Vista do espaço, a cena parece saída de um filme sobre o fim do mundo. Três enormes espirais de nuvens giram sobre o mesmo oceano, cada uma com centenas de quilômetros de extensão e ventos capazes de destruir construções. Em setembro de 2026, Lowell, Karina e Marie chamaram a atenção ao permanecerem ativos simultaneamente sobre o Pacífico oriental e central.
A imagem impressiona, mas não significa que três furacões estejam avançando lado a lado ou prestes a se juntar em uma tempestade gigantesca. Os sistemas estão separados por grandes distâncias, possuem trajetórias próprias e enfrentam condições atmosféricas diferentes.
Na quinta-feira, 3 de setembro, Lowell era o mais intenso deles. O sistema alcançou a categoria 4 na escala Saffir-Simpson, com ventos sustentados próximos de 225 km/h, enquanto se deslocava ao sul do Havaí. Karina mantinha força de grande furacão, e Marie apresentava menor intensidade, embora ainda tivesse possibilidade de fortalecimento.
A ocorrência de três furacões ao mesmo tempo não é inédita, especialmente perto do período mais movimentado da temporada. Ainda assim, o episódio ajuda a visualizar como o oceano e a atmosfera podem sustentar vários ciclones tropicais simultaneamente.
Três furacões ativos não significam necessariamente três impactos diretos, mas cada sistema pode causar efeitos perigosos a centenas de quilômetros de seu centro.

Embora a trajetória prevista mantivesse o centro de Marie longe da costa mexicana, suas ondas poderiam atingir partes do oeste do México, da Baixa Califórnia e, posteriormente, do sul da Califórnia
Por que três furacões surgiram ao mesmo tempo?
A temporada de furacões do Pacífico oriental acontece oficialmente entre maio e novembro. Sua fase mais ativa costuma ocorrer entre agosto e setembro, quando extensas áreas do oceano apresentam temperaturas suficientemente elevadas para alimentar tempestades tropicais.
Um furacão funciona como uma enorme máquina térmica. A água quente evapora, sobe e libera energia quando o vapor se transforma novamente em pequenas gotas. Esse processo favorece a formação de nuvens profundas e tempestades organizadas em torno de uma região de baixa pressão.
Somente a água quente, porém, não basta. O desenvolvimento de um ciclone também depende da umidade disponível, da instabilidade da atmosfera e de ventos que não mudem de velocidade ou direção bruscamente conforme a altitude. Quando existe muito cisalhamento do vento, a estrutura da tempestade pode ser inclinada e desorganizada.
Em setembro, essas condições podem aparecer em diferentes pontos do Pacífico ao mesmo tempo. Ondas tropicais que atravessam a região encontram águas aquecidas e começam a organizar tempestades. Algumas não evoluem, enquanto outras desenvolvem circulação fechada e passam pelas classificações de depressão tropical, tempestade tropical e furacão.
Por isso, a presença de três furacões não significa necessariamente que algo completamente anormal esteja acontecendo. O episódio ocorreu em uma época naturalmente favorável à formação de ciclones, embora a intensidade alcançada por Lowell tenha elevado o nível de atenção.
O aquecimento dos oceanos também influencia o comportamento dos ciclones tropicais. Águas mais quentes disponibilizam mais energia para esses sistemas e podem favorecer chuvas intensas ou períodos de fortalecimento rápido. Isso não significa que toda tempestade individual possa ser atribuída diretamente à mudança climática, pois sua formação depende de vários elementos atmosféricos.
Lowell é o furacão que exige maior atenção
Entre os três furacões, Lowell apresentava o cenário mais preocupante em 3 de setembro. O ciclone estava ao sul das ilhas havaianas e havia alcançado a categoria 4, classificação reservada a sistemas com ventos extremamente destrutivos.
Os boletins do Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos indicavam que Lowell deveria permanecer como um grande furacão durante os dias seguintes. Sua trajetória prevista incluía um deslocamento para oeste, seguido por uma mudança para noroeste e norte.
O centro da tempestade não tinha impacto direto confirmado sobre o arquipélago. Entretanto, pequenas mudanças na velocidade ou no momento da curva poderiam alterar os efeitos sentidos pelas ilhas. Por esse motivo, moradores e autoridades foram orientados a acompanhar os boletins atualizados.
Mesmo sem tocar o solo, Lowell já movimentava uma grande quantidade de água em direção ao Havaí. O Serviço Nacional de Meteorologia em Honolulu alertou para ondas elevadas, fortes correntes e condições perigosas em diferentes trechos do litoral.
As previsões apontavam ondas de até aproximadamente 3,6 metros em algumas áreas voltadas para o sul. A combinação com as marés altas poderia causar problemas em entradas de portos, canais, estradas e propriedades próximas ao mar.
É uma lembrança importante de que o perigo de um furacão não se limita ao olho da tempestade. Ondas, correntes de retorno, ventos, chuva e elevação do nível do mar podem alcançar regiões distantes da trajetória central.

Três furacões ativos não significam necessariamente três impactos diretos, mas cada sistema pode causar efeitos perigosos a centenas de quilômetros de seu centro
Os três furacões podem atingir áreas habitadas?
Naquele momento, nenhum dos três sistemas tinha uma colisão direta com uma grande área habitada confirmada. Isso não eliminava os riscos, principalmente porque as previsões de trajetória possuem uma margem de incerteza que aumenta conforme o número de dias.
O conhecido “cone de previsão” mostra onde o centro do ciclone provavelmente passará. Ele não representa o tamanho completo da tempestade e tampouco significa que regiões fora do cone estejam totalmente seguras. Os efeitos de um furacão podem se espalhar muito além de seu núcleo.
Lowell era o sistema mais próximo de uma situação potencialmente perigosa para o Havaí. Dependendo da curva prevista, partes do arquipélago poderiam enfrentar mar agitado, chuvas, rajadas e inundações costeiras, mesmo que o olho permanecesse afastado.
Karina estava mais distante das ilhas e seguia sobre o oceano. A previsão indicava mudança gradual de direção e perda de intensidade nos dias seguintes. Seu centro não representava ameaça direta imediata a áreas habitadas, mas as ondas geradas pelo sistema poderiam contribuir para o aumento da agitação marítima no Havaí.
Marie, por sua vez, estava a sudoeste da península da Baixa Califórnia, no México. Em 3 de setembro, apresentava ventos sustentados próximos de 145 km/h e possibilidade de intensificação antes do fim de semana.
Embora a trajetória prevista mantivesse o centro de Marie longe da costa mexicana, suas ondas poderiam atingir partes do oeste do México, da Baixa Califórnia e, posteriormente, do sul da Califórnia. Nessas situações, o tempo pode permanecer aparentemente tranquilo na praia enquanto correntes perigosas se formam debaixo da superfície.
Um furacão não precisa tocar a costa para colocar banhistas, surfistas, pescadores e embarcações em risco.
Os três furacões podem se encontrar?
Quando imagens de satélite mostram vários ciclones no mesmo oceano, uma dúvida aparece rapidamente: eles poderiam se aproximar, fundir suas forças e formar uma tempestade ainda maior?
Existe um fenômeno conhecido como efeito Fujiwhara, no qual dois ciclones relativamente próximos começam a girar em torno de um ponto comum. Dependendo da distância e da intensidade de cada sistema, eles podem alterar suas trajetórias, enfraquecer um ao outro ou, em situações mais raras, formar uma circulação dominante.
Esse não era, porém, o cenário apresentado por Lowell, Karina e Marie. Os três furacões estavam separados por distâncias muito grandes para uma interação direta desse tipo. Cada sistema respondia principalmente aos ventos de grande escala, às áreas de alta pressão e às condições do oceano ao seu redor.
A presença simultânea também não significa que os três possuam a mesma capacidade de destruição. A escala Saffir-Simpson classifica os furacões de acordo com a velocidade dos ventos sustentados, indo da categoria 1 à categoria 5.
Um furacão de categoria 1 já pode derrubar árvores, danificar telhados e interromper o fornecimento de energia. Nas categorias 3, 4 e 5, os danos provocados pelo vento podem ser devastadores. Ainda assim, a categoria não mede todos os perigos. Um sistema menos intenso pode provocar chuvas catastróficas, grandes inundações ou ondas perigosas.
Outro ponto importante é que esses três furacões não representam risco meteorológico direto para o Brasil. Eles estão no Oceano Pacífico, muito distantes do território brasileiro e separados do país pela América do Sul. Seus efeitos ficam concentrados nas regiões oceânicas e costeiras próximas às respectivas trajetórias.
Além dos três furacões, os meteorologistas também acompanhavam uma área de baixa pressão próxima à costa sudoeste do México. Naquele momento, existia possibilidade de que ela evoluísse para uma depressão ou tempestade tropical, reforçando o cenário de intensa atividade no Pacífico.
Isso não significa que um quarto furacão estivesse garantido. Muitas áreas de instabilidade desaparecem antes de desenvolver uma circulação organizada. Os especialistas trabalham com probabilidades porque a atmosfera muda constantemente.
O episódio de Lowell, Karina e Marie revela como o Pacífico pode produzir diversos sistemas poderosos em uma mesma época. Também mostra por que acompanhar somente a posição do olho de um furacão não é suficiente. Ondas, correntes, chuvas e ventos podem viajar para muito além do centro mostrado nos mapas.
Os três furacões não formavam uma única ameaça e não estavam prestes a se transformar em uma supertempestade. Mesmo assim, cada um precisava ser monitorado individualmente. No oceano, distância não significa ausência de perigo, e uma tempestade que nunca toca a costa ainda pode mudar completamente as condições do litoral.