Perfume no pescoço faz mal? O que a ciência realmente diz sobre isso

Perfume no pescoço faz mal? O que a ciência realmente diz sobre isso

Ftalatos, formaldeído e compostos voláteis estão no centro da discussão. Entenda o que já sabemos sobre fragrâncias, hormônios e saúde.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

É quase um ritual. Você termina de se arrumar, pega o frasco e borrifa perfume no pescoço, nos pulsos e talvez atrás das orelhas. Durante décadas, essas regiões foram justamente as mais recomendadas para aplicar fragrâncias. Mas uma discussão que ganhou força nas redes sociais colocou esse hábito aparentemente inocente sob suspeita.

A alegação é preocupante: perfumes poderiam conter ftalatos, compostos orgânicos voláteis, formaldeído ou substâncias relacionadas, algumas delas investigadas por possíveis efeitos hormonais. Como o produto é aplicado diariamente sobre o pescoço, próximo à tireoide, surgiu a ideia de que isso poderia favorecer alterações hormonais, problemas reprodutivos e até câncer.

Existe ciência por trás de uma parte dessa preocupação, inclusive uma revisão publicada em 2025 que analisou possíveis riscos relacionados a perfumes e outros cosméticos. Mas existe uma diferença fundamental entre descobrir que determinadas substâncias apresentam riscos toxicológicos e concluir que passar perfume no pescoço causa uma doença.

E é justamente nessa diferença que a história fica interessante.

Detectar uma substância no organismo não significa automaticamente que aquela exposição esteja causando uma doença. Em toxicologia, a dose faz enorme diferença.

Detectar uma substância no organismo não significa automaticamente que aquela exposição esteja causando uma doença. Em toxicologia, a dose faz enorme diferença

Perfume no pescoço pode realmente afetar os hormônios?

Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Frontiers in Toxicology analisou estudos realizados entre 2005 e 2025 sobre possíveis impactos de perfumes e produtos cosméticos na saúde. Entre as substâncias discutidas estão ftalatos, parabenos, formaldeído e seus liberadores, filtros ultravioleta, metais pesados e compostos orgânicos voláteis.

À primeira vista, isso parece confirmar os vídeos alarmistas. Só que existe um detalhe essencial: o artigo não acompanhou pessoas aplicando perfume no pescoço.

Trata-se de uma revisão narrativa que reúne estudos sobre diferentes cosméticos, ingredientes, concentrações e formas de exposição. Perfumes aparecem junto de maquiagens, cremes, produtos capilares, protetores solares e outros itens. Portanto, não é cientificamente correto reunir todos os riscos mencionados e atribuí-los automaticamente a algumas borrifadas de perfume.

Ftalatos são o ponto que merece mais atenção

Uma das discussões mais relevantes envolve os ftalatos, substâncias utilizadas em diferentes produtos industriais e de consumo. No universo das fragrâncias, destaca-se o dietilftalato, conhecido como DEP, utilizado principalmente como solvente ou veículo.

E existem evidências de que perfumes podem aumentar nossa exposição a essa substância.

Uma pesquisa com mulheres encontrou concentrações urinárias de monoetilftalato, o MEP, principal metabólito do DEP, aproximadamente 2,9 vezes maiores entre aquelas que relataram utilizar perfume em comparação com as que não utilizavam.

Outro dado interessante surgiu no estudo HERMOSA. Adolescentes substituíram temporariamente determinados produtos de cuidados pessoais por versões formuladas sem alguns ftalatos, parabenos e outros compostos. Depois de apenas três dias, a concentração urinária de MEP caiu cerca de 27%, em média.

Isso demonstra que produtos cosméticos podem contribuir de maneira mensurável para nossa exposição química.

Mas existe uma pergunta ainda mais importante: essa exposição é suficiente para provocar doenças?

Detectar uma substância no organismo não significa automaticamente que aquela exposição esteja causando uma doença. Em toxicologia, a dose faz enorme diferença.

Alguns ftalatos possuem propriedades de desregulação endócrina e pesquisas vêm investigando possíveis relações entre exposição e alterações nos hormônios reprodutivos e tireoidianos.

Há estudos que encontraram associações entre determinados metabólitos de ftalatos e mudanças em T3, T4 ou TSH. Entretanto, os resultados variam conforme população, idade, sexo, substância e nível de exposição. Um estudo de 2026 com 201 adultos saudáveis encontrou algumas associações envolvendo MEP e hormônios tireoidianos, mas as alterações permaneceram dentro das faixas fisiológicas e os próprios autores apontaram a necessidade de pesquisas maiores.

Portanto, dizer que alguns ftalatos podem interferir no sistema endócrino encontra respaldo científico. Afirmar que perfume no pescoço causa hipotireoidismo é um salto que as evidências atuais não sustentam.

O problema é aplicar perfume no pescoço perto da tireoide?

Aqui encontramos provavelmente o maior exagero da discussão.

A tireoide realmente fica na região anterior do pescoço. Isso, porém, não significa que qualquer produto aplicado sobre a pele dessa área tenha acesso direto à glândula.

Os estudos sobre ftalatos e tireoide normalmente investigam a exposição sistêmica, utilizando, por exemplo, metabólitos presentes na urina. Eles não demonstram que uma substância aplicada na pele do pescoço atravesse diretamente os tecidos e alcance a tireoide por estar fisicamente próxima dela.

Quando determinada substância é absorvida pela pele e alcança a circulação, fatores como quantidade absorvida, metabolismo, frequência de uso e exposição total tornam-se muito mais importantes do que simplesmente a distância entre o local da aplicação e determinado órgão.

Em outras palavras, não existe evidência de um “atalho” entre o perfume aplicado no pescoço e a tireoide.

À primeira vista, isso parece confirmar os vídeos alarmistas. Só que existe um detalhe essencial: o artigo não acompanhou pessoas aplicando perfume no pescoço.

À primeira vista, isso parece confirmar os vídeos alarmistas. Só que existe um detalhe essencial: o artigo não acompanhou pessoas aplicando perfume no pescoço

E formaldeído e compostos orgânicos voláteis?

Outra afirmação comum nas redes sociais diz que os compostos orgânicos voláteis presentes nos perfumes seriam disruptores endócrinos. A frase é generalista demais.

“Compostos orgânicos voláteis”, ou VOCs, representam uma categoria enorme de substâncias definida principalmente por propriedades físico-químicas e pela facilidade com que evaporam. Perfumes precisam liberar compostos voláteis, pois é justamente essa volatilização que permite que a fragrância chegue ao nosso nariz.

A revisão científica cita possíveis efeitos irritantes, respiratórios e neurológicos associados a determinados VOCs e condições de exposição. Isso não significa que todos os compostos voláteis presentes em fragrâncias sejam disruptores endócrinos.

O formaldeído também exige contexto. Sua toxicidade em determinadas condições de exposição é bem estabelecida, e existem conservantes cosméticos capazes de liberar pequenas quantidades da substância. Entretanto, a revisão de 2025 aborda formaldeído e seus liberadores no contexto amplo dos cosméticos e não demonstra que perfumes comuns necessariamente apresentem concentrações perigosas.

Além disso, determinados compostos aromáticos podem participar de reações químicas no ar e gerar poluentes secundários, inclusive formaldeído, especialmente na presença de ozônio.

Isso é muito diferente de afirmar que alguém está “passando formaldeído cancerígeno sobre a tireoide” todas as manhãs.

Em toxicologia, não basta perguntar se uma substância pode ser perigosa. É preciso saber qual substância, em qual concentração, por qual via e em qual nível de exposição.

Curiosamente, existe um problema relacionado ao perfume no pescoço que possui evidências muito mais sólidas e recebe menos atenção nas redes sociais: alergias e dermatite de contato.

Fragrâncias possuem moléculas capazes de sensibilizar determinadas pessoas. Uma investigação europeia estimou uma prevalência de alergia de contato a fragrâncias de aproximadamente 1,9% na população geral.

Nesse sentido, o pescoço realmente pode ser importante porque é uma região onde o produto costuma ser aplicado diretamente e repetidamente. Vermelhidão, ardência, coceira, descamação ou manchas após o uso podem indicar dermatite de contato e merecem avaliação dermatológica.

Então, devemos parar de usar perfume no pescoço?

Para a maioria das pessoas, as evidências disponíveis não permitem afirmar que o uso normal de um perfume regulamentado no pescoço cause doença da tireoide, infertilidade ou câncer.

Isso não significa que fragrâncias sejam quimicamente irrelevantes. Perfumes podem contribuir para a exposição a ftalatos e outras substâncias, fragrâncias podem causar alergias e pessoas sensíveis podem apresentar sintomas respiratórios.

Também permanece uma questão científica relevante: ainda não conhecemos completamente o impacto de décadas de exposição cotidiana às misturas de substâncias provenientes de perfumes, cosméticos, produtos domésticos, plásticos e outras fontes ambientais.

Para quem prefere adotar o princípio da precaução, algumas medidas são simples: utilizar quantidades menores, evitar reaplicações excessivas e, especialmente em caso de pele sensível, aplicar a fragrância sobre a roupa em vez de diretamente sobre a pele. Isso reduz o contato cutâneo, embora não elimine a exposição por inalação.

O veredito científico, portanto, está no meio do caminho entre o alarmismo e a despreocupação absoluta.

A frase “não passe perfume no pescoço porque isso destrói sua tireoide” não é sustentada pelas evidências atuais. Por outro lado, investigar os efeitos da exposição cumulativa a ftalatos e outras substâncias presentes em produtos cotidianos é uma discussão científica legítima.

Talvez o ponto mais importante seja justamente esse: a ciência raramente funciona com frases assustadoras de poucos segundos. Quando o assunto é toxicologia, quase tudo depende da substância, da dose, da frequência e da exposição total.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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