“Aplicativos de dopamina”: você compraria algo sabendo que nunca vai chegar?

“Aplicativos de dopamina”: você compraria algo sabendo que nunca vai chegar?

Especialistas alertam que os efeitos desses sites ainda não foram estudados e que comparações com jogos de azar exigem cautela.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

“Aplicativos de dopamina” viram tendência na internet. É sábado à noite. Você abre uma plataforma de delivery, observa fotografias de pizzas, hambúrgueres e pratos mexicanos, escolhe os adicionais e acompanha o valor do pedido subir. Depois de finalizar a compra, um pequeno entregador aparece no mapa e começa a se aproximar do endereço informado.

A comida, porém, nunca chega.

Não houve erro no pagamento, atraso do restaurante ou problema com o entregador. Na verdade, nada foi comprado, nenhum cartão foi cobrado e nenhum prato chegou a ser preparado. Toda a experiência era uma simulação criada para reproduzir apenas a sensação de fazer um pedido.

Essa é a proposta do FoodNeverComes, plataforma que imita as etapas de um aplicativo de entrega de comida. O usuário escolhe pratos, enche o carrinho, utiliza um cartão fictício e acompanha uma entrega imaginária. O próprio site informa que não exige conta, não processa pagamentos verdadeiros e não armazena dados de cartão.

A plataforma faz parte de uma tendência conhecida como “Aplicativos de dopamina” ou sites de dopamina. O nome passou a ser usado para descrever serviços que simulam compras, entregas e outras atividades associadas ao consumo, mas eliminam o pagamento e o recebimento do produto.

O FoodNeverComes afirma já ter proporcionado quase 1 milhão de “desejos satisfeitos”. O número é divulgado pela própria plataforma e não representa necessariamente uma contagem de usuários únicos, mas ajuda a mostrar o alcance que essa curiosa forma de entretenimento conquistou.

Os estudos sobre cassinos virtuais levantam uma preocupação, mas não provam que compras falsas e entregas imaginárias produzirão os mesmos efeitos.

Os estudos sobre cassinos virtuais levantam uma preocupação, mas não provam que compras falsas e entregas imaginárias produzirão os mesmos efeitos

O que são os “Aplicativos de dopamina”?

Os “Aplicativos de dopamina” tentam separar o ritual da compra de suas consequências financeiras. O usuário pode pesquisar, comparar opções, selecionar produtos e finalizar um pedido, mas não precisa pagar nem esperar por uma encomenda verdadeira.

A Dopamine Shop, por exemplo, funciona como uma loja virtual fictícia. O visitante pode colocar no carrinho desde uma pedra de 99 centavos até uma lua avaliada em US$ 99 milhões. Nenhum dado bancário é solicitado, nenhuma transação acontece e nada é enviado. A própria página se apresenta como uma paródia criada para permitir que o usuário aproveite o processo de comprar sem perder dinheiro.

Também existem simuladores que reproduzem o ato de fumar. O aplicativo No Smoke Zone, também apresentado como Virtual Smoke, exibe animações de cigarros e promete imitar parte da aparência e da sensação do hábito sem utilizar nicotina. A descrição aparece nas próprias lojas de aplicativos, embora isso não comprove que a ferramenta seja eficaz para abandonar o tabagismo.

A tendência ganhou força inicialmente na Coreia do Sul e começou a se espalhar para outros países. Parte de sua popularidade foi associada a jovens que desejam aliviar o estresse ou experimentar pequenos momentos de satisfação sem gastar dinheiro com comida, roupas ou outros produtos.

Os “Aplicativos de dopamina” vendem a sensação de comprar, mas retiram justamente aquilo que normalmente vem depois: a cobrança, o produto e o possível arrependimento.

Apesar do nome, essas plataformas não formam uma categoria médica ou científica reconhecida. “Aplicativo de dopamina” é uma expressão popular usada para explicar o tipo de experiência oferecida.

Também é impreciso tratar a dopamina simplesmente como a substância química do prazer. Ela participa de processos relacionados à motivação, ao movimento, ao aprendizado e à avaliação de recompensas. Em determinadas situações, sua atuação está relacionada à expectativa de um resultado e à disposição para agir em busca dele.

Por que uma compra falsa pode parecer satisfatória?

Uma compra online é composta por diversas pequenas etapas. Antes mesmo de receber o produto, o consumidor já experimenta curiosidade, expectativa e sensação de controle.

Primeiro, ele acredita que poderá encontrar algo interessante. Depois, compara opções, escolhe cores, tamanhos ou sabores e observa o carrinho sendo preenchido. Por fim, recebe uma confirmação de que o pedido foi concluído.

Os “Aplicativos de dopamina” reproduzem justamente essa sequência:

A antecipação aparece durante a busca por algo desejável. A seleção cria a sensação de que o usuário está tomando decisões. A confirmação surge quando a plataforma informa que o pedido foi realizado.

O único elemento ausente é o consumo real.

Essa lógica não começou com as novas plataformas. Muitas pessoas já relatavam sentir satisfação ao criar listas de desejos, planejar viagens que talvez nunca realizassem ou encher carrinhos virtuais e abandoná-los antes do pagamento.

A expectativa pode ser envolvente porque o cérebro responde não apenas ao recebimento de uma recompensa, mas também aos sinais que indicam que algo desejado poderá acontecer. Estudos relacionam a dopamina à antecipação, à motivação e ao aprendizado sobre ações que podem gerar resultados positivos.

Isso não significa que cada clique provoque uma quantidade previsível de dopamina ou que os sites tenham medido diretamente o cérebro de seus usuários. Até o momento, não há evidências específicas demonstrando quanto essas plataformas alteram a liberação do neurotransmissor.

O nome funciona melhor como uma metáfora de marketing do que como uma descrição neuroquímica comprovada.

Ainda assim, o ritual pode ajudar algumas pessoas a controlar uma compra impulsiva. Alguém que sente vontade de pedir comida durante a madrugada pode realizar uma entrega imaginária, observar o valor que teria gastado e encerrar a experiência sem comprometer o orçamento.

O resultado, porém, provavelmente não será igual para todo mundo. Enquanto uma pessoa pode perder a vontade de consumir, outra pode ficar ainda mais interessada no produto verdadeiro depois de observar imagens e passar vários minutos escolhendo opções.

Os “Aplicativos de dopamina” vendem a sensação de comprar, mas retiram justamente aquilo que normalmente vem depois: a cobrança, o produto e o possível arrependimento.

Os “Aplicativos de dopamina” vendem a sensação de comprar, mas retiram justamente aquilo que normalmente vem depois: a cobrança, o produto e o possível arrependimento

Os “Aplicativos de dopamina” podem trazer riscos?

Como essas plataformas são recentes, ainda não existem pesquisas específicas capazes de demonstrar seus efeitos de longo prazo. Não se sabe se elas reduzem compras impulsivas, aumentam desejos de consumo ou simplesmente oferecem alguns minutos de entretenimento.

Também não há provas de que pedir uma pizza fictícia levará uma pessoa a desenvolver compulsão alimentar, dependência de compras ou outros comportamentos prejudiciais.

Uma preocupação levantada por especialistas é a possibilidade de algumas simulações funcionarem como uma espécie de ensaio para comportamentos reais. Essa hipótese aparece principalmente quando a plataforma envolve gamificação, recompensas, contagens, animações e mecanismos que incentivam o retorno frequente.

Pesquisas sobre jogos de cassino sociais são usadas como comparação. Essas plataformas permitem apostar fichas virtuais sem utilizar dinheiro verdadeiro, reproduzindo roletas, máquinas caça-níqueis e outros elementos dos cassinos.

Um estudo longitudinal acompanhou 409 pessoas que jogavam cassinos sociais, mas nunca haviam apostado online com dinheiro. Seis meses depois, aproximadamente 26% relataram ter migrado para jogos de azar online com apostas reais.

Outra pesquisa avaliou 521 adultos que utilizavam jogos de cassino sociais. Cerca de 19% disseram que começaram a apostar dinheiro como resultado direto dessas experiências simuladas, embora a maioria tenha informado que os jogos não alteraram sua relação com as apostas.

Um levantamento longitudinal com 1.178 estudantes do norte da Alemanha também encontrou uma associação entre jogos de azar simulados e a entrada posterior em apostas com dinheiro real. Os próprios resultados não significam que a simulação tenha sido a única causa do comportamento.

Os estudos sobre cassinos virtuais levantam uma preocupação, mas não provam que compras falsas e entregas imaginárias produzirão os mesmos efeitos.

A comparação possui limites evidentes. Um aplicativo que simula uma roleta se aproxima diretamente de uma atividade de aposta. Já um delivery fictício não envolve sorte, promessa de prêmio financeiro ou possibilidade de recuperar dinheiro.

Por isso, seria incorreto usar pesquisas sobre jogos de azar para afirmar que os “Aplicativos de dopamina” são perigosos. Os estudos apenas mostram que atividades simuladas podem, em determinados contextos, influenciar comportamentos reais.

Novas pesquisas precisarão analisar quem utiliza essas plataformas, com qual frequência e por quais motivos. Também será necessário investigar se elas ajudam a evitar gastos ou se funcionam como anúncios sofisticados que aumentam o desejo por consumo.

Quando a diversão gratuita também produz dados

O fato de uma plataforma não cobrar dinheiro não significa que sua utilização não possua valor comercial.

Sites gratuitos frequentemente utilizam publicidade para financiar sua operação. Cookies e outras tecnologias podem registrar informações sobre navegação, páginas acessadas, interações e interesses aparentes. Esses dados ajudam anunciantes a decidir quais propagandas serão exibidas para cada visitante.

Uma pessoa pode escolher uma jaqueta imaginária, um lanche fictício ou uma viagem que nunca será realizada. Mesmo assim, essas escolhas podem indicar preferências sobre roupas, alimentos, marcas, preços e destinos.

Isso não significa que toda seleção feita em um carrinho falso será automaticamente enviada para uma empresa específica. O funcionamento depende das tecnologias adotadas por cada site, de sua política de privacidade e das permissões concedidas pelo usuário.

No caso do FoodNeverComes, a plataforma afirma que não solicita conta, dados reais de pagamento ou informações de cartão. Isso reduz alguns riscos importantes, mas não substitui a necessidade de observar cookies, ferramentas de análise e publicidade presentes na página.

Antes de utilizar qualquer serviço desse tipo, vale evitar o preenchimento de endereços verdadeiros, documentos, senhas ou dados bancários. Também é recomendável verificar a política de privacidade e recusar publicidade personalizada quando essa possibilidade estiver disponível.

Os “Aplicativos de dopamina” representam uma curiosa transformação do consumo digital. Eles mostram que, em alguns casos, o prazer não está somente em possuir um objeto ou receber uma refeição. A busca, a escolha e a expectativa já podem formar uma experiência própria.

Para algumas pessoas, essas plataformas poderão funcionar como uma brincadeira inofensiva ou até como uma maneira de evitar uma compra impulsiva. Para outras, poderão manter a mente presa ao consumo, fortalecer desejos ou oferecer informações úteis a anunciantes.

Por enquanto, a conclusão mais honesta é que a tendência chegou antes das respostas científicas. Os pedidos são falsos, os produtos não existem e as entregas nunca chegam. As emoções, os hábitos e os dados deixados pelo caminho, porém, podem ser bastante reais.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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