Imagine uma riqueza enterrada no Brasil que ajuda a movimentar carros elétricos, gerar energia e fabricar equipamentos de alta tecnologia. Agora imagine que possuir esse recurso não significa dominar a produção dos componentes que dependem dele. Entre a mina e o produto acabado existe uma sequência de processos, investimentos e conhecimentos que pode ficar concentrada em outros países.
Esse é um dos desafios das terras raras, que ganharam espaço no debate das eleições de 2026. O assunto mistura economia, ciência, meio ambiente e relações internacionais. Também levanta uma pergunta que acompanha o Brasil há muito tempo: como transformar recursos naturais em desenvolvimento duradouro?
Os candidatos à Presidência apresentam caminhos diferentes. Alguns defendem maior participação estatal; outros priorizam investimentos privados ou acordos internacionais. Vários falam em agregar valor à produção, mas os detalhes sobre como fazer isso variam bastante.

Pense na cadeia produtiva como uma sequência: extrair o material, concentrá-lo, separar os elementos, obter produtos refinados e fabricar componentes
Por que as terras raras se tornaram tão estratégicas?
Apesar do nome, terras raras não são um tipo de terra. A expressão identifica um grupo de 17 elementos químicos, formado pelos lantanídeos, pelo escândio e pelo ítrio. Entre os mais conhecidos estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho.
Esses ímãs aparecem em determinados motores elétricos, geradores de turbinas eólicas e outros equipamentos. Diferentes elementos do grupo também têm aplicações em catalisadores, materiais ópticos e tecnologias eletrônicas. Vale separar os conceitos: lítio, níquel e cobalto são importantes para baterias, mas não pertencem ao grupo das terras raras.
O Brasil tem uma posição relevante nesse cenário. O levantamento mineral de 2026 do Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, registra reservas brasileiras de aproximadamente 21 milhões de toneladas em equivalente de óxidos de terras raras, colocando o país atrás da China. Reservas, porém, não representam produção pronta nem dinheiro disponível para utilização imediata.
É preciso conhecer os depósitos, avaliar sua viabilidade, desenvolver projetos e processar os materiais. A abundância geológica oferece uma oportunidade, mas seu aproveitamento depende de decisões técnicas e econômicas.
A diferença entre extrair minerais e fabricar tecnologia
Pense na cadeia produtiva como uma sequência: extrair o material, concentrá-lo, separar os elementos, obter produtos refinados e fabricar componentes. Cada etapa exige conhecimentos e instalações próprios. Produzir um concentrado misto, por exemplo, não equivale a entregar um ímã pronto para uma indústria.
É aí que aparece a palavra verticalização, frequente nos planos de governo. Nesse debate, ela significa ampliar as etapas realizadas no Brasil, em vez de concentrar a participação nacional na extração e exportação de materiais menos processados.
A Agência Internacional de Energia informa que a China respondeu por 91% do refino mundial das terras raras destinadas a ímãs em 2024. O recorte é importante: o indicador se refere a essa cadeia específica. Ele mostra como a capacidade industrial pode estar muito mais concentrada do que a distribuição dos recursos naturais.
Por isso, um país pode possuir reservas expressivas e continuar dependendo do exterior para obter materiais processados e componentes. Desenvolver essas capacidades exige pesquisa, profissionais especializados, infraestrutura e compradores para a produção.
Ter riqueza no subsolo é uma oportunidade. Transformá-la em tecnologia exige uma estratégia que continue depois da extração.
O que os candidatos propõem para as terras raras?
Uma análise da Superinteressante em parceria com o Instituto Questão de Ciência reuniu propostas de 12 presidenciáveis sobre minerais estratégicos. Segundo a reportagem fornecida como base para esta matéria, os trechos foram apresentados aos especialistas sem a identificação dos candidatos.
Participaram da avaliação Nilson Francisquini Botelho, da Universidade de Brasília; Giorgio Romano Schutte, da Universidade Federal do ABC; e Edna Aparecida da Silva, pesquisadora da área de relações internacionais. As propostas resumidas abaixo seguem esse levantamento, enquanto as críticas representam avaliações dos especialistas entrevistados.
| Candidato | Principais propostas destacadas no levantamento |
|---|---|
| Ronaldo Caiado (PSD) | Desenvolver a cadeia produtiva no Brasil, vincular investimentos estrangeiros à transferência de tecnologia, fortalecer pesquisa e ampliar o conhecimento geológico. |
| Augusto Cury (Avante) | Incentivar processamento e produtos de maior valor, mapear reservas e demanda internacional e integrar governo, universidades e empresas. |
| Flávio Bolsonaro (PL) | Atrair capital e tecnologia, promover a verticalização com incentivos de mercado e manter o Estado como regulador e coordenador. |
| Lula (PT) | Articular minerais críticos à reindustrialização, ampliar o processamento nacional e relacionar comércio exterior, inovação e responsabilidade ambiental. |
| Renan Santos (Missão) | Buscar acordos tecnológicos com Estados Unidos e União Europeia, criar zonas econômicas especiais e mobilizar financiamento com participação do BNDES. |
| Romeu Zema (Novo) | Agilizar análises de pedidos de pesquisa e lavra, atrair empresas privadas, ampliar levantamentos geológicos e aproveitar rejeitos da mineração. |
| Rui Costa Pimenta (PCO) | Reverter privatizações, defender estatizações e criar uma empresa estatal de terras raras sob controle dos trabalhadores. |
| Edmilson Costa (PCB) | Estabelecer monopólio estatal sobre terras raras e minerais críticos. |
| Hertz Dias (PSTU) | Estatizar o setor e direcionar recursos das empresas estatizadas ao desenvolvimento de tecnologias de separação e refino. |
| Samara Martins (UP) | Defender reestatizações e monopólio público da mineração e de outros setores estratégicos. |
O levantamento também informou que os planos de Wilson Grassi e da candidatura do DC não apresentavam propostas específicas sobre o tema. Isso descreve o recorte dos documentos analisados, sem equivaler a uma avaliação de todas as declarações feitas durante a campanha.
Na análise dos especialistas, Caiado e Cury apresentaram propostas com maior detalhamento produtivo, incluindo pesquisa e formação profissional. Ao mesmo tempo, os entrevistados apontaram menor desenvolvimento dos instrumentos destinados a lidar com impactos ambientais.
As propostas de Lula e Flávio Bolsonaro reconhecem a importância de agregar valor, mas receberam críticas pela falta de especificação de caminhos para alcançar os objetivos. No caso de Lula, foram questionados aspectos de financiamento e execução. No de Flávio, a análise levantou dúvidas sobre como alinhar os interesses dos investidores estrangeiros aos objetivos industriais brasileiros.
O plano de Renan Santos foi reconhecido pelo detalhamento, mas sua orientação de parcerias internacionais recebeu críticas dos especialistas. A questão apresentada foi como garantir autonomia brasileira e transferência efetiva de conhecimento. Para Zema, o levantamento destacou facilitação de investimentos e aproveitamento de rejeitos, enquanto os entrevistados cobraram maior desenvolvimento da estratégia industrial.
Já as propostas de estatização foram questionadas quanto ao financiamento, à capacidade de implementação e às condições institucionais necessárias. A defesa de maior controle público, por si só, não explica como construir instalações, desenvolver tecnologias e organizar a produção.

Apesar do nome, terras raras não são um tipo de terra. A expressão identifica um grupo de 17 elementos químicos, formado pelos lantanídeos, pelo escândio e pelo ítrio
Como avaliar uma promessa além das palavras “riqueza” e “soberania”?
Uma proposta se torna mais concreta quando explica quem investirá, quais etapas serão instaladas, como a tecnologia será obtida e em quanto tempo os resultados poderão aparecer. Também precisa indicar como acompanhar o cumprimento desses compromissos.
Parcerias internacionais, por exemplo, podem assumir formatos diferentes. Financiar uma mina, comprar sua produção e transferir conhecimento industrial são coisas distintas. Para avaliar um acordo, é necessário compreender as contrapartidas, as capacidades que serão desenvolvidas no Brasil e as condições estabelecidas entre os participantes.
O mesmo cuidado vale para a proteção ambiental. Discutir prazos de licenciamento exige considerar a qualidade das análises, a estrutura dos órgãos responsáveis e os impactos sobre água, solo e comunidades. Uma atividade ligada à transição energética também precisa demonstrar como administrará seus próprios impactos.
Há ainda uma diferença entre anunciar uma fábrica e assegurar sua viabilidade. Quem comprará os produtos? Haverá profissionais qualificados? Como serão financiadas as pesquisas e a operação? Essas perguntas ajudam a distinguir uma intenção de um programa com condições de execução.
O debate sobre terras raras interessa mesmo a quem nunca visitará uma mina. Ele envolve empregos, formação científica, capacidade industrial e escolhas sobre o uso dos recursos brasileiros. A dimensão das reservas chama atenção, mas o resultado dependerá do que o país conseguir fazer com elas.
Quando um candidato promete transformar o Brasil em potência mineral, a pergunta seguinte deve ser: potência em quais etapas, com quais investimentos e com quais benefícios para a população?