O que sabemos sobre o ciclone extratropical que vai atingir o sul do Brasil?

O que sabemos sobre o ciclone extratropical que vai atingir o sul do Brasil?

Rio Grande do Sul concentra o maior risco, enquanto frente fria poderá espalhar instabilidades para outras áreas do país.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine olhar para o céu na quarta-feira e perceber que aquelas nuvens carregadas fazem parte de algo muito maior. A centenas de quilômetros de distância, a pressão atmosférica começa a cair, os ventos mudam de direção e uma enorme engrenagem atmosférica começa a se organizar entre o Sul do Brasil, o Uruguai e a Argentina.

É assim que pode nascer o próximo ciclone extratropical a influenciar o tempo no país.

A previsão divulgada nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, indica que um sistema de baixa pressão deve se aprofundar entre quarta-feira, dia 19, e quinta-feira, dia 20, favorecendo a formação de um ciclone nas proximidades do oeste do Rio Grande do Sul e do Uruguai.

O principal ponto de atenção está no território gaúcho.

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul já mantém alertas para tempestades, granizo e rajadas de vento em diferentes áreas do estado nesta terça-feira. Às 8h51, por exemplo, havia condição severa para tempestades com granizo e vento na região de Pelotas, além de alerta próximo a Santana do Livramento.

Para quarta-feira, dia 19, o Centro de Monitoramento da Defesa Civil gaúcha prevê condições para temporais, granizo, chuva forte e rajadas acima de 70 km/h na metade Norte, Centro e Região Metropolitana de Porto Alegre.

A situação exige atenção, mas também contexto. A formação e a trajetória de um ciclone extratropical são acompanhadas por modelos numéricos que recebem novas informações constantemente. Por isso, intensidade, localização e áreas mais afetadas ainda podem mudar.

A previsão indica risco de temporais, granizo e ventos fortes, mas a posição exata e a intensidade do ciclone ainda poderão ser ajustadas nas próximas atualizações.

Ciclone extratropical é uma classificação meteorológica, não uma medida automática de perigo. Alguns sistemas passam com poucos transtornos, enquanto outros podem provocar temporais severos.

Ciclone extratropical é uma classificação meteorológica, não uma medida automática de perigo. Alguns sistemas passam com poucos transtornos, enquanto outros podem provocar temporais 

Quando o ciclone extratropical deve se formar e onde há risco?

A expectativa é de que o processo de formação ganhe força entre o final da quarta-feira, 19 de agosto, e a madrugada de quinta-feira, dia 20.

Esse processo é conhecido como ciclogênese.

Ele acontece quando uma área de baixa pressão se desenvolve e sua circulação se intensifica. No Hemisfério Sul, os ventos ao redor de um ciclone giram no sentido horário.

No caso atual, a baixa pressão deverá se organizar nas proximidades do Uruguai e do Rio Grande do Sul, em uma região de encontro entre diferentes massas de ar.

Esse contraste ajuda a formar também uma frente fria.

Antes mesmo da consolidação do ciclone extratropical, o Rio Grande do Sul já enfrenta uma sequência de instabilidades. O boletim semanal do Inmet publicado em 17 de agosto prevê os maiores acumulados de chuva do Brasil justamente na Região Sul, com volumes que podem superar 150 milímetros em pontos do extremo sul gaúcho no período entre 17 e 24 de agosto.

Entre segunda e terça-feira, a Defesa Civil gaúcha chegou a projetar acumulados superiores a 100 milímetros em seis horas e 150 milímetros em 24 horas nas áreas sob maior risco, além de possibilidade de granizo e rajadas acima de 90 km/h em determinados pontos.

Na quarta-feira, o foco das instabilidades tende a mudar.

A metade Norte, a região central e a Grande Porto Alegre passam a ter maior possibilidade de temporais com granizo, vento e chuva forte, enquanto o sul do estado ainda permanece com precipitação moderada a pontualmente intensa.

Uma cidade pode registrar chuva intensa e vento forte, enquanto outra, algumas dezenas de quilômetros distante, enfrenta condições muito menos severas

Uma cidade pode registrar chuva intensa e vento forte, enquanto outra, algumas dezenas de quilômetros distante, enfrenta condições muito menos severas

Rio Grande do Sul deve concentrar os maiores impactos

O ciclone extratropical não significa que todas as cidades do Sul enfrentarão as mesmas condições.

Tempestades são fenômenos bastante localizados. Uma cidade pode registrar chuva intensa e vento forte, enquanto outra, algumas dezenas de quilômetros distante, enfrenta condições muito menos severas.

No cenário atual, o Rio Grande do Sul concentra a maior preocupação.

Granizo é um dos riscos porque as tempestades podem produzir nuvens com forte desenvolvimento vertical. Dentro dessas estruturas, correntes ascendentes conseguem carregar gotas de água para regiões extremamente frias da nuvem, formando pedras de gelo que podem crescer antes de cair.

As rajadas também merecem atenção.

Ventos acima de 70 km/h já possuem potencial para derrubar galhos, deslocar objetos, provocar interrupções de energia e causar danos pontuais. Em tempestades mais fortes, valores maiores podem ocorrer localmente.

Santa Catarina e Paraná também podem sentir mudanças conforme as instabilidades e a frente fria avançarem, mas o boletim semanal do Inmet divulgado em 17 de agosto projetava acumulados bem menores nesses estados, em torno de 10 milímetros em grande parte das áreas previstas.

No Mato Grosso do Sul, o Inmet previa chuva isolada principalmente no extremo sul do estado.

Já para o Sudeste existe uma diferença importante entre as projeções disponíveis.

A previsão apresentada na matéria-base indica possibilidade de avanço da frente fria e vento entre São Paulo e Rio de Janeiro já na sexta-feira, dia 21. O boletim semanal mais recente do Inmet, porém, apresenta um cenário mais conservador: o órgão prevê tempo predominantemente estável no Sudeste até o dia 23, com possibilidade posterior de chuvas fracas e isoladas no litoral de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Essa diferença não significa necessariamente que uma das previsões esteja “errada”. Modelos meteorológicos podem divergir, especialmente vários dias antes de um sistema se formar.

É justamente por isso que a recomendação é acompanhar as atualizações mais próximas do evento.

O que é um ciclone extratropical e por que ele se forma?

A palavra “ciclone” costuma provocar medo porque muita gente imediatamente pensa em furacões.

Mas ciclone não é sinônimo de furacão.

De maneira simplificada, um ciclone é uma região de baixa pressão atmosférica ao redor da qual o ar circula. Existem diferentes tipos de ciclones, classificados principalmente pelas características de sua formação e pela fonte de energia que os mantém.

Os ciclones tropicais, categoria na qual entram furacões e tufões, desenvolvem-se sobre oceanos quentes e possuem uma estrutura diferente.

O ciclone extratropical, por outro lado, é típico das latitudes médias e está fortemente associado ao encontro de massas de ar com características diferentes.

No Sul do Brasil, isso não é algo excepcional.

A posição geográfica da região favorece a passagem de frentes frias e a formação de sistemas de baixa pressão, especialmente durante períodos de grande contraste entre massas de ar quente e frio.

Por isso, a expressão “ciclone extratropical” não significa automaticamente que estamos diante de um evento extraordinário ou catastrófico.

O que determina o risco é a combinação de diversos fatores: intensidade da baixa pressão, velocidade de aprofundamento do sistema, trajetória, quantidade de umidade disponível e força dos ventos.

Existe ainda outra expressão que costuma aparecer nessas ocasiões: ciclone-bomba.

Nem todo ciclone extratropical é um ciclone-bomba.

Esse nome é utilizado quando ocorre uma queda muito rápida da pressão atmosférica dentro de critérios meteorológicos específicos. No momento, as informações apresentadas para o sistema previsto entre 19 e 20 de agosto ainda não permitem tratar como confirmada uma intensificação excepcional desse tipo.

Ciclone extratropical é uma classificação meteorológica, não uma medida automática de perigo. Alguns sistemas passam com poucos transtornos, enquanto outros podem provocar temporais severos.

A previsão indica risco de temporais, granizo e ventos fortes, mas a posição exata e a intensidade do ciclone ainda poderão ser ajustadas nas próximas atualizações.

A previsão indica risco de temporais, granizo e ventos fortes, mas a posição exata e a intensidade do ciclone ainda poderão ser ajustadas nas próximas atualizações

Como se proteger durante temporais e ventos fortes?

Mais importante do que decorar nomes meteorológicos é saber como agir caso um alerta seja emitido para sua região.

Durante tempestades com vento forte, objetos aparentemente inofensivos podem se transformar em perigo. Vasos, móveis de varanda, placas e outros itens soltos podem ser arremessados.

Também é recomendado evitar permanecer próximo a árvores, postes e estruturas frágeis.

Estacionar o carro debaixo de uma árvore durante uma tempestade pode parecer uma forma de protegê-lo do granizo, mas cria outro risco: galhos ou até a própria árvore podem cair sobre o veículo.

Durante episódios de raios, áreas abertas também devem ser evitadas.

Em caso de alagamento, nunca é seguro tentar atravessar uma rua coberta por água sem saber a profundidade ou a força da correnteza. Mesmo volumes aparentemente pequenos podem deslocar pessoas e veículos.

A Defesa Civil reforça que seus avisos são previsões e podem ou não se confirmar. Isso é importante porque um alerta meteorológico não significa que determinada cidade sofrerá necessariamente um desastre. Ele indica que existem condições capazes de produzir aquele fenômeno e que vale adotar precauções.

No Rio Grande do Sul, esse acompanhamento ganha ainda mais importância porque algumas áreas já chegam à formação do novo ciclone extratropical depois de dias de chuva.

Na manhã desta terça-feira, 18 de agosto, a Defesa Civil mantinha inclusive alerta de risco muito alto de inundação no rio Jaguarão.

Solos encharcados, rios elevados e novas tempestades formam uma combinação que pode aumentar os impactos de chuvas adicionais.

Por enquanto, portanto, o cenário merece atenção principalmente no Rio Grande do Sul.

A quarta-feira deve ser marcada por novas instabilidades e, entre a noite do dia 19 e a madrugada de 20 de agosto, o sistema de baixa pressão pode se organizar como um ciclone extratropical nas proximidades da região.

Depois disso, sua evolução e deslocamento deverão determinar até onde chegarão os ventos, as tempestades e o ar mais frio.

E essa é uma das características mais fascinantes da meteorologia.

Um sistema ainda nem terminou de se formar e computadores já tentam calcular onde estará daqui a dois ou três dias.

Eles chegam cada vez mais perto.

Mas a atmosfera sempre guarda alguma margem para surpreender.

Já imaginou isso?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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