Professor brasileiro perde 21% do tempo de aula para tentar manter disciplina

Professor brasileiro perde 21% do tempo de aula para tentar manter disciplina

Pesquisa internacional revela quanto a indisciplina afeta o ensino. A cada cinco horas, uma é usada para organizar a sala de aula.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

O sinal toca, os estudantes entram e o professor se prepara para começar mais uma aula. Antes de explicar o conteúdo, porém, ele precisa pedir silêncio, interromper conversas paralelas, recuperar a atenção da turma e administrar diferentes comportamentos. Quando finalmente consegue ensinar, uma parte considerável do tempo disponível já passou.

Essa cena comum nas escolas ganhou dimensão concreta com os resultados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem, a Talis 2024. Segundo o levantamento, o professor brasileiro destina, em média, 21% do tempo de aula à manutenção da ordem. Na prática, é como se uma hora de cada cinco passadas em sala fosse consumida pela tentativa de criar condições para que o ensino aconteça.

A proporção brasileira está acima da média dos países e territórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, que ficou em 15%. O resultado não significa que todo professor enfrente exatamente o mesmo cenário, mas ajuda a revelar um desafio que atravessa diferentes redes de ensino: ensinar também passou a exigir um esforço constante de gestão da turma.

Como tantos professores conseguem permanecer satisfeitos com a profissão mesmo enfrentando interrupções, estresse e baixa valorização?

Como tantos professores conseguem permanecer satisfeitos com a profissão mesmo enfrentando interrupções, estresse e baixa valorização?

Por que o professor brasileiro perde tanto tempo de aula?

A Talis reúne informações fornecidas por professores e diretores e permite comparar condições de trabalho, práticas pedagógicas e percepções sobre a carreira. No Brasil, a edição de 2024 foi conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep, com a colaboração das secretarias de Educação das 27 unidades da Federação. A pesquisa se concentrou principalmente nos anos finais do ensino fundamental.

Os dados mostram que o problema vai além de episódios isolados de indisciplina. Cerca de 44% dos professores brasileiros disseram ser bastante interrompidos pelos alunos, índice superior ao dobro da média da OCDE, de 18%. Isso indica que a dificuldade não está apenas em controlar comportamentos mais graves, mas também em lidar com pequenas interrupções que, acumuladas, quebram o ritmo da explicação.

Uma conversa paralela pode parecer inofensiva. O mesmo vale para um estudante que se levanta sem necessidade, para o celular usado fora de hora ou para uma brincadeira no fundo da sala. Quando essas situações se repetem, entretanto, o professor precisa pausar, reorganizar a atenção coletiva e retomar o raciocínio. São minutos aparentemente pequenos que se transformam em uma parcela significativa do calendário escolar.

A cada cinco horas de aula, aproximadamente uma é utilizada pelo professor brasileiro para manter a ordem e recuperar a atenção dos estudantes.

A comparação histórica também chama atenção. Entre 2018 e 2024, o tempo destinado à disciplina aumentou dois pontos percentuais no Brasil. A média da OCDE registrou crescimento semelhante, sugerindo que as dificuldades de concentração e convivência não são exclusivamente brasileiras. Ainda assim, o patamar nacional permanece mais elevado.

As interrupções afetam somente o conteúdo?

Perder tempo de aula não significa apenas deixar de apresentar uma parte da matéria. As interrupções também podem reduzir a profundidade das explicações, limitar atividades práticas e dificultar o acompanhamento individual de estudantes que precisam de mais apoio. Quando o tempo fica apertado, o professor pode ser obrigado a escolher entre concluir o conteúdo e esclarecer dúvidas.

A situação também interfere na continuidade do aprendizado. Uma explicação interrompida várias vezes perde a sequência, exige repetições e pode aumentar a dispersão da própria turma. É como tentar acompanhar uma história enquanto alguém pausa a narrativa a cada poucos minutos. Mesmo que todas as informações sejam apresentadas, conectá-las se torna mais difícil.

Apesar disso, o cenário não deve ser interpretado como uma simples oposição entre professores e alunos. Problemas de comportamento podem estar relacionados a dificuldades emocionais, conflitos familiares, falta de suporte escolar, defasagem de aprendizagem e ausência de regras consistentes. Turmas numerosas e ambientes inadequados também podem tornar a gestão da sala mais complicada.

Professor brasileiro enfrenta estresse e pouca valorização

Manter a disciplina aparece como uma das principais fontes de pressão profissional. De acordo com a nota da OCDE sobre o Brasil, 64% dos docentes apontaram essa tarefa como uma fonte considerável de estresse. A responsabilidade pelo desempenho dos estudantes foi mencionada por 66%, enquanto o excesso de correções apareceu para 60%.

No panorama geral, 21% dos docentes brasileiros afirmaram sentir muito estresse no trabalho, percentual próximo da média da OCDE, de 19%. O dado mais preocupante aparece quando o assunto são os efeitos sobre a saúde: 16% disseram que a profissão prejudica muito a saúde mental, ante 10% na média internacional. Outros 12% relataram forte impacto sobre a saúde física, enquanto a média comparável foi de 8%.

O nível de estresse intenso cresceu sete pontos percentuais no Brasil entre 2018 e 2024. Esses números ajudam a entender por que o debate sobre qualidade da educação não pode ficar restrito a currículos, provas e materiais didáticos. As condições enfrentadas por quem conduz a aula também influenciam diretamente o ambiente de aprendizagem.

A cada cinco horas de aula, aproximadamente uma é utilizada pelo professor brasileiro para manter a ordem e recuperar a atenção dos estudantes.

A cada cinco horas de aula, aproximadamente uma é utilizada pelo professor brasileiro para manter a ordem e recuperar a atenção dos estudantes

Como melhorar o ambiente dentro da escola?

Não existe uma solução única para a indisciplina. Formação continuada em gestão de sala, apoio de equipes pedagógicas, participação das famílias, regras claras e atendimento adequado aos estudantes são algumas das medidas capazes de reduzir o peso colocado exclusivamente sobre o professor brasileiro.

Criar um ambiente mais organizado não significa transformar a escola em um lugar silencioso ou rígido. Uma sala participativa naturalmente possui perguntas, debates e movimento. A diferença está entre a interação que amplia o aprendizado e a interrupção constante que impede a turma de avançar.

A valorização profissional também faz parte dessa equação. Apenas 14% dos docentes brasileiros disseram acreditar que os professores são valorizados pela sociedade, abaixo da média de 22% da OCDE. O mesmo percentual afirmou que suas opiniões são consideradas pelos responsáveis pelas políticas públicas, embora esse indicador tenha avançado oito pontos percentuais desde 2018.

Curiosamente, os sinais de desgaste convivem com uma forte ligação com a profissão. Segundo a pesquisa, 87% dos professores brasileiros declararam satisfação geral com o trabalho, resultado próximo da média da OCDE, de 89%. Além disso, para 58% dos docentes, ensinar foi a primeira escolha de carreira.

Como tantos professores conseguem permanecer satisfeitos com a profissão mesmo enfrentando interrupções, estresse e baixa valorização?

A resposta talvez esteja no sentido atribuído ao próprio trabalho. A satisfação pode surgir do vínculo com os estudantes, do prazer de ensinar e da percepção de que a educação transforma trajetórias. Isso, contudo, não deve servir como justificativa para naturalizar a sobrecarga.

Os resultados da Talis 2024 divulgados pela OCDE e disponibilizados pelo Inep funcionam como um alerta. Se o professor brasileiro precisa gastar uma parcela tão grande da aula tentando estabelecer condições mínimas de atenção, o problema não pertence apenas a ele. É uma questão que envolve gestão escolar, famílias, políticas públicas e toda a sociedade.

Recuperar esse tempo não significa apenas aumentar a quantidade de conteúdo apresentado. Significa permitir aulas mais profundas, relações mais saudáveis e um cotidiano menos desgastante para professores e estudantes. Afinal, cada minuto usado para controlar uma interrupção é um minuto que deixa de ser dedicado à curiosidade, à descoberta e ao aprendizado.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também