-las experimentalmente. A Orch-OR faz parte de um debate mais amplo, não ocupa sozinha esse território.

A pergunta sobre a alma pode ter significado religioso, filosófico ou pessoal. A ciência contribui investigando mecanismos e confrontando explicações com evidências. Por enquanto, o que temos é uma hipótese provocadora sobre a consciência e pesquisas importantes sobre situações próximas da morte. A eternidade da identidade humana continua muito além do que esses resultados permitem afirmar.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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