Canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes exigem cuidado médico

Canetas emagrecedoras em crianças e adolescentes exigem cuidado médico

Medicamentos podem ajudar no tratamento da obesidade, mas não são atalhos estéticos e é necessário cuidado.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine um adolescente rolando a tela do celular e encontrando, em poucos minutos, dezenas de vídeos com transformações corporais impressionantes. Entre promessas de emagrecimento acelerado e relatos de celebridades, uma pequena caneta injetável aparece como se fosse capaz de resolver, quase sem esforço, uma questão complexa de saúde e autoestima.

Essa imagem simplificada preocupa os pediatras. As chamadas canetas emagrecedoras podem ser ferramentas importantes no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, inclusive para determinados adolescentes. No entanto, não são produtos cosméticos, não funcionam da mesma maneira para todas as pessoas e podem provocar efeitos adversos, especialmente quando usadas sem indicação ou acompanhamento profissional.

Em agosto de 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou um alerta sobre a banalização desses medicamentos entre crianças e adolescentes. A entidade destacou que o problema não está na existência do tratamento, cuja eficácia é sustentada por estudos em grupos específicos, mas na ideia de que qualquer jovem insatisfeito com o corpo poderia recorrer às injeções para emagrecer rapidamente.

Canetas emagrecedoras são medicamentos de uso controlado, não acessórios para alcançar um padrão corporal divulgado nas redes sociais.

A pergunta não deve ser apenas “quanto esse jovem deseja emagrecer?”, mas também “por que ele acredita que precisa mudar o corpo tão depressa?”

A pergunta não deve ser apenas “quanto esse jovem deseja emagrecer?”, mas também “por que ele acredita que precisa mudar o corpo tão depressa?”

Por que as canetas emagrecedoras preocupam os pediatras?

O nome popular reúne medicamentos diferentes. Entre eles estão substâncias como liraglutida e semaglutida, que atuam nos receptores do hormônio GLP-1, além da tirzepatida, cuja ação envolve os receptores de GIP e GLP-1. Esses hormônios participam da regulação do açúcar no sangue, da saciedade e do funcionamento do sistema digestivo.

Em linhas gerais, os medicamentos ajudam a controlar a glicose, reduzem o apetite e retardam o esvaziamento do estômago. A pessoa tende a sentir menos fome e permanecer satisfeita durante mais tempo, o que pode facilitar a redução da ingestão de alimentos. É justamente essa combinação de efeitos que tornou as canetas emagrecedoras tão conhecidas.

A ação no organismo, porém, também explica parte dos efeitos colaterais. Náuseas, vômitos, diarreia, constipação e dor abdominal estão entre as reações mais comuns. Quando esses sintomas são intensos, o jovem pode apresentar desidratação e alterações nos níveis de sais minerais do corpo.

A Sociedade Brasileira de Pediatria também cita possíveis problemas na vesícula, perda de massa muscular, pancreatite aguda e prejuízos ao crescimento e ao desenvolvimento quando o tratamento ocorre de maneira inadequada. A redução intensa do apetite, sem planejamento nutricional, pode dificultar a ingestão de proteínas, vitaminas, minerais e energia em uma fase na qual o organismo ainda está se formando.

Medicamentos diferentes não possuem a mesma indicação

Um detalhe frequentemente ignorado nas redes sociais é que marcas famosas não são intercambiáveis. Ozempic e Wegovy, por exemplo, contêm semaglutida, mas possuem indicações e apresentações próprias. Mounjaro contém tirzepatida e também segue critérios específicos relacionados à doença, à idade e às regras aprovadas para cada produto.

No Brasil, a Anvisa autorizou o Wegovy para auxiliar no controle de peso de adolescentes a partir de 12 anos que tenham obesidade e peso corporal superior a 60 quilos. A indicação deve estar associada a alimentação adequada e atividade física. Isso não significa que qualquer adolescente nessa faixa etária deva receber o medicamento automaticamente.

O médico precisa avaliar o histórico do paciente, o estágio de desenvolvimento, a presença de diabetes ou outras doenças, os tratamentos já tentados e a possibilidade de acompanhamento contínuo. Também é necessário entender a rotina familiar e as expectativas criadas em torno do emagrecimento.

O termo “canetas emagrecedoras” pode transmitir a impressão de que todas elas servem apenas para perder peso. Por esse motivo, a SBP recomenda a expressão “medicamentos para tratar a obesidade”. A mudança parece pequena, mas ajuda a reconhecer a obesidade como uma doença crônica que pode exigir cuidado prolongado, e não como falha de comportamento ou problema meramente estético.

Quando as canetas emagrecedoras podem ser indicadas?

Existem situações nas quais esses medicamentos oferecem benefícios reais. Adolescentes com obesidade ou diabetes tipo 2 podem fazer parte dos grupos elegíveis, desde que sejam respeitados os critérios de idade, diagnóstico, bula e segurança de cada substância.

A decisão deve ser individualizada. Antes da prescrição, o pediatra ou endocrinologista pode investigar a gravidade da doença, as complicações já presentes, a resposta a mudanças anteriores no estilo de vida e os riscos do tratamento. O acompanhamento costuma envolver alimentação, atividade física, sono, saúde emocional e participação da família.

Isso acontece porque o medicamento não substitui os demais pilares do cuidado. A obesidade possui causas biológicas, genéticas, sociais, ambientais e comportamentais. Apenas dizer a uma criança para “comer menos” não resolve essa rede de fatores. Da mesma forma, aplicar uma injeção sem reorganizar o acompanhamento pode produzir uma perda de peso difícil de sustentar.

A interrupção do tratamento também merece planejamento. Parte das pessoas recupera peso depois de deixar o medicamento, especialmente quando não existe uma estratégia de longo prazo. Isso não significa que o remédio tenha falhado. Mostra que doenças crônicas frequentemente precisam de cuidado contínuo, assim como acontece com hipertensão e diabetes.

A obesidade possui causas biológicas, genéticas, sociais, ambientais e comportamentais. Apenas dizer a uma criança para “comer menos” não resolve essa rede de fatores

A obesidade possui causas biológicas, genéticas, sociais, ambientais e comportamentais. Apenas dizer a uma criança para “comer menos” não resolve essa rede de fatores

Pressão estética pode transformar tratamento em risco

Na adolescência, a relação com o próprio corpo ainda está sendo construída. Comparações constantes, comentários de colegas e imagens editadas nas redes sociais podem alimentar a sensação de que é necessário emagrecer rapidamente para ser aceito.

Nesse ambiente, as canetas emagrecedoras podem ser vistas como uma solução para perder peso antes de festas, viagens, competições ou sessões de fotos. Também podem ser procuradas para compensar uma refeição ou períodos de sedentarismo. Segundo os pediatras, nenhuma dessas situações representa uma indicação adequada.

O uso motivado exclusivamente pela aparência pode intensificar insatisfação corporal e comportamentos alimentares perigosos. A SBP alerta para a possibilidade de a pressão estética contribuir para transtornos como anorexia e bulimia, além de ansiedade e sintomas depressivos. O desejo de usar o medicamento, portanto, precisa ser investigado com cuidado e sem julgamentos.

A pergunta não deve ser apenas “quanto esse jovem deseja emagrecer?”, mas também “por que ele acredita que precisa mudar o corpo tão depressa?”.

A segurança também depende da procedência do produto e da dose correta. Em 2026, a Anvisa reforçou o alerta sobre pancreatite aguda associada ao uso indevido dessa classe. A agência afirmou que os benefícios continuam superando os riscos quando as indicações aprovadas são respeitadas, mas ressaltou que o uso indiscriminado aumenta a possibilidade de complicações.

Por isso, famílias não devem reutilizar prescrições, compartilhar canetas, alterar doses por conta própria ou comprar produtos de origem duvidosa. Dor abdominal forte e persistente, vômitos repetidos, sinais de desidratação ou qualquer reação intensa exigem avaliação profissional.

As canetas emagrecedoras representam um avanço importante da medicina e podem melhorar a saúde de jovens que realmente necessitam delas. O alerta dos pediatras não pretende demonizar o tratamento, mas devolver a ele a seriedade que as promessas rápidas da internet costumam retirar.

Para crianças e adolescentes, emagrecer não pode ser o único objetivo. O cuidado precisa proteger o crescimento, a nutrição, a massa muscular, a saúde mental e a qualidade de vida. A caneta pode fazer parte desse caminho, mas nunca deve conduzi-lo sozinha.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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