Por que o QI da população diminuiu em alguns testes? Durante quase todo o século XX, pesquisadores observaram um fenômeno aparentemente otimista. Quando pessoas de gerações diferentes realizavam testes semelhantes na mesma idade, os participantes mais jovens geralmente alcançavam resultados melhores do que aqueles obtidos por seus pais e avós.
Era como se a humanidade estivesse ganhando alguns pontos de inteligência a cada década.
Esse fenômeno ficou conhecido como efeito Flynn, em homenagem ao pesquisador James Flynn. Estudos realizados em diversos países mostraram que as pontuações em testes cognitivos aumentaram durante boa parte do século passado, especialmente em exercícios relacionados ao raciocínio abstrato, à identificação de padrões e à resolução de problemas.
Uma grande análise publicada em 2015 reuniu quase quatro milhões de participantes de 31 países e confirmou que esse crescimento ocorreu durante boa parte do período entre 1909 e 2013. O ritmo variava conforme a região e o tipo de habilidade avaliada, mas a tendência geral era positiva.
Em 2023, porém, pesquisadores ligados à Universidade Northwestern encontraram um movimento diferente. Ao analisar resultados de centenas de milhares de adultos, eles observaram que as pontuações diminuíram em três das quatro áreas cognitivas investigadas.
A descoberta ganhou manchetes afirmando que o QI da população diminuiu pela primeira vez em quase 100 anos. A frase chama atenção, mas precisa ser interpretada com bastante cuidado.
A pesquisa não demonstrou que o cérebro humano esteja perdendo capacidade. Também não provou que toda a população dos Estados Unidos tenha se tornado menos inteligente. O estudo identificou uma redução no desempenho de uma grande amostra voluntária em determinados exercícios realizados pela internet.
O estudo mostrou que algumas pontuações caíram, mas obter resultados menores em certos testes não significa necessariamente possuir menos inteligência.

Se algumas pontuações diminuíram enquanto uma habilidade espacial melhorou, talvez o perfil cognitivo esteja mudando, e não simplesmente piorando
O QI da população diminuiu nos Estados Unidos?
Para investigar se o efeito Flynn ainda poderia ser observado no país, os pesquisadores Elizabeth Dworak, William Revelle e David Condon analisaram as respostas de 394.378 adultos que declararam ter crescido nos Estados Unidos.
Os participantes tinham entre 18 e 90 anos e realizaram os testes entre abril de 2006 e dezembro de 2018. Os dados vieram do Synthetic Aperture Personality Assessment Project, conhecido como SAPA Project, uma avaliação gratuita disponível na internet.
O projeto era divulgado principalmente como um teste de personalidade, mas também incluía exercícios destinados a medir diferentes formas de capacidade cognitiva.
É importante destacar que os pesquisadores não acompanharam as mesmas pessoas durante 13 anos. O trabalho foi transversal, comparando grupos diferentes que acessaram o teste em momentos distintos.
Essa característica pode influenciar os resultados. As pessoas que encontraram a avaliação em 2006 talvez tenham chegado por universidades, páginas acadêmicas ou indicações de professores. Anos depois, o projeto passou a circular de maneira mais ampla em redes sociais, veículos de comunicação e mecanismos de busca.
Assim, o grupo de 2018 poderia ter características diferentes daquele que participou no início da pesquisa. Mesmo que todos declarassem ter crescido nos Estados Unidos, diferenças de motivação, escolaridade, idade e interesse pelo teste poderiam alterar as pontuações.
Os pesquisadores utilizaram questões do International Cognitive Ability Resource, um banco aberto de exercícios desenvolvido para avaliar diferentes tipos de raciocínio.
Entre 2006 e 2018, o teste reuniu 35 questões distribuídas em três áreas principais. A primeira era o raciocínio matricial, formado por exercícios visuais nos quais o participante precisava identificar a figura que completava corretamente um padrão.
A segunda área apresentava sequências de letras e números. O desafio consistia em descobrir a lógica utilizada e prever qual elemento apareceria em seguida.
O raciocínio verbal envolvia vocabulário, conhecimentos gerais, compreensão de conceitos e resolução de problemas apresentados por meio de palavras.
A partir de 2011, a avaliação passou a incluir exercícios de rotação tridimensional. Nessas tarefas, a pessoa precisava imaginar como determinado objeto ficaria depois de ser girado em diferentes direções.
Quais habilidades apresentaram queda?
Os resultados não apontaram uma redução uniforme em todas as capacidades.
As pontuações gerais, formadas pela combinação de diferentes exercícios, ficaram progressivamente menores nas amostras mais recentes. A queda também apareceu nos testes de raciocínio matricial e nas sequências de letras e números.
O raciocínio verbal apresentou uma tendência predominantemente negativa, embora a redução tenha sido mais fraca em algumas análises.
Por outro lado, o desempenho nos exercícios de rotação tridimensional aumentou entre 2011 e 2018.
Essa diferença é uma das partes mais importantes da pesquisa. Caso todas as habilidades tivessem piorado ao mesmo tempo, seria mais fácil defender a existência de um declínio cognitivo generalizado. Mas não foi isso que aconteceu.
Enquanto os participantes mais recentes tiveram mais dificuldade em algumas tarefas de lógica, linguagem e reconhecimento de padrões, demonstraram maior facilidade para manipular objetos mentalmente no espaço.
As quedas apareceram entre homens e mulheres, diferentes faixas etárias e variados níveis de escolaridade. Em várias análises, as reduções mais acentuadas foram encontradas entre adultos de 18 a 22 anos e pessoas que não haviam concluído um curso superior de quatro anos.
Curiosamente, o nível médio de escolaridade da amostra aumentou ao longo do período. Mesmo assim, os resultados de algumas habilidades cognitivas diminuíram.
Isso indica que permanecer mais tempo na escola não garante, sozinho, melhora em todos os tipos de raciocínio. O conteúdo ensinado, a qualidade da educação, os exercícios praticados e as habilidades valorizadas pela sociedade também podem influenciar o desempenho.
Se algumas pontuações diminuíram enquanto uma habilidade espacial melhorou, talvez o perfil cognitivo esteja mudando, e não simplesmente piorando.
Por que o QI da população diminuiu em alguns testes?
O estudo não investigou diretamente as causas. Portanto, não é correto afirmar que celulares, redes sociais, videogames ou qualquer outro elemento da vida moderna sejam os responsáveis pelos resultados.
A própria Elizabeth Dworak alertou que as descobertas não significam necessariamente que a capacidade mental dos americanos tenha diminuído. Os participantes podem ter se tornado menos familiarizados com determinados exercícios, menos motivados para responder ou simplesmente menos treinados naquelas tarefas.
Como o SAPA Project era divulgado principalmente como uma avaliação de personalidade, alguns voluntários talvez tenham demonstrado mais interesse nas perguntas sobre comportamento, temperamento e emoções do que nos exercícios de lógica.
Uma pessoa que acessa uma página para descobrir características de sua personalidade pode perder a paciência ao encontrar sequências numéricas ou padrões abstratos. Nesse caso, uma pontuação baixa pode refletir pressa, cansaço ou falta de concentração, e não uma capacidade intelectual menor.
Mudanças na educação também aparecem entre as hipóteses. As escolas podem estar dedicando menos tempo a determinados exercícios de vocabulário, raciocínio abstrato ou resolução prolongada de problemas.
Ao mesmo tempo, a vida digital exige outras competências. Navegar por interfaces, interpretar imagens rapidamente, localizar informações e compreender ambientes tridimensionais são atividades muito mais comuns atualmente do que eram no início do século XX.
A melhora nos testes de rotação tridimensional pode estar relacionada à maior exposição a jogos eletrônicos, mapas digitais, programas de modelagem e ambientes virtuais. No entanto, essa possibilidade não foi comprovada pela pesquisa.
A tecnologia apresenta uma contradição interessante. O consumo constante de conteúdos curtos e notificações pode prejudicar a concentração prolongada. Por outro lado, jogos e ferramentas digitais podem estimular percepção espacial, leitura visual e tomada rápida de decisões.
O estudo não permite determinar qual dessas influências possui maior peso.
Também existe a possibilidade de que a sociedade esteja valorizando habilidades diferentes daquelas medidas pelos testes tradicionais de inteligência.
Durante o século XX, a expansão da educação formal e a necessidade crescente de trabalhar com conceitos abstratos podem ter favorecido o desempenho nesses exercícios. Atualmente, competências como localizar informações, alternar entre tarefas, interpretar interfaces e compreender imagens recebem estímulos mais frequentes.
Nesse cenário, dizer que o QI da população diminuiu poderia representar uma simplificação. Parte da queda pode refletir uma transformação no conjunto de habilidades mais utilizado pela população.

O estudo mostrou que algumas pontuações caíram, mas obter resultados menores em certos testes não significa necessariamente possuir menos inteligência
Foi realmente a primeira queda em 100 anos?
Não.
A afirmação surgiu porque o efeito Flynn descreveu um crescimento prolongado das pontuações durante boa parte do século XX. No entanto, pesquisas anteriores já haviam identificado estagnação ou declínio em países como Noruega, Dinamarca, Finlândia e França.
Em 2018, um estudo analisou dados de homens noruegueses nascidos entre 1962 e 1991. Os pesquisadores encontraram primeiro um crescimento e, posteriormente, uma reversão das pontuações.
O mesmo padrão apareceu quando irmãos da mesma família foram comparados. Isso enfraqueceu explicações baseadas em mudanças genéticas e fortaleceu a possibilidade de que fatores ambientais fossem responsáveis tanto pelo aumento quanto pela queda.
O diferencial da pesquisa da Northwestern foi apresentar evidências de um possível efeito Flynn reverso em uma amostra muito grande de adultos norte-americanos.
Mesmo assim, a amostra não representa perfeitamente a população dos Estados Unidos.
A participação era voluntária e ocorria pela internet. Pessoas interessadas em psicologia e testes de personalidade tinham maior probabilidade de encontrar o projeto. Cerca de 65% da amostra era formada por mulheres, e diferentes grupos etários e educacionais não apareciam necessariamente nas mesmas proporções encontradas na população nacional.
O número de participantes também aumentou nos últimos anos da pesquisa. A idade e a escolaridade médias dos voluntários mudaram, e a maneira como eles encontravam o teste provavelmente também se transformou.
Os pesquisadores utilizaram métodos estatísticos para controlar parte dessas diferenças, mas não puderam eliminar completamente todas as variações entre os grupos.
Por isso, a formulação mais correta não é afirmar de maneira definitiva que o QI da população diminuiu pela primeira vez em 100 anos.
O estudo revelou que adultos norte-americanos participantes de uma avaliação online obtiveram, entre 2006 e 2018, resultados progressivamente menores em determinadas tarefas cognitivas. Ao mesmo tempo, alcançaram resultados melhores em uma habilidade espacial específica.
Essa conclusão é menos dramática do que as manchetes, mas talvez seja mais interessante.
Durante décadas, imaginamos a inteligência como uma linha que avançava continuamente. A pesquisa sugere que as capacidades humanas podem se desenvolver em direções diferentes conforme a educação, a tecnologia, o trabalho e a cultura passam a exigir novas competências.
Talvez algumas habilidades estejam sendo menos praticadas. Talvez os testes tradicionais estejam captando apenas uma parte do que o cérebro moderno aprendeu a fazer. Também é possível que problemas educacionais, sociais ou de concentração estejam contribuindo para uma queda verdadeira em determinadas áreas.
Ainda não existe uma resposta definitiva.
A pesquisa não prova que a população esteja entrando em uma era de menor inteligência. Ela mostra que o efeito Flynn não é uma regra permanente e que o ambiente pode alterar o desempenho cognitivo em períodos relativamente curtos.
A questão que permanece é mais complexa do que qualquer manchete: o QI da população diminuiu porque estamos perdendo determinadas capacidades ou porque o mundo atual está treinando o cérebro para tarefas diferentes daquelas valorizadas no século passado?