Somos a última geração a ver vaga-lumes? Por que eles estão sumindo?

Somos a última geração a ver vaga-lumes? Por que eles estão sumindo?

A mesma luz que ilumina ruas, casas e jardins durante a noite pode atrapalhar a comunicação amorosa dos vaga-lumes.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Quem passou parte da infância em uma cidade pequena, sítio ou região com bastante vegetação talvez tenha uma lembrança difícil de reproduzir em fotografias: dezenas de pequenos pontos verdes e amarelos piscando silenciosamente no escuro.

Eles apareciam no quintal, perto de córregos, entre arbustos ou sobre a grama depois que o Sol desaparecia.

E então muita gente cresceu e começou a fazer a mesma pergunta: para onde foram os vaga-lumes?

A sensação não é apenas nostalgia.

Pesquisadores vêm alertando há anos que diferentes espécies de vaga-lumes enfrentam uma combinação perigosa de perda e degradação de habitat, iluminação artificial noturna e exposição a pesticidas. Uma pesquisa internacional publicada na revista científica BioScience em 2020 colocou justamente esses três fatores entre as ameaças consideradas mais importantes por especialistas de diferentes regiões do planeta.

Isso não significa que todos os vaga-lumes estejam caminhando inevitavelmente para a extinção.

Existem milhares de espécies, distribuídas por ambientes muito diferentes, e ainda faltam dados de longo prazo para muitas delas. Uma revisão científica publicada em 2024 destacou justamente que o conhecimento sobre tendências populacionais continua desigual, apesar das evidências crescentes de ameaça para diferentes espécies.

No Brasil, a discussão ganha uma dimensão especial.

Uma pesquisa sobre coleópteros bioluminescentes registra aproximadamente 500 espécies descritas no país, distribuídas principalmente entre as famílias Lampyridae, Phengodidae e Elateridae. O estudo aponta o Brasil como detentor da maior diversidade conhecida desse grupo de besouros bioluminescentes.

É um patrimônio natural que literalmente acende depois que anoitece.

Quando os vaga-lumes desaparecem de uma paisagem, não perdemos apenas pequenas luzes no escuro. Podemos estar observando o efeito de mudanças muito maiores acontecendo naquele ambiente.

Reduzir iluminação externa desnecessária é uma das medidas indicadas por especialistas em conservação

Reduzir iluminação externa desnecessária é uma das medidas indicadas por especialistas em conservação

Por que os vaga-lumes estão ficando mais raros?

Para entender o problema, primeiro é preciso esquecer por alguns minutos o inseto adulto voando e piscando.

Grande parte da vida de muitas espécies acontece praticamente escondida dos nossos olhos.

As larvas podem viver no solo, em meio à matéria orgânica, sob folhas, em ambientes úmidos ou próximas de cursos d’água. Dependendo da espécie, essa fase pode durar muito mais do que o período relativamente curto em que encontramos adultos brilhando durante a noite.

É justamente aí que começa a primeira grande ameaça.

Quando uma floresta é derrubada, um terreno úmido é drenado, um córrego é alterado ou a vegetação de determinada área desaparece, não é apenas o cenário visível que muda. Temperatura, umidade, disponibilidade de alimento e estrutura do solo também podem ser modificadas.

O estudo internacional liderado por pesquisadores ligados à Universidade Tufts identificou a perda de habitat como a ameaça mais frequentemente apontada pelos especialistas consultados.

Em determinadas espécies, o problema pode ser ainda maior porque elas dependem de ambientes extremamente específicos.

Uma população adaptada a margens de rios, manguezais ou florestas úmidas pode simplesmente não encontrar outro local adequado quando aquele habitat desaparece.

Existe ainda a agricultura intensiva.

Pesticidas aplicados contra insetos considerados pragas não possuem uma placa dizendo quais espécies devem atingir. Os compostos podem alcançar organismos que não eram o alvo original, diretamente ou através do solo, da água e da cadeia alimentar.

Como muitas larvas de vaga-lumes permanecem próximas do solo e da vegetação por longos períodos, pesquisadores consideram o uso de pesticidas uma ameaça relevante para sua conservação.

O problema não termina quando o Sol se põe.

Na verdade, é nesse momento que surge uma ameaça particularmente estranha.

Luz.

A luz que nos ajuda pode atrapalhar os vaga-lumes

Uma rua iluminada parece algo completamente normal para nós.

Para um vaga-lume tentando encontrar um parceiro, pode ser como tentar conversar enquanto dezenas de pessoas gritam ao redor.

A bioluminescência não é apenas uma decoração bonita produzida pelo inseto.

Em muitas espécies, ela funciona como um sistema de comunicação sexual.

Machos voam emitindo determinados padrões de flashes. Fêmeas respondem com sinais luminosos próprios. A frequência, a duração e o intervalo entre essas piscadas ajudam indivíduos da mesma espécie a se reconhecerem.

É praticamente um diálogo feito de luz.

Quando postes, fachadas, refletores, anúncios, jardins e residências iluminam o ambiente durante toda a noite, o contraste dos sinais naturais diminui.

Experimentos já demonstraram consequências concretas.

Um estudo publicado em 2016 encontrou redução no comportamento de corte e no sucesso de acasalamento do vaga-lume Photinus pyralis em ambientes submetidos à iluminação artificial noturna.

Outra pesquisa, publicada em 2022, mostrou que a luz artificial pode reduzir o sucesso reprodutivo das fêmeas e que o tamanho desse impacto depende de fatores como intensidade e contexto da iluminação.

Para os vaga-lumes, portanto, nossa capacidade de transformar a noite em dia pode produzir uma espécie de interferência nas mensagens amorosas.

Se o macho não encontra a fêmea, o problema não termina naquela noite.

Há menos acasalamentos.

Menos ovos.

Menos larvas.

E potencialmente menos adultos brilhando na geração seguinte.

No Brasil, pesquisadores já encontraram sinais preocupantes relacionados justamente a essa transformação das noites.

Um estudo sobre a espécie brasileira Amydetes fastigiata, da Mata Atlântica, concluiu que a poluição luminosa foi o estressor que apresentou o crescimento mais evidente dentro da distribuição potencial analisada da espécie, aumentando em extensão e intensidade ao longo do tempo.

Isso é particularmente relevante porque a Mata Atlântica é considerada um dos grandes centros de diversidade de vaga-lumes no planeta. Pesquisadores brasileiros vêm construindo bancos de dados específicos para mapear as espécies que vivem nesse hotspot e identificar áreas prioritárias para conservação.

Quando os vagalumes desaparecem de uma paisagem, não perdemos apenas pequenas luzes no escuro. Podemos estar observando o efeito de mudanças muito maiores acontecendo naquele ambiente.

Quando os vaga-lumes desaparecem de uma paisagem, não perdemos apenas pequenas luzes no escuro. Podemos estar observando o efeito de mudanças muito maiores acontecendo

Brasil é um dos grandes países dos vaga-lumes

A diversidade brasileira vai muito além dos pequenos pontos de luz que costumamos imaginar.

Nem todos os besouros bioluminescentes produzem exatamente o mesmo tipo de sinal.

Algumas espécies piscam.

Outras mantêm o brilho durante períodos maiores.

Existem diferenças de intensidade, frequência e até tonalidade da luz.

Uma pesquisa realizada na Estação Biológica de Boraceia, em Salesópolis, São Paulo, encontrou 39 espécies de coleópteros bioluminescentes em uma única área, sendo 30 delas da família Lampyridae. O estudo destacou que grande parte dessa diversidade estava associada à floresta ombrófila densa e às suas bordas.

A estimativa de cerca de 500 espécies brasileiras também precisa ser interpretada corretamente.

O número, citado na literatura científica, refere-se aos coleópteros bioluminescentes descritos no país, reunindo vaga-lumes e outros grupos capazes de produzir luz. Quando o estudo foi publicado, isso representava cerca de 23% das espécies descritas mundialmente nesse conjunto.

A própria quantidade conhecida pode ser apenas parte da história.

A pesquisa taxonômica brasileira ainda encontra espécies novas.

Em trabalhos envolvendo pesquisadores ligados à UFRJ, por exemplo, três novas espécies de vaga-lumes da Mata Atlântica foram descritas cientificamente a partir de exemplares encontrados na Ilha Grande e no Parque Estadual da Pedra Branca, no Rio de Janeiro.

Isso cria uma situação curiosa e preocupante.

Ainda estamos descobrindo quais vaga-lumes existem ao mesmo tempo em que transformamos os ambientes onde eles vivem.

A bióloga Stephanie Vaz, que desenvolveu pesquisas na UFRJ e atua na conservação de vaga-lumes, estuda justamente os efeitos de fatores como desmatamento, poluição das águas, agrotóxicos e iluminação artificial sobre as espécies brasileiras.

Em 2025, o Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRJ destacou que pesquisas lideradas pela cientista projetavam intensificação das ameaças para aproximadamente metade das espécies avaliadas caso as pressões ambientais continuassem avançando.

Isso não significa que metade de todos os vaga-lumes brasileiros desaparecerá em uma data específica.

A projeção se refere às espécies avaliadas dentro dos modelos e cenários estudados.

Essa diferença é importante porque manchetes muito dramáticas podem transformar um alerta científico real em uma previsão absoluta que o estudo não fez.

Ainda assim, o cenário merece atenção.

O Brasil pode possuir uma das maiores diversidades de vaga-lumes do mundo e, ao mesmo tempo, conhecer muito pouco sobre o estado de conservação de várias dessas espécies.

O que podemos fazer para trazer a escuridão de volta?

Talvez uma das partes mais interessantes dessa história seja perceber que nem todas as soluções exigem tecnologias extraordinárias.

Em alguns casos, ajudar vaga-lumes significa simplesmente deixar a noite continuar sendo noite.

Reduzir iluminação externa desnecessária é uma das medidas indicadas por especialistas em conservação. Isso inclui apagar luzes quando elas não são necessárias, evitar iluminar vegetação e cursos d’água durante toda a madrugada e direcionar luminárias apenas para os locais onde a luz realmente precisa chegar.

A cor e a intensidade da iluminação também fazem diferença, embora o efeito varie de acordo com a espécie.

Outra medida é preservar os ambientes onde as larvas vivem.

Folhas secas espalhadas pelo solo, matéria orgânica, vegetação, áreas úmidas e margens naturais de corpos d’água podem parecer apenas partes comuns de um terreno. Para diferentes espécies, são componentes essenciais do ciclo de vida.

Evitar o uso indiscriminado de inseticidas também reduz uma pressão importante.

E existe até uma mudança cultural envolvida nisso.

Durante décadas, cidades foram ensinadas a associar iluminação intensa a progresso, beleza e segurança. Jardins recebem luzes decorativas. Árvores são iluminadas de baixo para cima. Fachadas permanecem acesas durante a madrugada inteira.

Pouco pensamos sobre aquilo que acontece com as criaturas cuja vida evoluiu dependendo de noites escuras.

Os vaga-lumes são um exemplo particularmente visual desse conflito.

Nós instalamos luz para enxergar melhor.

E, ao fazer isso, podemos tornar mais difícil enxergar justamente os animais que produzem sua própria luz.

Há ainda uma razão ecológica para se preocupar.

Muitas larvas de Lampyridae são predadoras e consomem pequenos invertebrados. Além disso, pesquisadores já sugeriram que determinados besouros bioluminescentes podem ser úteis como indicadores ambientais, justamente por sua sensibilidade às mudanças de habitat e à iluminação noturna.

Eles não existem apenas para produzir noites bonitas.

Fazem parte de ecossistemas complexos.

Talvez seja por isso que o desaparecimento desses pontos luminosos mexa tanto com quem se lembra deles.

Um animal grande desaparece e percebemos imediatamente.

A ausência de um pequeno inseto pode acontecer aos poucos.

Primeiro você vê dezenas.

Depois alguns.

Até chegar uma noite em que olha para o mesmo quintal e percebe que não existe mais nenhuma luz piscando entre as árvores.

É difícil apontar exatamente qual foi a última vez.

E esse talvez seja o aspecto mais inquietante do desaparecimento dos vaga-lumes.

O espetáculo pode ir diminuindo sem anúncio, sem barulho e sem que percebamos o momento exato em que começou a desaparecer.

A boa notícia é que a história ainda não terminou.

Há espécies sendo descobertas, populações sendo estudadas e pesquisadores identificando áreas prioritárias para proteção. Também sabemos cada vez mais sobre como iluminação artificial, mudanças no habitat e produtos químicos interferem no ciclo desses insetos.

Talvez a melhor maneira de garantir que as próximas gerações entendam por que alguém escreveu músicas, poemas e histórias sobre noites cheias de vaga-lumes seja relativamente simples.

Em alguns lugares, precisamos preservar a floresta.

Em outros, precisamos usar menos veneno.

E, de vez em quando, talvez precisemos apenas apagar a luz.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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