Prepare-se! Café deve ficar mais caro devido ao "Super El Niño"

Prepare-se! Café deve ficar mais caro devido ao “Super El Niño”

Café deve ficar mais caro mesmo com uma grande safra? Fenômeno climático ameaça a produção, mas alta não é certeza.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine começar a manhã, preparar o filtro e sentir aquele aroma familiar se espalhando pela cozinha. O ritual parece simples, mas o preço de cada xícara começa a ser definido muitos meses antes, nos cafezais, quando pequenas flores brancas se abrem e dão início à formação dos frutos. Mas o café deve ficar mais caro por causa da seca e do calor?

É justamente essa etapa delicada que está provocando preocupação entre produtores e especialistas. A possibilidade de um El Niño muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027 aumenta o risco de calor intenso e irregularidade das chuvas em importantes áreas agrícolas. Se as condições atingirem as regiões produtoras no momento da florada, a oferta futura poderá ser prejudicada.

Por isso, cresce a avaliação de que o café deve ficar mais caro. A frase, porém, precisa ser entendida como uma projeção condicionada ao comportamento do clima, e não como uma certeza. Entre a previsão meteorológica e o preço encontrado no supermercado existe uma longa cadeia de fatores.

No mercado do café, a notícia de uma florada ameaçada pode mexer com os preços muito antes de o primeiro grão da nova safra ser colhido.

No mercado do café, a notícia de uma florada ameaçada pode mexer com os preços muito antes de o primeiro grão da nova safra ser colhido

Por que o café deve ficar mais caro?

Em agosto de 2026, o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos informou que o El Niño estava se fortalecendo. Segundo a instituição, havia mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte, período que corresponde à primavera e ao verão no Brasil.

A NOAA também estimou uma probabilidade de 69% de o evento alcançar uma intensidade considerada histórica entre outubro e dezembro de 2026. Isso significa que as temperaturas do Pacífico Equatorial podem superar com ampla margem os níveis normais. Ainda assim, a própria instituição ressalta que os efeitos regionais são mais prováveis, mas não garantidos. Um El Niño forte não produz exatamente o mesmo resultado em todas as cidades ou propriedades rurais.

No Brasil, a atenção está voltada principalmente para o Sudeste, onde se encontram importantes áreas produtoras de café arábica. Dependendo da distribuição das chuvas, da duração das ondas de calor e das condições específicas de cada microrregião, os cafezais podem enfrentar estresse hídrico justamente quando mais precisam de equilíbrio.

O El Niño aumenta o risco para a safra, mas não transforma uma previsão climática em aumento garantido no supermercado.

A preocupação ajuda a explicar por que o café deve ficar mais caro mesmo antes de uma possível quebra de produção ser confirmada. O mercado de commodities trabalha com expectativas. Se compradores, exportadores e investidores enxergam risco de menor oferta no futuro, as cotações podem subir antecipadamente.

A florada é o momento mais delicado

A florada é um espetáculo impressionante. Depois de um período mais seco, a chegada das chuvas faz os cafezais ficarem cobertos por pequenas flores brancas. Em poucos dias, elas começam a cair e dão lugar aos frutos que serão colhidos meses depois.

Para que esse processo funcione, a planta precisa encontrar condições adequadas de umidade e temperatura. Chuvas insuficientes podem causar uma florada fraca. Precipitações muito irregulares podem provocar várias floradas em momentos diferentes, o que resulta em frutos com níveis distintos de maturação. Já o calor excessivo pode aumentar a perda de água e prejudicar o chamado vingamento, fase em que a flor se transforma efetivamente em fruto.

Se muitas flores não vingarem, o cafezal produzirá menos. Caso o problema se espalhe por diferentes regiões, a redução da oferta pode pressionar os preços internacionais e chegar ao consumidor. É nesse cenário que a afirmação de que o café deve ficar mais caro ganha força.

A previsão da produção, entretanto, não é simples. Ao contrário da soja e de outras culturas anuais, o cafeeiro permanece no campo por muitos anos. Sua produtividade depende do clima atual, das condições enfrentadas em ciclos anteriores, da idade das plantas, dos tratos agrícolas e até da alternância natural entre safras mais e menos produtivas.

Além disso, estimativas oficiais e projeções privadas podem apresentar diferenças consideráveis. Cada levantamento utiliza metodologias, áreas avaliadas e momentos de coleta próprios. Por isso, números sobre a safra devem ser observados como retratos provisórios, sujeitos a revisões durante a colheita.

O El Niño aumenta o risco para a safra, mas não transforma uma previsão climática em aumento garantido no supermercado.

O El Niño aumenta o risco para a safra, mas não transforma uma previsão climática em aumento garantido no supermercado

O café deve ficar mais caro com certeza?

Não necessariamente. O clima pode mudar ao longo dos próximos meses, e chuvas bem distribuídas ainda podem favorecer a recuperação das lavouras. Mesmo em um El Niño muito forte, algumas regiões podem receber volumes adequados de precipitação, enquanto outras enfrentam seca ou calor acima da média.

Também existe uma diferença entre o preço do café negociado no campo e o valor cobrado no varejo. Quando as cotações caem, o repasse ao consumidor pode demorar. Quando sobem, indústrias e supermercados ainda podem utilizar estoques adquiridos anteriormente, contratos de fornecimento ou estratégias comerciais para evitar uma alteração imediata.

O comportamento recente dos preços mostra essa complexidade. Depois de uma forte valorização em ciclos anteriores, o café moído registrou quedas mensais em alguns levantamentos do IPCA ao longo de 2026. Esse alívio não impede uma nova alta, mas indica que o preço não se movimenta em uma única direção.

A situação dos estoques mundiais também pesa. Quando há grande quantidade armazenada, uma safra ruim pode ser parcialmente compensada. Com estoques menores, qualquer ameaça à produção brasileira ganha relevância, pois o Brasil ocupa uma posição central no abastecimento mundial.

No mercado do café, a notícia de uma florada ameaçada pode mexer com os preços muito antes de o primeiro grão da nova safra ser colhido.

Do campo à xícara, vários custos entram na conta

O preço pago pelo consumidor reúne muito mais do que o valor do grão. Combustíveis, fertilizantes, mão de obra, armazenamento, torrefação, embalagens, energia elétrica, transporte e margens comerciais fazem parte da conta. A cotação do dólar também influencia o mercado brasileiro, já que o café é uma commodity amplamente exportada.

Questões geopolíticas podem aumentar os custos de frete e alterar rotas marítimas. Ao mesmo tempo, fundos de investimento compram e vendem contratos futuros de café conforme suas expectativas sobre clima, juros, moedas e economia global. Essas movimentações podem aumentar a volatilidade das cotações.

Isso explica por que até uma grande colheita não garante automaticamente preços baixos. Se a demanda estiver elevada, os estoques estiverem reduzidos e o mercado enxergar risco para o ciclo seguinte, os valores podem continuar pressionados.

Portanto, dizer que o café deve ficar mais caro é uma forma de resumir um risco real, mas ainda condicionado a vários acontecimentos. Será preciso acompanhar a intensidade do El Niño, a chegada das chuvas, o desenvolvimento da florada, a formação dos frutos e as próximas estimativas de produção.

Para quem observa apenas a xícara pronta, tudo isso pode parecer distante. No entanto, cada mudança no Pacífico, cada semana sem chuva e cada flor que deixa de se transformar em fruto ajuda a construir o preço que aparecerá meses depois nas cafeterias e prateleiras.

O futuro do café não está decidido. Mas, se o calor e a seca atingirem os cafezais no momento mais vulnerável, o consumidor poderá sentir o impacto no bolso. A próxima xícara, nesse caso, carregará não apenas aroma e sabor, mas também as marcas de um clima cada vez mais imprevisível.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também