Moda agênero ganha espaço nos EUA e homens apostam cada vez mais em saias

Moda agênero ganha espaço nos EUA e homens apostam cada vez mais em saias

Peça usada por homens durante séculos volta ao centro de uma discussão sobre moda, masculinidade e liberdade.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine entrar em um bar de Nova York e encontrar um homem de camisa social, botas e saia plissada conversando com os amigos. Talvez algumas pessoas ainda olhem duas vezes. Mas a cena, que décadas atrás poderia parecer uma provocação deliberada, começa a fazer parte de uma transformação maior na maneira como a sociedade ocidental entende roupas, masculinidade e identidade.

Nos Estados Unidos, a moda agênero ganhou espaço nas passarelas, campanhas publicitárias, redes sociais e tapetes vermelhos. Nas ruas, o movimento acontece de maneira mais lenta e desigual. Uma de suas faces mais visíveis é justamente a presença de homens usando saias, vestidos, túnicas e peças que, durante boa parte da história recente do Ocidente, foram classificadas exclusivamente como femininas.

Isso não significa que milhões de americanos estejam abandonando as calças. A saia masculina continua muito mais presente em grandes cidades, ambientes artísticos, universidades e círculos ligados à moda. A transformação mais interessante talvez esteja em outro lugar: aos poucos, determinadas roupas começam a perder a obrigação de informar o gênero, a sexualidade ou até a personalidade de quem as veste.

Existe uma assimetria curiosa até hoje. Uma mulher de calça social ou terno dificilmente causa espanto. Um homem de saia ainda pode provocar olhares

Existe uma assimetria curiosa até hoje. Uma mulher de calça social ou terno dificilmente causa espanto. Um homem de saia ainda pode provocar olhares

O que é moda agênero e por que ela está crescendo?

A expressão moda agênero costuma aparecer ao lado de termos como moda sem gênero, genderless fashion e moda de gênero fluido. Embora os conceitos não sejam exatamente iguais, compartilham uma ideia central: questionar a divisão rígida entre roupas destinadas exclusivamente aos homens e roupas destinadas exclusivamente às mulheres.

Existe também uma distinção importante. Uma pessoa não precisa ser agênero, não binária ou LGBTQIA+ para usar moda agênero. Um homem pode se identificar plenamente como homem e simplesmente considerar uma saia bonita, confortável ou interessante.

A transformação talvez não esteja na roupa, mas na possibilidade de alguém usá-la sem precisar explicar o que aquela escolha significa sobre sua identidade.

Nos Estados Unidos, vários fenômenos contribuíram para acelerar essa discussão. A força da indústria cultural, o poder das celebridades, as redes sociais e as mudanças geracionais fizeram experiências antes restritas a pequenos grupos alcançarem milhões de pessoas.

Os dados ajudam a mostrar essa transformação cultural. Pesquisa do Gallup citada no material de referência aponta que 9% dos adultos americanos se identificavam como LGBTQIA+ em 2026, contra 3,5% em 2012. Isso não significa que moda agênero seja sinônimo de moda LGBTQIA+, mas ajuda a revelar uma sociedade na qual gênero e identidade são discutidos de maneira muito mais aberta.

Ainda assim, é preciso cuidado com exageros. Não existe uma estatística nacional sólida mostrando quantos homens americanos usam saia regularmente. Também não é possível afirmar que a peça esteja próxima de se tornar tão comum quanto calças ou bermudas. O que existe é um aumento de visibilidade e uma expansão do conjunto de escolhas consideradas possíveis.

Homens de saia são realmente uma novidade?

Curiosamente, a estranheza talvez seja mais recente do que a própria saia masculina.

A ideia de que homens sempre vestiram calças e mulheres sempre usaram saias não corresponde à história do vestuário. Homens utilizaram túnicas na Grécia e em Roma antigas. O kilt tornou-se um símbolo da cultura escocesa. Sarongues, lungis, túnicas e peças semelhantes continuam presentes no vestuário masculino de diferentes sociedades.

Em outras palavras, não existe uma lei natural determinando que uma peça aberta na parte inferior seja feminina.

O código que hoje parece tão óbvio foi construído historicamente. Entre o final do século XVIII e o século XIX, ocorreu na moda europeia aquilo que historiadores do vestuário chamam de “grande renúncia masculina”. Homens das classes dominantes gradualmente abandonaram bordados, rendas, joias, cores exuberantes e outras formas de ornamentação.

O terno escuro passou a comunicar seriedade, produtividade, racionalidade e autocontrole. Grande parte da ornamentação foi deslocada para o guarda-roupa feminino. Nesse processo, determinadas peças deixaram de representar apenas estilos diferentes e passaram a carregar significados sobre masculinidade e feminilidade.

É por isso que existe uma assimetria curiosa até hoje. Uma mulher de calça social ou terno dificilmente causa espanto. Um homem de saia ainda pode provocar olhares.

Como a moda agênero levou a saia masculina às passarelas?

Celebridades tiveram papel importante nessa mudança de percepção. Artistas como Billy Porter, Kid Cudi, A$AP Rocky, Jaden Smith e Bad Bunny já apareceram publicamente usando saias ou vestidos. Harry Styles também ajudou a popularizar uma estética masculina menos presa às fronteiras tradicionais do vestuário.

Ao mesmo tempo, estilistas e grandes casas de moda incorporaram saias, sobreposições e silhuetas híbridas às coleções masculinas. Thom Browne, por exemplo, transformou saias plissadas em elemento recorrente de sua alfaiataria masculina. Dior, Fendi, Comme des Garçons, Louis Vuitton, Alexander McQueen e Simone Rocha também exploraram essas fronteiras.

Mas existe uma diferença enorme entre aparecer numa passarela e chegar ao guarda-roupa de milhões de pessoas.

A alta-costura e os grandes desfiles funcionam frequentemente como laboratórios culturais. Eles experimentam formas, cores e conceitos antes que essas ideias sejam absorvidas pelo mercado convencional. A saia masculina parece estar justamente nesse estágio intermediário.

Em cidades como Nova York, Los Angeles e São Francisco, homens usando saias podem ser encontrados com maior facilidade em ambientes criativos, festas, universidades e bairros culturalmente diversos. Fora desses espaços, a pressão das convenções sociais continua muito maior.

A transformação talvez não esteja na roupa, mas na possibilidade de alguém usá-la sem precisar explicar o que aquela escolha significa sobre sua identidade.

A transformação talvez não esteja na roupa, mas na possibilidade de alguém usá-la sem precisar explicar o que aquela escolha significa sobre sua identidade

Por que justamente a saia provoca tanta discussão?

Uma camiseta larga pode facilmente ser vendida como unissex. O mesmo acontece com tênis, moletons, jaquetas e diversas calças. A saia é diferente porque permanece fortemente associada ao feminino na cultura ocidental contemporânea.

Isso transforma uma peça extremamente simples em símbolo.

Quando um homem coloca uma saia, ele pode não estar tentando fazer qualquer declaração política. Mesmo assim, outras pessoas podem interpretar aquela escolha como questionamento de gênero, sexualidade ou masculinidade.

A indústria percebeu essa barreira e começou a explorar modelos intermediários, como skorts, kilts contemporâneos, túnicas, saias-calças, aventais urbanos e calças com painéis sobrepostos. São peças que aproximam gradualmente a silhueta masculina tradicional do universo das saias.

Talvez a pergunta mais interessante não seja por que alguns homens começaram a usar saias, mas por que uma peça de tecido ganhou tanto poder para definir como esperamos que um homem se comporte.

A moda agênero, entretanto, também possui contradições. Muitas coleções anunciadas como neutras simplesmente oferecem roupas largas baseadas em proporções masculinas. Outras permanecem caras e concentradas no mercado de luxo. Há ainda marcas que utilizam diversidade em campanhas publicitárias sem transformar efetivamente suas lojas, tamanhos, modelagens e departamentos.

A verdadeira mudança, portanto, depende de algo mais profundo do que colocar um modelo masculino de saia em um anúncio.

Ela envolve tornar diferentes peças realmente acessíveis para diferentes corpos.

E não significa que os homens passarão a usar saias em massa. Pelo menos não existem evidências suficientes para fazer essa previsão. A maior parte dos consumidores masculinos continua comprando roupas tradicionalmente associadas aos homens, e as calças permanecem profundamente incorporadas à vida profissional e cotidiana.

Mas mudanças culturais não precisam atingir a maioria para transformar uma sociedade.

Durante muito tempo, determinadas roupas funcionaram quase como documentos sociais. Elas informavam imediatamente como uma pessoa deveria ser percebida. O crescimento da moda agênero sugere que essa associação pode estar enfraquecendo.

Talvez o futuro não seja um mundo em que todos os homens usem saias. Pode ser simplesmente um mundo em que alguns usem e ninguém considere necessário perguntar por quê.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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