Um mosquito aparentemente comum pousa sobre a pele, pica e vai embora em poucos segundos. Na maioria das vezes, nada acontece além de uma pequena coceira. Mas, em situações raras, alguns mosquitos do gênero Culex, o conhecido pernilongo, podem transmitir a febre do Nilo Ocidental, uma infecção viral que voltou a chamar atenção no Brasil após novos registros humanos em 2026.
São Paulo confirmou em agosto seus dois primeiros casos humanos conhecidos da doença. Uma mulher de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto, se recuperou, enquanto uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto, permanecia hospitalizada. O local provável de infecção dos casos seguia sob investigação. Santa Catarina também confirmou dois casos, incluindo uma mulher de 77 anos que morreu em Imbituba.
Apesar de o nome causar preocupação, é importante entender o tamanho real do risco. A maioria das pessoas infectadas sequer percebe que teve contato com o vírus. O problema está em uma pequena parcela dos pacientes, nos quais a infecção pode atingir o sistema nervoso e provocar doenças graves, como encefalite e meningite.
Cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus da febre do Nilo Ocidental não desenvolvem sintomas perceptíveis.

Não existe atualmente uma vacina recomendada para seres humanos contra o vírus do Nilo Ocidental no Brasil, nem medicamento antiviral específico capaz de eliminar o vírus
O que é a febre do Nilo Ocidental e como ocorre a transmissão?
A febre do Nilo Ocidental é provocada pelo vírus do Nilo Ocidental, pertencente ao gênero Flavivirus. Ele faz parte da mesma família de outros vírus conhecidos no Brasil, como os responsáveis por dengue, zika e febre amarela.
O vírus foi identificado pela primeira vez em Uganda, em 1937. Posteriormente, espalhou-se por diferentes regiões da África, Europa, Ásia e Américas. O primeiro caso humano documentado no Brasil ocorreu em 2014.
Seu ciclo natural envolve principalmente aves silvestres e mosquitos.
Algumas aves infectadas apresentam quantidade suficiente do vírus no sangue para infectar um mosquito que as pique. Esse mosquito pode posteriormente picar outra ave e manter o ciclo de circulação.
O ser humano entra nessa história de maneira acidental.
Quando um mosquito infectado pica uma pessoa, pode transmitir o vírus. Cavalos e outros mamíferos também podem ser infectados.
Há, porém, um detalhe importante: seres humanos e equinos são considerados hospedeiros terminais. Isso significa que normalmente não desenvolvem níveis de vírus no sangue suficientes para infectar novos mosquitos e continuar o ciclo de transmissão.
O pernilongo comum pode transmitir a doença?
Sim. A transmissão está associada principalmente a mosquitos do gênero Culex, grupo que inclui espécies popularmente chamadas de pernilongos.
Isso diferencia a febre do Nilo Ocidental de doenças como dengue, zika e chikungunya, cuja transmissão urbana no Brasil está fortemente associada ao Aedes aegypti.
Ainda assim, não significa que qualquer pernilongo esteja contaminado. Para transmitir o vírus, o mosquito precisa anteriormente ter se infectado, geralmente ao se alimentar do sangue de uma ave que carregava o vírus.
A transmissão direta entre pessoas não faz parte do ciclo habitual da doença. Existem relatos raros relacionados a transfusões sanguíneas, transplantes de órgãos, transmissão da mãe para o bebê e aleitamento materno, mas essas situações são incomuns.
Quais são os sintomas da febre do Nilo Ocidental?
Aqui está um dos aspectos mais curiosos da doença: para a maioria das pessoas, absolutamente nada acontece.
O Ministério da Saúde estima que somente cerca de 20% das pessoas infectadas apresentam sintomas. Quando surgem, as manifestações geralmente lembram outras infecções virais e podem incluir febre de início súbito, mal-estar, falta de apetite, náusea, vômito, dor de cabeça, dor muscular, dor nos olhos, manchas na pele e aumento dos gânglios linfáticos.
Essa semelhança com outras doenças febris torna o diagnóstico mais complicado, principalmente em um país onde circulam diferentes arbovírus.
Os exames laboratoriais podem procurar anticorpos contra o vírus no sangue ou no líquido cefalorraquidiano. Entretanto, existe possibilidade de reação cruzada com outros flavivírus, incluindo dengue, zika e febre amarela, motivo pelo qual a interpretação dos exames pode exigir métodos complementares.
O cenário muda quando surgem manifestações neurológicas.
Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente um em cada 150 infectados pode desenvolver doença neurológica grave, incluindo meningite, encefalite ou paralisia flácida aguda.

Cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus da febre do Nilo Ocidental não desenvolvem sintomas perceptíveis
Quando a doença pode se tornar perigosa?
Nos casos mais graves, a febre do Nilo Ocidental pode comprometer o cérebro, as meninges, a medula ou outras partes do sistema nervoso.
Entre os sinais de alerta podem aparecer confusão mental, fraqueza muscular intensa, tremores, convulsões, alterações neurológicas, perda de consciência e paralisia.
Essas manifestações precisam de avaliação médica rápida.
Pessoas mais velhas e indivíduos com determinadas condições que comprometem a resposta imunológica apresentam risco maior de desenvolver formas graves da infecção, embora casos severos possam ocorrer em outras faixas etárias.
Não existe atualmente uma vacina recomendada para seres humanos contra o vírus do Nilo Ocidental no Brasil, nem medicamento antiviral específico capaz de eliminar o vírus.
O tratamento depende da gravidade.
Casos leves geralmente recebem medidas de suporte, com repouso, hidratação e controle dos sintomas de acordo com orientação médica. Já pessoas com comprometimento neurológico podem precisar de internação, hidratação intravenosa, suporte respiratório e, nos quadros mais graves, tratamento em unidade de terapia intensiva.
É justamente por não haver um tratamento antiviral específico que a prevenção se torna tão importante.
As recomendações são semelhantes às usadas contra outras doenças transmitidas por mosquitos: uso de repelentes adequados, telas em portas e janelas, roupas que protejam maior área da pele quando necessário e redução de locais favoráveis à proliferação de mosquitos. O Ministério da Saúde também recomenda atenção especial à exposição aos vetores ao amanhecer e ao entardecer.
Outro elemento importante é a vigilância dos animais.
Como aves silvestres e cavalos podem ajudar a indicar a circulação do vírus, ocorrências de animais com determinados sintomas neurológicos ou mortes suspeitas possuem importância epidemiológica e podem ser notificadas às autoridades sanitárias.
Os novos casos brasileiros não significam automaticamente que o país esteja diante de uma epidemia. Eles mostram, porém, que a vigilância precisa permanecer atenta a um vírus capaz de circular silenciosamente entre aves e mosquitos antes que um caso humano seja identificado.
A febre do Nilo Ocidental é um bom exemplo de como saúde humana, animais e meio ambiente estão conectados. Um vírus pode circular durante algum tempo na natureza quase sem ser percebido, até que a combinação certa de hospedeiros, mosquitos e seres humanos faça sua presença aparecer.
E, nesse caso, compreender o ciclo da doença é uma das melhores maneiras de evitar que a preocupação vire desinformação.