Durante décadas, pensar no uso cotidiano de substâncias nos Estados Unidos provavelmente remetia a duas cenas bastante conhecidas. De um lado, uma pessoa acendendo o primeiro cigarro logo pela manhã. Do outro, alguém encerrando o dia com uma bebida alcoólica nas mãos.
Esse retrato, porém, está mudando.
A maconha passou a reunir mais usuários diários ou quase diários do que o cigarro, o álcool e os cigarros eletrônicos. A transformação aparece na Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde de 2025, conhecida pela sigla NSDUH e realizada pelo governo norte-americano.
De acordo com o levantamento, aproximadamente 21,4 milhões de pessoas com 12 anos ou mais disseram ter consumido maconha em pelo menos 20 dos 30 dias anteriores à pesquisa. Pelo mesmo critério de frequência, cerca de 17,2 milhões consumiram bebidas alcoólicas e 17,5 milhões utilizaram cigarros eletrônicos. O número de fumantes diários de cigarros tradicionais ficou em aproximadamente 19,9 milhões.
Os resultados revelam uma mudança histórica no consumo diário nos Estados Unidos. Isso não significa, entretanto, que a maconha tenha se tornado a substância mais consumida pelos americanos ou que cannabis, álcool, nicotina e tabaco apresentem os mesmos efeitos e riscos.
O que os números indicam é algo mais específico. Embora menos pessoas usem maconha do que álcool, uma parcela muito maior dos consumidores de cannabis faz uso da substância praticamente todos os dias.

A nova rotina americana não representa apenas mais pessoas fumando maconha, mas a presença da cannabis em diferentes produtos, idades e situações cotidianas
O que mudou no consumo diário nos Estados Unidos?
O álcool continua sendo, com grande vantagem, a substância mais difundida entre as opções avaliadas. Aproximadamente 129 milhões de americanos disseram ter consumido alguma bebida alcoólica no mês anterior à pesquisa. No mesmo período, cerca de 43,8 milhões utilizaram maconha.
A diferença surge quando os pesquisadores analisam a frequência.
Apenas cerca de 13% das pessoas que beberam álcool fizeram isso em pelo menos 20 dias do mês. Entre os usuários de maconha, a proporção de consumidores diários ou quase diários ficou entre 40% e 50%.
Isso significa que o grupo que consome álcool é muito maior, mas grande parte bebe apenas ocasionalmente, como nos finais de semana, em festas, encontros ou eventos sociais. O público que utiliza cannabis é menor, porém concentra uma quantidade elevada de pessoas que incorporaram o produto à rotina.
O álcool ainda alcança muito mais americanos, mas a maconha passou a ocupar mais dias do mês na vida de milhões de usuários.
A mudança não aconteceu repentinamente. Pesquisas anteriores já apontavam que o consumo frequente de cannabis vinha crescendo enquanto o uso diário de álcool e cigarro diminuía.
Em 2022, o número estimado de usuários diários ou quase diários de maconha já havia superado o de pessoas que bebiam álcool com a mesma frequência. Os dados de 2025 ampliam essa transformação e acrescentam um novo marco: a quantidade de usuários frequentes de cannabis também ultrapassou o total de fumantes diários.
Desde 2021, o número de pessoas que consomem maconha diariamente ou quase diariamente cresceu aproximadamente 21%. No mesmo período, o consumo diário de cigarros caiu cerca de 28%, enquanto o uso frequente de bebidas alcoólicas recuou aproximadamente 24%.
Os números contam duas histórias diferentes. O cigarro tradicional vem perdendo espaço após décadas de campanhas de conscientização, restrições à publicidade, aumento de impostos e proibição do fumo em ambientes fechados. A maconha percorreu o caminho oposto, com maior aceitação social, expansão da legalização e surgimento de novos produtos.
“Uso diário” não significa exatamente a mesma coisa
Antes de comparar os resultados, é necessário compreender uma diferença metodológica importante.
A pesquisa considera usuários diários ou quase diários de maconha e álcool aqueles que relataram consumo em pelo menos 20 dos últimos 30 dias. Para o cigarro tradicional, a categoria de fumante diário inclui pessoas que disseram ter fumado em todos os 30 dias anteriores à entrevista.
Portanto, os 21,4 milhões de usuários frequentes de cannabis não estão sendo comparados diretamente com pessoas que fumaram cigarro em apenas 20 dias. O grupo do tabaco é formado por participantes que declararam fumar diariamente durante todo o mês.
Essa diferença não anula a mudança observada, mas exige cuidado na interpretação. A pesquisa demonstra que o grupo de consumidores muito frequentes de cannabis se tornou numericamente maior. Ela não afirma que todas essas pessoas utilizam a mesma quantidade, apresentam dependência ou enfrentam consequências semelhantes.
Também é incorreto imaginar que todos fumam maconha. O levantamento considera diferentes formas de consumo da cannabis, como cigarros, cachimbos, vaporizadores, concentrados, óleos, comprimidos, alimentos e bebidas.
Fumar ainda está entre as formas mais relatadas, mas produtos comestíveis e vaporizadores ganharam espaço. Uma mesma pessoa também pode utilizar mais de um método, fumando em uma ocasião e consumindo alimentos com cannabis em outra.
Por que o uso frequente de maconha está crescendo?
A expansão da legalização provavelmente faz parte da explicação. Ao longo dos últimos anos, diversos estados americanos autorizaram o uso medicinal ou recreativo da cannabis, criando mercados regulamentados, lojas especializadas e sistemas de produção em grande escala.
Esse processo tornou os produtos mais acessíveis em várias regiões e reduziu parte do estigma social associado à maconha. A substância deixou de aparecer apenas como uma droga proibida e passou a ser divulgada em contextos relacionados a relaxamento, recreação, redução de dores, ansiedade e auxílio para dormir.
A pesquisa nacional, porém, não permite concluir que a legalização seja responsável por todo o crescimento. O estudo identifica quantas pessoas utilizam as substâncias e com qual frequência, mas não determina exatamente por que cada participante começou a consumir mais ou menos.
A mudança no consumo diário nos Estados Unidos também não está restrita aos jovens. Embora a redução do consumo de álcool entre integrantes da Geração Z seja bastante discutida, o maior crescimento do uso frequente de cannabis ocorreu entre adultos com mais de 26 anos.
Isso indica que não estamos diante apenas de uma tendência passageira entre adolescentes e jovens adultos. Pessoas que cresceram em períodos de proibição mais rígida também passaram a utilizar cannabis medicinal ou recreativa com maior frequência.
Outro fator importante é a variedade de produtos disponíveis. O consumidor não precisa mais necessariamente fumar e lidar com o cheiro característico da planta. Mercados legalizados oferecem doces, chocolates, bebidas, óleos, cápsulas, vaporizadores e concentrados com diferentes níveis de THC, substância responsável pelos principais efeitos intoxicantes da cannabis.
Essa diversidade facilita a entrada da maconha em diferentes situações cotidianas, mas também cria novos riscos. Alimentos com cannabis, por exemplo, podem demorar mais para fazer efeito. Uma pessoa pode ingerir uma segunda porção antes de sentir a primeira, aumentando a possibilidade de consumo excessivo.
A nova rotina americana não representa apenas mais pessoas fumando maconha, mas a presença da cannabis em diferentes produtos, idades e situações cotidianas.

Embora menos pessoas usem maconha do que álcool, uma parcela muito maior dos consumidores de cannabis faz uso da substância praticamente todos os dias
O crescimento significa que a maconha é segura?
Os resultados não devem ser usados para declarar que a cannabis é inofensiva. Também não permitem concluir automaticamente que ela seja mais perigosa do que o álcool ou o tabaco.
A pesquisa mede a frequência e a quantidade de usuários, não estabelece uma classificação definitiva sobre qual substância oferece mais riscos. Cada produto possui efeitos próprios, formas diferentes de consumo e consequências que variam conforme idade, quantidade, frequência e condição de saúde.
O uso diário ou quase diário de maconha merece atenção. Pesquisas de saúde pública indicam que uma parcela dos consumidores pode desenvolver transtorno por uso de cannabis, situação caracterizada pela dificuldade de controlar ou interromper o consumo mesmo diante de consequências negativas.
O risco tende a ser maior entre pessoas que começam a utilizar a substância durante a adolescência e entre aquelas que fazem uso frequente. O consumo intenso também pode afetar memória, atenção, coordenação e capacidade de aprendizagem, especialmente quando iniciado antes do desenvolvimento completo do cérebro.
Produtos com concentrações elevadas de THC podem aumentar as chances de intoxicação intensa, ansiedade, paranoia e outros efeitos indesejados. Em pessoas predispostas, o uso frequente também pode estar relacionado ao agravamento de determinados problemas de saúde mental.
A forma de consumo modifica parte dos riscos. Fumar cannabis expõe os pulmões a substâncias tóxicas e irritantes presentes na fumaça. Os comestíveis evitam a combustão, mas podem favorecer ingestões excessivas ou acidentais por demorarem mais para produzir efeitos.
Ao mesmo tempo, os conhecidos danos do cigarro e do consumo excessivo de álcool não desaparecem porque seus números estão diminuindo. O levantamento mostra uma transformação nos hábitos da população, e não uma competição para descobrir qual substância seria melhor.
A pesquisa também possui limitações. Os dados dependem das respostas dos participantes, que podem omitir informações, exagerar ou não se lembrar com precisão de quantos dias utilizaram determinada substância.
Mesmo com essas ressalvas, o resultado é significativo. Durante décadas, o cigarro foi um dos principais símbolos do consumo cotidiano nos Estados Unidos, enquanto o álcool ocupava um espaço central na vida social. A cannabis agora começa a reunir características desses dois padrões.
Ela ainda possui menos consumidores que o álcool, mas uma parcela muito maior desses usuários faz uso frequente. Ao mesmo tempo, a maconha aparece em formatos variados, que permitem sua presença em ambientes onde o cigarro tradicional seria mais difícil de esconder ou utilizar.
O consumo diário nos Estados Unidos está mudando. A principal pergunta, entretanto, não deve ser apenas qual substância ficou em primeiro lugar. O desafio para pesquisadores, autoridades e famílias será compreender o que acontece quando produtos de cannabis mais fortes, acessíveis e variados passam a integrar a rotina de milhões de pessoas.
A nova pesquisa não encerra o debate sobre legalização, liberdade individual ou saúde pública. Ela mostra, porém, que a transformação cultural já aconteceu em grande escala.
Para uma parcela dos americanos, a maconha deixou de ser um consumo ocasional, escondido ou restrito aos finais de semana. Ela passou a ocupar um espaço constante na vida cotidiana, superando até hábitos que durante décadas pareceram inseparáveis da cultura dos Estados Unidos.