Imagine uma cena que, até pouco tempo atrás, provavelmente ficaria restrita à intimidade de muitos casais: um homem decide trocar a tradicional cueca por uma peça originalmente associada ao guarda-roupa feminino. A reação da parceira seria estranhamento, surpresa ou interesse? Uma pesquisa realizada pela plataforma Sexlog sugere que, para uma parcela das mulheres, a resposta pode estar mais próxima da curiosidade do que da rejeição.
Segundo o levantamento divulgado pela plataforma, 30% das mulheres entrevistadas afirmaram ter vontade de ver o parceiro usando lingerie feminina. Outros dados apresentados pela pesquisa também indicam que algumas participantes já tiveram essa experiência e gostaram.
Mais do que uma simples curiosidade sobre roupas íntimas, os resultados ajudam a levantar uma questão interessante sobre comportamento, desejo e transformação dos códigos tradicionais de masculinidade e feminilidade.

Uma peça de roupa pode carregar significados culturais, mas não funciona como um diagnóstico sobre quem uma pessoa é ou por quem ela sente atração
Por que a lingerie feminina em homens desperta curiosidade?
Roupas carregam significados que vão muito além de sua função prática. Durante décadas, determinados modelos, tecidos, cortes e cores foram rigidamente classificados como masculinos ou femininos. A lingerie talvez seja um dos exemplos mais evidentes dessa divisão.
Por isso, quando um homem veste lingerie feminina, não está necessariamente chamando atenção apenas para a peça. Existe também uma quebra de expectativa. Aquilo que culturalmente costumamos associar ao corpo feminino aparece em um contexto diferente.
Segundo os relatos apresentados pela plataforma responsável pela pesquisa, a curiosidade demonstrada por parte dos entrevistados pode estar associada justamente à quebra de padrões tradicionais, à inversão de papéis, ao estímulo visual e à possibilidade de experimentar dinâmicas diferentes entre parceiros.
A curiosidade pode surgir justamente quando algo rompe aquilo que aprendemos a considerar previsível dentro da intimidade.
É importante, entretanto, não transformar os números em uma conclusão sobre todas as mulheres ou todos os casais. Uma pesquisa desse tipo mostra o comportamento e as respostas das pessoas que participaram do levantamento. Os resultados não significam que 30% de todas as brasileiras necessariamente compartilhem a mesma preferência.
Ainda assim, os dados são interessantes porque revelam que uma prática frequentemente tratada como incomum encontra abertura entre uma parcela dos participantes.
Algumas mulheres disseram já ter experimentado
Entre as mulheres consultadas, 15% afirmaram já ter visto ou vivenciado a experiência de o parceiro utilizar lingerie feminina e disseram ter aprovado. Outros 30% manifestaram interesse em experimentar, segundo os números apresentados no levantamento.
Em sentido contrário, apenas 1% declarou ter experimentado a situação e não ter gostado.
Os dados sugerem uma diferença interessante entre curiosidade e experiência concreta. É possível que determinada fantasia desperte interesse sem necessariamente se transformar em uma preferência permanente. Afinal, curiosidade não significa obrigação, identidade ou sequer desejo de repetir uma experiência.
Esse aspecto é importante porque a intimidade dos casais pode funcionar como um espaço de experimentação. Roupas, fantasias, mudanças de visual e inversões de expectativas podem assumir significados diferentes dependendo das pessoas envolvidas.
Homens também demonstram interesse por lingerie feminina
A curiosidade não apareceu somente entre as mulheres. Segundo o levantamento, 17% dos homens participantes afirmaram já ter usado lingerie feminina durante momentos íntimos e aprovado a experiência. Outros 10% disseram sentir curiosidade, embora ainda não tivessem experimentado.
Esses números colocam outra questão sobre a mesa: por que determinadas peças continuam sendo vistas como exclusivamente femininas?
Historicamente, roupas são marcadores culturais importantes. Saias, calças, saltos, maquiagem, cores e diferentes tipos de tecido tiveram seus significados alterados inúmeras vezes ao longo dos séculos. O que uma sociedade considera masculino ou feminino não permanece necessariamente igual para sempre.
No caso da lingerie, porém, essa divisão ainda é particularmente forte. Cuecas são comercializadas para homens, enquanto calcinhas, rendas e outras peças costumam pertencer às seções femininas das lojas.
Quando essa fronteira é atravessada, portanto, existe um componente de transgressão das convenções sociais.

Uma peça de roupa pode carregar significados culturais, mas não funciona como um diagnóstico sobre quem uma pessoa é ou por quem ela sente atração
Usar uma peça determina orientação sexual ou identidade?
Não. O interesse de um homem por lingerie feminina, por si só, não permite concluir sua orientação sexual ou identidade de gênero. Roupa, comportamento, orientação sexual, fantasia e identidade são dimensões diferentes da experiência humana.
Um homem pode simplesmente gostar da estética de uma determinada peça, da sensação do tecido, da reação da parceira ou do caráter inesperado da experiência. Em outros casos, a roupa pode assumir significados pessoais diferentes.
É justamente por isso que interpretações automáticas podem ser enganosas.
Uma peça de roupa pode carregar significados culturais, mas não funciona como um diagnóstico sobre quem uma pessoa é ou por quem ela sente atração.
O que a pesquisa parece capturar é algo mais simples: existe uma parcela de homens e mulheres disposta a brincar com códigos que tradicionalmente separam o masculino do feminino.
Isso também acontece em um momento no qual as fronteiras da moda vêm sendo questionadas de maneira mais ampla. Peças sem gênero definido, saias masculinas, maquiagem para homens e coleções agênero aparecem cada vez mais em passarelas, campanhas e redes sociais. A lingerie pode ser entendida como uma das fronteiras mais íntimas dessa transformação.
No contexto de um casal, entretanto, o elemento fundamental continua sendo a vontade das pessoas envolvidas. Experimentar uma peça diferente pode ser divertido para alguns, indiferente para outros e desconfortável para outros tantos.
Não existe uma reação universal.
Talvez seja justamente esse o aspecto mais curioso dos números apresentados pela pesquisa. Aquilo que poderia ser facilmente tratado como um comportamento extremamente raro ou rejeitado encontra um grupo significativo de participantes disposto ao menos a considerar a experiência.
No fim, a lingerie feminina continua sendo apenas uma peça de roupa. O significado atribuído a ela é que pode mudar completamente dependendo de quem veste, de quem observa e do contexto em que isso acontece.
E, se os números do levantamento servem como pista, os limites entre aquilo que consideramos masculino e feminino talvez sejam menos rígidos na intimidade do que costumamos imaginar.