Você lembra do Ciclone-Bomba no Brasil em 2020? Relembre como foi

Você lembra do Ciclone-Bomba no Brasil em 2020? Relembre como foi

Mudanças climáticas podem alterar tempestades no Atlântico Sul, mas a relação não permite conclusões simples sobre todos os ciclones.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Quem estava no Sul do Brasil em 30 de junho de 2020 dificilmente esqueceu o barulho. Árvores começaram a cair, telhados foram arrancados, postes tombaram e bairros inteiros mergulharam na escuridão enquanto rajadas violentas atravessavam cidades de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

Em poucas horas, uma expressão que até então era desconhecida para boa parte dos brasileiros apareceu em praticamente todos os noticiários: Ciclone-Bomba.

O episódio deixou 13 mortos nos três estados do Sul, segundo o balanço consolidado posteriormente. Somente em Santa Catarina, o Corpo de Bombeiros Militar confirmou 11 mortes diretamente relacionadas ao ciclone. O fenômeno também interrompeu o fornecimento de energia para quase 2 milhões de consumidores na Região Sul.

Seis anos depois, o termo voltou às manchetes. Entre os dias 6 e 8 de agosto de 2026, outro ciclone extratropical passou por um processo de rápida intensificação próximo ao Sul da América do Sul. O Inmet passou a classificar o fenômeno como Ciclone-Bomba e alertou para tempestades, granizo e vendavais associados ao sistema.

A lembrança de 2020, naturalmente, voltou junto.

Mas o que exatamente aconteceu naquele ano? Por que aquele ciclone foi tão destrutivo? E a ocorrência de outro episódio em 2026 significa que esses fenômenos estão se tornando o novo normal?

O desastre de 2020 não chamou atenção apenas pela força do ciclone, mas pelo lugar onde ele ganhou intensidade: muito próximo do continente e de áreas densamente povoadas.

Um novo Ciclone-Bomba não prova sozinho uma tendência climática. O sinal aparece quando décadas de observações começam a revelar mudanças persistentes.

Um novo Ciclone-Bomba não prova sozinho uma tendência climática. O sinal aparece quando décadas de observações começam a revelar mudanças persistentes

O que aconteceu no Ciclone-Bomba de 2020?

O sistema começou a se organizar entre o final de 29 de junho e a manhã de 30 de junho de 2020. Segundo a análise publicada pelo Instituto Nacional de Meteorologia na época, havia um contraste intenso entre uma massa de ar quente ao norte e uma massa de ar frio ao sul, combinado com perturbações atmosféricas em diferentes altitudes.

Essas condições favoreceram a formação de um ciclone extratropical e, principalmente, sua intensificação muito rápida.

Em Florianópolis, a pressão atmosférica caiu de 1020 para 996 hectopascais em aproximadamente 24 horas. Uma redução de 24 hPa em tão pouco tempo representa justamente uma das características utilizadas para identificar uma ciclogênese explosiva.

O Inmet registrou ventos de até 120 km/h associados às linhas de instabilidade em áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Na madrugada seguinte, Santa Vitória do Palmar, no extremo sul gaúcho, registrou rajada de 116 km/h quando o ciclone já estava em estágio maduro sobre o Atlântico.

Os danos foram particularmente graves em Santa Catarina.

O Corpo de Bombeiros estadual confirmou 11 mortes diretamente associadas ao fenômeno. Outras duas pessoas morreram posteriormente em acidentes ocorridos durante a reconstrução de imóveis, mas esses óbitos foram contabilizados separadamente pela corporação.

A dimensão territorial também impressiona.

Números divulgados nos primeiros dias contabilizavam um número menor de municípios atingidos, mas um levantamento posterior da Epagri encontrou prejuízos agropecuários decorrentes do ciclone em 257 dos 295 municípios de Santa Catarina, equivalente a 87% das cidades do estado.

Somente no meio rural catarinense, foram afetados mais de 47 mil estabelecimentos agropecuários, além de pescadores e maricultores. As perdas estimadas pela Epagri chegaram a aproximadamente R$ 587,4 milhões em valores de 2020.

Lavouras, pomares, reflorestamentos, pastagens, máquinas, estruturas rurais e residências foram atingidos. As regiões de Joinville e Criciúma concentraram grande parte dos prejuízos levantados pela empresa estadual.

Nas cidades, as imagens mostravam outro tipo de destruição. Árvores bloqueavam avenidas, telhados metálicos apareciam retorcidos no meio das ruas e postes deixavam milhares de imóveis sem eletricidade.

O episódio mostrou que um ciclone não precisa ter seu centro exatamente sobre uma cidade para causar estragos. As frentes frias, linhas de instabilidade e fortes gradientes de pressão associados ao sistema podem espalhar ventos severos por áreas muito extensas.

Como um ciclone vira uma “bomba”?

Apesar do nome cinematográfico, não existe explosão.

Ciclones são áreas de baixa pressão atmosférica. Quando um ciclone de médias latitudes ganha intensidade muito rapidamente, ocorre o processo chamado de ciclogênese explosiva, popularmente conhecido como bombogênese.

O critério clássico considera uma redução de aproximadamente 24 hectopascais em 24 horas na latitude de 60 graus. Esse valor é ajustado conforme a latitude onde o sistema se desenvolve, portanto a regra de 24 hPa não deve ser aplicada da mesma maneira em qualquer ponto do planeta.

Quando a pressão no centro diminui rapidamente, aumenta a diferença de pressão entre diferentes regiões da atmosfera. Essa diferença favorece ventos mais fortes circulando em torno do sistema.

O encontro entre massas de ar com temperaturas muito diferentes também pode contribuir para o rápido fortalecimento de ciclones extratropicais.

Foi exatamente esse conjunto de condições que chamou atenção em 2020.

O próprio Inmet explicou posteriormente que a ocorrência de ciclogênese explosiva na costa atlântica da América do Sul não era inédita. Segundo o instituto, fenômenos com essas características podem ocorrer anualmente na região. O aspecto excepcional daquele episódio foi sua grande abrangência e o fato de o sistema ter se aprofundado intensamente ainda muito próximo do continente.

Essa diferença é fundamental.

Um Ciclone-Bomba que se intensifica centenas de quilômetros mar adentro pode gerar ondas enormes e representar perigo para embarcações sem produzir o mesmo nível de destruição nas cidades.

Quando a intensificação acontece próxima da costa, uma população muito maior fica exposta aos ventos, tempestades e demais efeitos associados.

O desastre de 2020 não chamou atenção apenas pela força do ciclone, mas pelo lugar onde ele ganhou intensidade: muito próximo do continente e de áreas densamente povoadas.

O desastre de 2020 não chamou atenção apenas pela força do ciclone, mas pelo lugar onde ele ganhou intensidade: muito próximo do continente e de áreas densamente povoadas

O Ciclone-Bomba de 2026 é sinal de um novo normal?

Seis anos depois, outro episódio trouxe a expressão de volta.

No início de agosto de 2026, o Inmet acompanhou uma área de baixa pressão que se desenvolveu entre Argentina, Paraguai, Uruguai, Sul do Brasil e Oceano Atlântico. Os modelos chegaram a projetar pressão central próxima de 940 hPa durante a fase mais intensa sobre o oceano.

Nos dias 6 e 7, o instituto alertou para tempestades, granizo e vendavais no Sul. Já na atualização publicada em 7 de agosto para o fim de semana, o cenário indicava que os efeitos diretos do ciclone diminuiriam gradualmente enquanto o sistema se afastava pelo Atlântico.

Neste sábado, 8 de agosto, o principal efeito posterior é a entrada de ar frio. O Inmet prevê geada em áreas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, enquanto tempestades ainda podem ocorrer principalmente no Paraná, em partes de Santa Catarina, no sul de Mato Grosso do Sul e no centro-sul paulista.

Isso significa que 2020 está se repetindo?

Não necessariamente.

A intensidade de um ciclone, sua trajetória, o local onde ocorre a maior queda de pressão e a posição das tempestades associadas fazem enorme diferença. Dois fenômenos que recebem o mesmo nome podem produzir impactos completamente distintos.

Também é preciso cuidado com a ideia de que o aquecimento global está simplesmente tornando todo Ciclone-Bomba mais frequente ou mais forte.

A relação é muito mais complexa.

Uma pesquisa publicada na revista Ocean Dynamics analisou mudanças entre 1979 e 2020 no Atlântico Sul sudoeste e encontrou alterações significativas na duração, intensidade e direção de eventos extremos de ondas. No verão, os eventos extremos analisados apresentaram tendência de maior duração e intensidade em partes da região. O estudo também observou mudanças na localização das trajetórias de tempestades e dos centros de ciclones.

Ao mesmo tempo, os próprios pesquisadores ressaltam diferenças grandes entre verão e inverno e entre diferentes partes do Atlântico Sul. Há regiões com tendências positivas, outras praticamente sem tendência e áreas onde determinados parâmetros diminuíram.

Isso impede uma conclusão simplista como “o aquecimento global fará o Brasil ter mais Ciclones-Bomba todos os anos”.

O que já sabemos é que o sistema climático está mudando e que mudanças na circulação atmosférica, nas trajetórias das tempestades e no comportamento das ondas extremas podem modificar os riscos enfrentados pelo litoral brasileiro. Separar essa tendência de longo prazo da variabilidade natural exige séries históricas extensas e estudos específicos.

Um novo Ciclone-Bomba não prova sozinho uma tendência climática. O sinal aparece quando décadas de observações começam a revelar mudanças persistentes.

O que 2020 ensina sobre o risco em 2026?

Talvez a maior lição deixada por 2020 seja que o impacto não depende apenas da pressão mínima registrada no centro do ciclone.

Depende de onde as tempestades passam, onde os ventos mais fortes atingem o continente, da vulnerabilidade das construções, da rede elétrica, da presença de árvores, das condições das estradas e, principalmente, da capacidade de alertar a população com antecedência.

Em 2026, o monitoramento começou vários dias antes da fase mais intensa. O Inmet publicou atualizações sucessivas sobre a formação do sistema, tempestades, queda de temperatura e áreas sob risco.

Essa antecipação faz diferença porque alguns cuidados simples podem reduzir danos. Objetos soltos em quintais e varandas podem ser recolhidos, veículos podem ser retirados debaixo de árvores, atividades no mar podem ser adiadas e moradores de áreas vulneráveis conseguem acompanhar orientações da Defesa Civil.

Também é importante compreender os avisos meteorológicos sem transformar cada ciclone em uma previsão de catástrofe.

O nome Ciclone-Bomba assusta, mas não corresponde a uma categoria de destruição como as utilizadas para furacões. Ele descreve a velocidade de intensificação do sistema, não uma quantidade específica de chuva, uma velocidade obrigatória de vento ou um nível determinado de danos.

Um episódio pode apresentar bombogênese sobre o oceano e causar impactos relativamente limitados no continente. Outro pode se intensificar próximo de áreas urbanizadas e produzir consequências muito maiores.

Foi justamente essa combinação que tornou 2020 tão marcante.

A pressão caiu rapidamente, as instabilidades atingiram uma área extensa do Sul e o sistema ganhou força perto do continente. O resultado foi uma sequência de mortes, destruição, falta de energia e prejuízos que continuam presentes na memória de quem viveu aquelas horas.

Em 2026, a existência de outro Ciclone-Bomba não significa que a história necessariamente se repetirá.

Mas lembrar o que aconteceu seis anos atrás ajuda a entender por que meteorologistas e órgãos de Defesa Civil acompanham esses sistemas com tanta atenção.

O céu pode mudar em poucas horas. E, quando a pressão também despenca rapidamente, saber o que está acontecendo deixa de ser apenas uma curiosidade meteorológica e se transforma em informação de segurança.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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