Essa caverna na Islândia parece um portal para outra dimensão

Essa caverna na Islândia parece um portal para outra dimensão

Entre paredes azuladas e passagens temporárias, a geleira Sólheimajökull revela uma paisagem em constante transformação. Você visitaria?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine parar diante de uma abertura azulada, cercada por paredes que parecem ondas congeladas. A luz atravessa o gelo, revela curvas e desaparece aos poucos na escuridão. Por alguns segundos, a impressão é de estar diante de uma passagem para outro mundo. Mas o que criou esse cenário não foi um efeito de cinema: foi a água encontrando caminhos através de uma geleira.

É esse tipo de paisagem que torna uma caverna na Islândia tão fascinante. Sob a aparência de uma construção esculpida, existe um ambiente que continua se movimentando e mudando. A Sólheimajökull, no sul do país, ajuda a entender como gelo, degelo e tempo podem produzir formas tão diferentes daquelas que encontramos no cotidiano.

Antes de explorar essa história, vale esclarecer um detalhe: Sólheimajökull é o nome de uma geleira, não de uma única caverna permanente. As cavidades que podem surgir nesse ambiente são temporárias. Uma passagem registrada em determinada época pode mudar de formato, desaparecer ou deixar de ser acessível.

A possibilidade de entrar precisa ser determinada por profissionais responsáveis pela atividade, e um percurso pode ser alterado ou cancelado

A possibilidade de entrar precisa ser determinada por profissionais responsáveis pela atividade, e um percurso pode ser alterado ou cancelado

Onde fica a geleira associada à caverna na Islândia?

A Sólheimajökull fica no sul da Islândia e se estende a partir da porção sudoeste da Mýrdalsjökull, uma massa de gelo maior. Ela é uma geleira de descarga, também conhecida como língua glacial: o gelo escoa das áreas elevadas em direção às regiões mais baixas, acompanhando o relevo.

Segundo o Katla UNESCO Global Geopark, a geleira tem aproximadamente 11 quilômetros de comprimento e entre 1 e 2 quilômetros de largura. Essas dimensões se referem ao conjunto da língua glacial, e não a um túnel ou salão de gelo. São referências descritivas de uma paisagem que se transforma.

Pensar nela como um rio extremamente lento ajuda a visualizar o movimento. Embora pareça rígido quando observado de perto, o gelo se deforma e escoa sob o próprio peso. O terreno e a presença de água também influenciam esse comportamento.

Essa combinação faz com que uma fotografia registre apenas uma configuração daquele ambiente. O arco de uma entrada, o desenho de uma parede ou a largura de uma passagem pertencem àquele momento. A paisagem continua mudando depois que a câmera é guardada.

Como a água abre túneis dentro do gelo?

A água do degelo participa da formação de muitas cavernas glaciais. Ao circular pela geleira, ela encontra caminhos, abre canais e amplia passagens. Alguns desses trajetos podem dar origem a espaços suficientemente grandes para lembrar corredores ou salões.

O portal oficial Visit Iceland explica a formação das cavernas de gelo a partir da circulação da água do degelo. Essas estruturas podem se modificar entre temporadas, e sua aparência depende das condições locais. Não existe um formato fixo esperando os visitantes todos os anos.

Ao mesmo tempo, o gelo que cerca a cavidade continua em movimento. A água pode alterar seu percurso, as paredes podem perder espessura e partes da estrutura podem ceder. Uma abertura pode crescer enquanto outra deixa de existir.

É por isso que procurar uma caverna na Islândia a partir de uma imagem antiga exige cuidado. A fotografia pode mostrar uma formação real, mas não confirma que ela permaneça no mesmo estado ou possa ser visitada. Também não basta a aparência azulada para identificar em qual geleira a imagem foi produzida.

A beleza dessas cavernas está também no que elas não conseguem preservar: a própria forma.

A comparação com um portal funciona como descrição visual. O fenômeno por trás dela é uma combinação de processos naturais que esculpem e reorganizam o gelo continuamente.

Por que uma caverna na Islândia pode ter gelo tão azul?

A cor costuma ser a primeira coisa que chama atenção. Em algumas imagens, o azul parece intenso demais para ser natural. Entretanto, existe uma explicação física para essa tonalidade: a maneira como a luz interage com o gelo.

De acordo com o National Snow and Ice Data Center, o gelo glacial pode apresentar uma aparência azulada quando está muito denso e contém poucas bolhas de ar. Ao longo da compactação, os espaços entre os cristais diminuem, permitindo que a luz percorra distâncias maiores dentro do material.

O gelo absorve mais a parte vermelha da luz visível. Quando a luz atravessa uma quantidade suficiente de gelo, essa absorção faz com que a parcela que chega aos nossos olhos tenha uma tonalidade mais azulada. Não se trata simplesmente de refletir a cor do céu.

Quando há muitas bolhas de ar, a luz é espalhada mais rapidamente, e o gelo tende a parecer branco. Isso ajuda a explicar por que uma mesma formação pode apresentar trechos esbranquiçados ao lado de regiões azuis.

O azul natural existe, mas sua intensidade varia. A espessura do gelo, o caminho percorrido pela luz e a iluminação influenciam o resultado. Fotografias também podem ter ajustes de cor e contraste, de modo que a experiência visual nem sempre será idêntica à imagem vista na tela.

As cavidades que podem surgir nesse ambiente são temporárias. Uma passagem registrada em determinada época pode mudar de formato, desaparecer ou deixar de ser acessível

As cavidades que podem surgir nesse ambiente são temporárias. Uma passagem registrada em determinada época pode mudar de formato, desaparecer ou deixar de ser acessível

Por que essa paisagem dificilmente será igual duas vezes?

As transformações da Sólheimajökull também aparecem em registros históricos. Segundo o Katla Geopark, sua frente é medida anualmente desde 1930. Entre esse ano e 1969, ela recuou aproximadamente 977 metros. Depois, atravessou um período de avanço até 1995, recuperando cerca de 495 metros.

O recuo foi retomado após 1995. Em 2010, a frente estava aproximadamente um quilômetro atrás da posição registrada em 1930. O geoparque informa ainda que uma lagoa começou a se formar diante da geleira em 2011. Esses dados descrevem mudanças da frente glacial ao longo de décadas, não a duração de uma caverna específica.

Existe uma diferença importante entre o movimento do gelo e o avanço da frente da geleira. O gelo pode continuar escoando em direção ao vale enquanto a extremidade recua, caso a perda naquela região supere a chegada de gelo. Assim, uma geleira em retração não é uma massa que passou a “andar para trás”.

Para quem visita, essa dinâmica tem consequências práticas. Uma caminhada sobre a geleira e uma entrada em uma cavidade são atividades distintas. A existência de passeios na região não significa que qualquer túnel esteja disponível ou tenha condições adequadas de acesso.

O Safetravel, serviço islandês de segurança, orienta que ninguém se aventure em geleiras sem experiência e equipamentos apropriados e recomenda guias certificados que conheçam a área. Fendas, movimento do gelo e mudanças no tempo fazem parte dos riscos desse ambiente.

Por isso, a visita depende de avaliações locais e das condições do dia. Uma abertura bonita não oferece, por si só, qualquer garantia de estabilidade. A possibilidade de entrar precisa ser determinada por profissionais responsáveis pela atividade, e um percurso pode ser alterado ou cancelado.

Talvez essa seja a característica mais marcante de uma caverna na Islândia: ela permite observar uma paisagem que está sendo construída e desfeita ao mesmo tempo. O gelo guarda formas, mas não promete conservá-las. A luz revela um azul que muda conforme o olhar, e a água continua abrindo seus caminhos.

Diante de uma passagem assim, a impressão de estar perto de outro mundo é compreensível. A explicação, porém, torna o lugar ainda mais interessante: tudo aquilo pertence ao nosso planeta, em pleno movimento.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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