Imagine um gigantesco corredor de água quente se formando no Oceano Pacífico e, a milhares de quilômetros dali, alterando chuvas, temperaturas, plantações, rios e até o risco de enchentes no Brasil. É mais ou menos isso que torna o El Niño um dos fenômenos climáticos mais observados do planeta.
E os sinais para os próximos meses chamaram ainda mais atenção.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, atualizou suas projeções em 13 de agosto e agora calcula em 95% a probabilidade de o El Niño atingir a categoria de muito forte entre outubro e dezembro de 2026. Para o período entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, essa probabilidade permanece altíssima, em 90%.
Há outro número ainda mais impressionante. Segundo a NOAA, existe 69% de chance de o episódio entre outubro e dezembro atingir um nível considerado histórico, superando em intensidade os eventos anteriores da série de referência iniciada em 1950, considerando o índice RONI adotado pela agência.
Um El Niño muito forte não significa que cada região sofrerá necessariamente impactos extremos, mas aumenta a probabilidade de ocorrerem padrões climáticos associados ao fenômeno.
A própria NOAA faz essa ressalva. A força do El Niño não funciona como uma previsão automática de enchente, seca ou onda de calor em determinada cidade. Outros sistemas atmosféricos também entram nessa equação.

O El Niño aumenta as chances de certos extremos, mas não funciona como uma sentença meteorológica para cada região
Por que o El Niño está chamando tanta atenção em 2026?
O El Niño é uma das fases do fenômeno conhecido como El Niño Oscilação Sul, ou ENOS. Ele ocorre quando águas do Pacífico Equatorial ficam anormalmente aquecidas e esse aquecimento passa a interagir de forma persistente com a atmosfera.
Essa alteração aparentemente distante consegue reorganizar padrões de circulação atmosférica em enorme escala. Ventos mudam, áreas de chuva podem se deslocar e regiões inteiras passam a ter maior ou menor probabilidade de registrar determinadas condições meteorológicas.
Na atualização de agosto, a NOAA afirmou que o El Niño está se fortalecendo. Em julho, o índice tradicional da região Niño 3.4 estava 1,4 °C acima da média, enquanto a região Niño 3 registrava anomalia de 1,7 °C e a Niño 1+2 chegava a 2,9 °C. No Pacífico Equatorial oriental, algumas anomalias da temperatura da superfície do mar já ultrapassavam 2 °C.
Os sinais também aparecem abaixo da superfície. A NOAA registrou anomalias de temperatura de até 10 °C em determinadas áreas subsuperficiais do oceano. Ao mesmo tempo, alterações nos ventos e na distribuição de chuvas sobre o Pacífico mostram que oceano e atmosfera estão respondendo juntos ao fenômeno.
O que significa ter 95% de chance de um El Niño muito forte?
É importante entender o número corretamente. A projeção de 95% não significa 95% de chance de haver enchentes, secas ou ondas de calor em determinada região.
Ela representa a probabilidade de o El Niño alcançar a faixa classificada pela NOAA como muito forte durante o trimestre de outubro, novembro e dezembro de 2026. No sistema utilizado atualmente pela agência, essa categoria corresponde a valores iguais ou superiores a 2 °C no índice RONI.
Para esse mesmo trimestre, a previsão da NOAA distribui apenas 5% de probabilidade para a categoria forte e 95% para muito forte. Já entre novembro e janeiro, a chance de muito forte é de 90%. Depois disso, os modelos indicam uma redução gradual da intensidade ao longo de 2027.
O dado que talvez mais impressione é a possibilidade de um episódio histórico. Para outubro a dezembro, a NOAA estima em 69% a chance de o RONI alcançar pelo menos 2,5 °C, patamar que colocaria o episódio acima dos anteriores no registro utilizado pela agência desde 1950.
Isso não significa que o recorde já esteja confirmado. Previsões climáticas trabalham com probabilidades, e a evolução do fenômeno continuará sendo acompanhada mês a mês.
Como o El Niño pode afetar o Brasil?
Se o Pacífico está tão longe, por que brasileiros deveriam prestar atenção nisso? Porque o El Niño consegue modificar a circulação atmosférica sobre toda a América do Sul.
Historicamente, um dos sinais mais conhecidos aparece na Região Sul. Durante episódios de El Niño, aumenta a tendência de chuvas acima da média, principalmente na primavera, o que pode elevar o risco de precipitações intensas, cheias e problemas relacionados ao excesso de água.
No outro extremo do país, partes das regiões Norte e Nordeste tendem a enfrentar redução das precipitações. Dependendo da duração do fenômeno e de outros fatores oceânicos e atmosféricos, isso pode favorecer estiagens, menor umidade do solo e pressão sobre recursos hídricos.
Centro-Oeste e Sudeste possuem um comportamento mais variável. O INPE destaca que os efeitos sobre as chuvas nessas áreas não são tão uniformes quanto no Sul ou em partes do Norte e Nordeste. Temperaturas acima da média e períodos de calor intenso, entretanto, estão entre os efeitos que merecem atenção durante episódios fortes.
Agricultura, geração de energia, reservatórios, rios e prevenção de desastres também entram no radar. O INMET já destaca a necessidade de monitoramento contínuo diante da possibilidade de chuvas excessivas em algumas áreas e falta de precipitação em outras.

Um El Niño muito forte não significa que cada região sofrerá necessariamente impactos extremos, mas aumenta a probabilidade de ocorrerem padrões climáticos associados ao fenômeno
Um El Niño forte significa que teremos um verão extremo?
Não necessariamente.
Essa talvez seja uma das informações mais importantes para entender qualquer notícia sobre o El Niño. Fenômenos climáticos alteram probabilidades, mas não determinam sozinhos o tempo que fará em uma cidade específica daqui a semanas ou meses.
Um El Niño extremamente intenso pode favorecer determinados padrões, mas frentes frias, bloqueios atmosféricos, condições do Oceano Atlântico e outros sistemas continuam influenciando o clima brasileiro.
O El Niño aumenta as chances de certos extremos, mas não funciona como uma sentença meteorológica para cada região.
Existe ainda outro elemento impossível de ignorar: o fenômeno de 2026 acontece em um planeta cuja temperatura média já foi elevada pelas mudanças climáticas.
Pesquisadores do INPE ressaltam que o aquecimento global continua sendo o fator de longo prazo mais importante por trás do aumento dos extremos climáticos. O El Niño pode atuar como um fator adicional, potencializando temperaturas elevadas, chuvas intensas ou períodos de seca dependendo da região e da época do ano.
É por isso que os próximos meses deverão ser acompanhados com tanta atenção.
A atualização da NOAA não significa que uma catástrofe esteja determinada. Ela mostra, porém, que um dos principais reguladores naturais do clima mundial está ganhando força rapidamente e possui uma possibilidade considerável de atingir níveis raramente observados.
Se a projeção se confirmar, o El Niño de 2026 não será apenas mais um episódio do ciclo climático do Pacífico. Ele poderá se transformar em um importante teste para cidades, agricultura, sistemas de abastecimento e estruturas de prevenção de desastres em um mundo já submetido a temperaturas mais elevadas.
E pensar que tudo começa com uma faixa de água excepcionalmente quente do outro lado do planeta. Já imaginou isso?