Na era da IA, as empresas estão valorizando mais profissionais de Humanas

Na era da IA, as empresas estão valorizando mais profissionais de Humanas

Para 67% dos entrevistados, formações em liberal arts ganharam importância diante do avanço da inteligência artificial.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Durante anos, uma frase pareceu perseguir estudantes de História, Filosofia, Comunicação, Letras, Ciências Sociais e outras áreas: “Você deveria ter feito algo de tecnologia, porque é lá que estão os empregos do futuro”. Profissionais de Humanas não tem futuro.

Então a inteligência artificial avançou.

Softwares começaram a escrever códigos, produzir planilhas, resumir documentos, criar apresentações, analisar bases de dados e executar parte das tarefas que antes ocupavam boa parte do dia de profissionais em início de carreira. E, curiosamente, esse movimento começou a aumentar o valor de capacidades que durante muito tempo foram tratadas como secundárias.

Pensamento crítico. Comunicação. Interpretação. Criatividade. Julgamento ético. Capacidade de formular perguntas. Leitura de contexto.

Um levantamento divulgado em junho de 2026 pela Cognizant em colaboração com a Pearson mostra que empresas estão revendo o perfil dos profissionais que procuram para os cargos de entrada.

A pesquisa ouviu 750 profissionais de Recursos Humanos em cargos de diretoria ou superiores, todos trabalhando em empresas com pelo menos mil funcionários nos Estados Unidos, Reino Unido e Índia. Entre os entrevistados, 67% afirmaram que passaram a valorizar mais diplomas de liberal arts diante dos avanços recentes da inteligência artificial. Outros 69% disseram considerar uma formação ampla e interdisciplinar mais importante para profissionais iniciantes do que uma especialização excessivamente concentrada em um único campo.

O material que serviu de base para esta reportagem também destaca que aproximadamente um terço das tarefas realizadas atualmente em cargos de entrada já seria executado por inteligência artificial na percepção dos líderes pesquisados.

Isso não significa que programadores, engenheiros ou matemáticos perderam importância.

O fenômeno é mais interessante do que uma simples revanche dos profissionais de Humanas contra os de Exatas. O que está acontecendo é uma mudança naquilo que as empresas esperam das pessoas justamente porque as máquinas ficaram melhores em executar algumas tarefas.

Quanto mais a inteligência artificial aprende a produzir respostas, mais valiosa pode se tornar a pessoa capaz de descobrir qual pergunta realmente precisa ser feita.

Há uma frase repetida desde o surgimento do ChatGPT: “Você não será substituído pela inteligência artificial, mas por alguém que sabe utilizá-la”.

Há uma frase repetida desde o surgimento do ChatGPT: “Você não será substituído pela inteligência artificial, mas por alguém que sabe utilizá-la”.

Por que profissionais de Humanas ganharam valor com a IA?

Para entender essa mudança, é preciso observar o que aconteceu com os empregos de entrada.

Tradicionalmente, uma pessoa recém-contratada começava executando atividades relativamente previsíveis. Produzia relatórios básicos, organizava informações, pesquisava dados, revisava documentos, preparava apresentações ou realizava partes operacionais de um projeto.

Eram tarefas importantes não apenas pela produção em si. Elas funcionavam como uma escola.

O profissional fazia o trabalho mais simples enquanto observava os colegas experientes, entendia os processos e gradualmente aprendia a tomar decisões mais complexas.

A inteligência artificial começou justamente por essa camada.

Modelos generativos conseguem resumir centenas de páginas, comparar documentos, escrever versões preliminares de textos, gerar códigos, pesquisar informações internas, produzir relatórios e transformar dados em explicações.

Na pesquisa da Cognizant e da Pearson, os líderes de RH afirmaram que a IA já executa, em média, aproximadamente um terço das tarefas associadas aos cargos de entrada.

Se a máquina realiza uma parcela crescente do trabalho operacional, o funcionário humano precisa agregar valor de outra maneira.

É aí que aparecem habilidades tradicionalmente associadas às Humanidades.

Uma inteligência artificial pode gerar dez estratégias para lançar um produto. Mas qual delas faz sentido para aquela empresa, naquele momento, diante daquele público e naquele contexto cultural?

Ela pode resumir uma pesquisa. Mas quais conclusões são realmente relevantes?

Pode escrever um comunicado. Mas como determinada frase será interpretada por funcionários, consumidores ou investidores?

Pode apresentar uma decisão aparentemente eficiente. Mas quais impactos éticos, sociais ou jurídicos estão sendo ignorados?

Essas perguntas exigem interpretação.

O relatório identifica quatro grandes conjuntos de capacidades consideradas importantes para a nova força de trabalho: mentalidade voltada para IA, identificação de problemas, habilidades interpessoais centradas nas pessoas e agilidade intelectual.

Isso inclui saber utilizar inteligência artificial, mas também compreender seus limites.

A empresa não quer apenas alguém capaz de escrever um comando para o ChatGPT. Ela precisa de alguém que consiga reconhecer quando a resposta produzida está errada, superficial, enviesada ou completamente inadequada ao contexto.

A habilidade mais valiosa pode ser descobrir o problema.

Uma das conclusões mais interessantes da pesquisa está na diferença entre resolver problemas e encontrar problemas.

Durante muito tempo, grande parte da educação e das avaliações profissionais foi estruturada da mesma maneira: alguém apresenta uma questão e o candidato precisa encontrar a solução.

A inteligência artificial é particularmente boa nesse tipo de cenário.

Dê um problema bem definido, informações suficientes e uma instrução clara, e um sistema de IA poderá produzir rapidamente alternativas.

Mas o mundo real raramente entrega problemas perfeitamente formulados.

Uma empresa pode perceber que as vendas caíram, mas não saber por quê. Pode receber milhares de reclamações e não compreender o padrão existente por trás delas. Pode implantar uma tecnologia eficiente e descobrir que os funcionários não querem utilizá-la.

Antes de encontrar uma resposta, alguém precisa identificar a pergunta.

Segundo o levantamento, 64% das organizações pesquisadas afirmam valorizar mais a capacidade de identificar novos problemas e desenvolver soluções inéditas do que simplesmente resolver desafios já conhecidos.

Essa diferença ajuda a explicar por que Filosofia, História, Comunicação, Psicologia, Antropologia e outras áreas podem ganhar uma nova relevância.

Essas formações trabalham constantemente com interpretação, ambiguidade e contexto.

Um acontecimento histórico raramente possui uma única causa. Um comportamento humano não pode ser explicado somente por uma variável. Uma mensagem muda de significado dependendo de quem fala, para quem fala e em qual circunstância.

Esse tipo de raciocínio se torna especialmente importante quando a inteligência artificial entra na tomada de decisões.

A IA pode encontrar padrões dentro dos dados. O trabalho humano começa quando alguém pergunta se aquele padrão significa aquilo que parece significar.

Isso significa que Exatas perdeu importância?

Não.

Essa talvez seja a interpretação mais equivocada que pode surgir do levantamento.

O relatório não conclui que as empresas estejam abandonando profissionais técnicos nem que cursos de Humanas tenham se tornado mais importantes do que Ciência, Tecnologia, Engenharia ou Matemática.

A própria pesquisa destaca que conhecimentos técnicos continuam fundamentais. O que mudou é a percepção de que eles não bastam sozinhos.

Na prática, a fronteira entre as áreas pode ficar cada vez menos rígida.

Um engenheiro capaz de compreender comportamento humano pode tomar melhores decisões sobre um produto.

Um publicitário que sabe analisar dados e trabalhar com inteligência artificial pode desenvolver estratégias melhores.

Um advogado que domina ferramentas de automação pode pesquisar e organizar documentos com mais eficiência, dedicando seu tempo à interpretação jurídica.

Um programador que compreende comunicação, ética e experiência do usuário pode construir sistemas mais adequados às pessoas que realmente vão utilizá-los.

E um profissional de Humanas que se recusa a aprender tecnologia também corre risco.

A nova vantagem não parece estar em escolher um lado.

Ela está na combinação.

A pesquisa mostra isso quando 69% dos líderes de RH dizem preferir formações amplas ou interdisciplinares para talentos em início de carreira.

Outro dado é ainda mais expressivo: 97% afirmaram que as chamadas habilidades humanas ou soft skills são mais importantes do que nunca.

O termo pode causar a impressão de algo secundário. Mas comunicação, adaptabilidade, julgamento e resolução de problemas estão se transformando justamente nas competências utilizadas para supervisionar aquilo que a IA produz.

A Cognizant chegou a uma conclusão semelhante em outro estudo de 2026. A empresa estima que a inteligência artificial já possui capacidade potencial de impactar 93% dos empregos analisados, embora a intensidade da transformação varie muito entre profissões.

Áreas como negócios, finanças e administração apresentam algumas das maiores exposições. Profissões de saúde, educação, direito, engenharia e ciências sociais também estão sofrendo mudanças rápidas.

Isso significa que praticamente ninguém ficará completamente fora da transformação.

Quanto mais a inteligência artificial aprende a produzir respostas, mais valiosa pode se tornar a pessoa capaz de descobrir qual pergunta realmente precisa ser feita.

Quanto mais a inteligência artificial aprende a produzir respostas, mais valiosa pode se tornar a pessoa capaz de descobrir qual pergunta realmente precisa ser feita

O profissional do futuro não vai competir apenas com a IA

Há uma frase repetida desde o surgimento do ChatGPT: “Você não será substituído pela inteligência artificial, mas por alguém que sabe utilizá-la”.

Ela simplifica um fenômeno muito maior, mas contém uma parte importante da discussão.

Segundo a pesquisa, 96% dos líderes de Recursos Humanos esperam que, nos próximos cinco anos, cargos de entrada evoluam para funções em que profissionais supervisionem ou gerenciem sistemas de inteligência artificial. Outros 94% acreditam que surgirão novas funções iniciais que atualmente sequer existem.

Ou seja, a porta de entrada do mercado pode mudar radicalmente.

O estagiário do futuro talvez não passe horas montando manualmente uma apresentação. A IA fará uma primeira versão em minutos.

O trabalho dele será verificar se os números estão corretos, identificar o que ficou de fora, entender o público, decidir qual informação merece destaque e transformar aquele material em algo útil para uma decisão.

O redator poderá produzir dezenas de versões de um texto com inteligência artificial. Seu valor estará em perceber qual delas realmente comunica algo, qual repete clichês, qual apresenta um erro factual e qual combina com a personalidade da marca.

O advogado poderá receber uma síntese automática de milhares de documentos. Ainda precisará saber se a interpretação faz sentido dentro do caso.

O profissional de marketing terá acesso a análises produzidas instantaneamente. Alguém terá de decidir o que fazer com elas.

É nesse ponto que os profissionais de Humanas podem encontrar uma oportunidade importante.

Durante anos, o discurso sobre automação sugeriu que o mercado precisaria de mais pessoas capazes de fazer o que as máquinas não sabiam fazer tecnicamente.

Agora surge outra possibilidade.

Talvez o mercado precise também de pessoas capazes de fazer justamente aquilo que uma máquina não consegue compreender completamente sobre pessoas.

Mas existe uma ressalva fundamental.

A pesquisa foi realizada nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Índia. Seus resultados não podem ser automaticamente transformados em uma fotografia do mercado de trabalho brasileiro.

Além disso, o termo liberal arts utilizado no levantamento possui um significado educacional diferente da classificação brasileira de “Humanas”. Ele pode abranger formações em artes, humanidades, ciências sociais e outros currículos generalistas.

Portanto, seria impreciso dizer que “67% das empresas preferem profissionais de Humanas” ou que “Humanas superou Exatas”.

O resultado correto é mais específico: 67% dos líderes pesquisados dizem valorizar mais diplomas de liberal arts depois do avanço da IA, enquanto 69% consideram formações amplas e interdisciplinares mais importantes do que especializações extremamente estreitas para profissionais no início da carreira.

Mesmo com essa diferença, a mudança é relevante.

O mercado parece caminhar para um profissional híbrido.

Alguém que consiga utilizar ferramentas de inteligência artificial, compreender minimamente dados e tecnologia, mas que também saiba escrever, argumentar, interpretar, colaborar, negociar e decidir.

Para quem está na faculdade ou começando a carreira, isso muda a estratégia.

Não basta aprender apenas ferramentas, porque ferramentas mudam rapidamente. Uma plataforma popular hoje pode desaparecer dentro de poucos anos.

Também não basta desenvolver apenas habilidades humanas e ignorar a tecnologia.

O relatório aponta justamente para a combinação de fluência em IA, pensamento crítico, comunicação, criatividade, raciocínio ético, adaptabilidade e inteligência interpessoal.

Existe ainda um problema que as próprias empresas precisarão resolver.

Se a inteligência artificial assumir grande parte das tarefas tradicionalmente entregues aos iniciantes, como esses profissionais adquirirão experiência suficiente para assumir decisões complexas no futuro?

Um advogado experiente aprendeu revisando documentos simples. Um jornalista aprendeu produzindo notas menores. Um analista começou preparando planilhas básicas. Um programador sênior um dia escreveu códigos relativamente simples.

Se a máquina ocupar completamente esses degraus iniciais, as empresas terão de inventar novas maneiras de formar pessoas.

É talvez por isso que o estudo traz uma aparente contradição: a IA reduz tarefas tradicionalmente destinadas aos iniciantes, mas 94% dos líderes acreditam que ela criará novas funções de entrada.

O emprego inicial pode não desaparecer. Pode mudar de natureza.

Em vez de executar tudo manualmente, o jovem profissional poderá começar aprendendo a supervisionar, validar e complementar o trabalho automatizado.

E isso faz com que uma habilidade antiga volte ao centro da discussão.

Pensar.

Depois de décadas ouvindo que o futuro pertenceria exclusivamente a quem soubesse falar com máquinas, os profissionais de Humanas talvez estejam descobrindo que entender pessoas continua sendo uma tecnologia difícil de substituir.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também