Elon Musk diz que poupar dinheiro é inútil por conta do avanço das IAs

Elon Musk diz que poupar dinheiro é inútil por conta do avanço das IAs

Bilionário prevê que inteligência artificial tornará o trabalho opcional. Especialistas alertam que deixar de poupar continua sendo arriscado.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine chegar aos 65 anos e descobrir que o dinheiro guardado durante décadas perdeu a importância. Não porque tenha desaparecido ou sido consumido pela inflação, mas porque robôs e sistemas inteligentes passaram a produzir praticamente tudo aquilo de que as pessoas precisam. Moradia, alimentação, transporte, educação e atendimento médico seriam tão abundantes que trabalhar para sobreviver deixaria de fazer sentido.

Avanço das IAs pode tornar o trabalho opcional? Esse é o futuro imaginado por Elon Musk. Durante uma participação no podcast Moonshots with Peter Diamandis, o empresário afirmou que as pessoas não deveriam se preocupar em guardar dinheiro para a aposentadoria daqui a 10 ou 20 anos. Segundo ele, a poupança acumulada para essa fase da vida simplesmente não fará diferença.

A declaração parece contrariar um dos conselhos financeiros mais repetidos do mundo: comece a investir cedo, aproveite o efeito dos juros compostos e construa uma reserva para quando não puder ou não quiser mais trabalhar. Musk acredita, porém, que o avanço das IAs, combinado com a robótica e a geração de energia, modificará completamente essa lógica.

Na visão do empresário, máquinas inteligentes poderão fabricar produtos, prestar serviços e executar trabalhos em uma escala tão grande que a escassez econômica diminuirá drasticamente. Se tudo puder ser produzido em abundância e a um custo muito baixo, o dinheiro perderia parte de sua função e a aposentadoria, como conhecemos hoje, deixaria de existir.

A ideia é provocadora. Também é altamente especulativa.

O avanço tecnológico pode aumentar a quantidade de riqueza produzida, mas não determina sozinho como essa riqueza será distribuída.

Apostar todo o futuro pessoal em uma transformação tecnológica ainda incerta é um risco que poucos poderiam suportar.

Apostar todo o futuro pessoal em uma transformação tecnológica ainda incerta é um risco que poucos poderiam suportar

Como o avanço das IAs poderia tornar o trabalho opcional?

A previsão de Musk parte de um princípio econômico relativamente simples. Os preços estão relacionados, entre outros fatores, à disponibilidade dos produtos e aos custos necessários para produzi-los. Quando algo é raro, difícil de fabricar ou depende de muito trabalho humano, tende a custar mais. Quando pode ser produzido facilmente e em grande escala, costuma se tornar mais barato.

O avanço das IAs poderia reduzir custos ao automatizar tarefas intelectuais hoje realizadas por seres humanos. Sistemas inteligentes já conseguem analisar documentos, escrever programas, produzir imagens, atender clientes e auxiliar diagnósticos. Ao mesmo tempo, robôs humanoides poderiam levar essa automação para o mundo físico, trabalhando em fábricas, armazéns, hospitais, restaurantes e residências.

Musk imagina que essa combinação produzirá uma quantidade extraordinária de bens e serviços. Em vez de uma renda básica universal destinada apenas à sobrevivência, ele fala em uma espécie de “renda universal elevada”. Nesse cenário, todas as pessoas teriam acesso a produtos, moradia, educação, saúde e entretenimento sem depender necessariamente de um emprego tradicional.

A hipótese ajuda a entender por que o empresário considera inútil guardar dinheiro para a aposentadoria. Se o custo das necessidades básicas cair drasticamente e existir algum mecanismo de distribuição da riqueza produzida pelas máquinas, uma reserva financeira deixaria de ser indispensável para garantir qualidade de vida na velhice.

A OCDE reconhece que a inteligência artificial pode elevar a produtividade, estimular o crescimento econômico e criar novas oportunidades de trabalho. A organização também alerta, contudo, para o risco de deslocamento profissional quando a transição não é administrada adequadamente.

Isso significa que a tecnologia possui potencial para produzir mais riqueza com menos esforço humano. O ponto ainda sem resposta é quem controlará as máquinas, quem ficará com os lucros e quais regras serão criadas para que a população tenha acesso aos benefícios dessa produtividade.

Produzir abundância não significa distribuí-la

Imagine uma fábrica totalmente automatizada capaz de produzir milhares de aparelhos por dia com pouquíssimos funcionários. A tecnologia pode reduzir o custo de fabricação e aumentar os lucros, mas nada obriga a empresa a distribuir gratuitamente os produtos ou compartilhar os ganhos com as pessoas que perderam seus empregos.

Esse é o principal limite da previsão de Elon Musk. O avanço das IAs pode tornar a economia mais produtiva, mas a existência de abundância tecnológica não garante abundância social. Para que uma renda universal elevada se torne realidade, governos, empresas e cidadãos precisariam construir novos mecanismos de tributação, propriedade e distribuição de renda.

Também seria necessário decidir quem financiaria serviços públicos, aposentadorias e programas sociais em um mundo com menos trabalhadores pagando impostos. Se grande parte da produção estivesse concentrada em poucas empresas proprietárias de robôs e sistemas de inteligência artificial, a desigualdade poderia crescer em vez de desaparecer.

Uma análise do Fundo Monetário Internacional aponta que a automação pode ampliar a perda de empregos e reduzir a participação dos salários na economia, especialmente quando os ganhos tecnológicos permanecem concentrados. Já a OCDE destaca que o desenvolvimento da IA está concentrado em grandes empresas de tecnologia e pode aprofundar desigualdades caso não existam políticas adequadas.

Em outras palavras, máquinas capazes de produzir tudo não resolvem automaticamente o problema de quem poderá consumir o que elas produzem. Essa é uma decisão política e social, não uma consequência inevitável do código de computador.

É seguro deixar de poupar por causa do avanço das IAs?

Não. A fala de Musk deve ser entendida como uma previsão sobre um futuro possível, e não como uma recomendação financeira segura para o presente. Não existe garantia de que o trabalho se tornará opcional em 10 ou 20 anos, de que os produtos ficarão quase gratuitos ou de que uma renda universal elevada será criada.

Previsões tecnológicas também costumam errar os prazos. Carros totalmente autônomos, cidades inteligentes e robôs domésticos já foram anunciados diversas vezes como mudanças iminentes. Embora essas tecnologias tenham avançado, sua adoção enfrenta obstáculos técnicos, econômicos, jurídicos e culturais.

Até mesmo uma transformação profunda provocada pelo avanço das IAs pode acontecer de maneira desigual. Algumas profissões podem desaparecer rapidamente, outras podem ser modificadas e novas ocupações podem surgir. Certas regiões poderão adotar robôs em grande escala, enquanto outras ainda conviverão com trabalhos manuais e serviços pouco automatizados.

Para uma pessoa comum, interromper os investimentos para a aposentadoria com base nessa previsão significaria trocar uma estratégia concreta por uma promessa incerta. Se o futuro imaginado por Musk não chegar no prazo proposto, quem deixou de poupar poderá enfrentar dificuldades justamente no período em que tiver menos condições de recuperar o tempo perdido.

Além disso, mesmo em um mundo mais automatizado, uma reserva financeira pode continuar oferecendo liberdade. O dinheiro guardado não serve apenas para substituir o salário na velhice. Ele também pode ajudar em emergências, despesas médicas, mudanças profissionais, cuidados familiares e decisões que exigem independência financeira.

Apostar todo o futuro pessoal em uma transformação tecnológica ainda incerta é um risco que poucos poderiam suportar.

O avanço tecnológico pode aumentar a quantidade de riqueza produzida, mas não determina sozinho como essa riqueza será distribuída.

O avanço tecnológico pode aumentar a quantidade de riqueza produzida, mas não determina sozinho como essa riqueza será distribuída

O que aconteceria com o propósito das pessoas?

Elon Musk reconhece que sua previsão não produz apenas um cenário confortável. Se o trabalho deixar de ser necessário, milhões de pessoas poderão enfrentar uma pergunta desconcertante: o que fazer com o próprio tempo?

Durante séculos, a profissão ajudou a definir identidade, posição social, rotina e objetivos. Quando alguém pergunta “o que você faz?”, normalmente espera ouvir o nome de uma ocupação. Retirar o trabalho do centro da vida pode libertar as pessoas de atividades cansativas e repetitivas, mas também pode provocar sensação de inutilidade, isolamento e perda de direção.

Musk chegou a questionar se um mundo no qual todos conseguem imediatamente aquilo que desejam seria realmente satisfatório. Sem necessidade de esforço, competição ou construção gradual, algumas pessoas poderiam enfrentar uma crise de significado.

Por outro lado, o trabalho remunerado não é a única fonte possível de propósito. Cuidar da família, estudar, produzir arte, participar da comunidade, praticar esportes, pesquisar e preservar o meio ambiente também podem oferecer sentido. Uma sociedade menos dependente do emprego talvez não fosse uma sociedade sem atividades, mas uma sociedade na qual as pessoas tivessem maior liberdade para escolher o que fazer.

Essa transformação, contudo, exigiria uma mudança cultural tão profunda quanto a mudança econômica. Educação, saúde mental, convivência e participação comunitária ganhariam ainda mais importância. Não bastaria entregar renda e produtos. Seria necessário construir uma vida coletiva na qual as pessoas continuassem se sentindo necessárias.

A previsão de Elon Musk revela tanto as possibilidades quanto as contradições do avanço das IAs. Inteligência artificial e robôs podem reduzir trabalhos perigosos, aumentar a produtividade e tornar serviços mais acessíveis. Mas também podem concentrar poder, eliminar empregos e aprofundar desigualdades durante a transição.

Talvez a aposentadoria realmente seja muito diferente daqui a 20 anos. O trabalho pode ocupar menos horas, novas fontes de renda podem surgir e os sistemas previdenciários podem ser reformulados. Ainda assim, não há evidência suficiente para concluir que poupar se tornará inútil.

Por enquanto, a atitude mais prudente é acompanhar a transformação sem abandonar o planejamento financeiro. Se o futuro de abundância chegar, uma reserva provavelmente não será um problema. Se ele não chegar, ela poderá fazer toda a diferença.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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