Imagine ser tão alérgico a amendoim que uma quantidade menor do que metade de uma única unidade seja suficiente para provocar uma reação. Agora imagine tomar algumas cápsulas, voltar ao laboratório meses depois e conseguir ingerir vários amendoins antes que os primeiros sintomas apareçam.
Foi exatamente essa possibilidade, ainda experimental, que pesquisadores começaram a observar em um pequeno grupo de pacientes.
Um estudo publicado em 5 de agosto de 2026 na revista científica Science Translational Medicine testou o chamado transplante de fezes, nome popular do transplante de microbiota fecal, em pessoas com alergia grave ao amendoim.
A expressão pode provocar estranhamento, mas o objetivo não é simplesmente transferir fezes de uma pessoa para outra. O que interessa aos pesquisadores são os trilhões de microrganismos que vivem no intestino e formam a microbiota intestinal.
No ensaio, material de doadores saudáveis e sem alergias alimentares foi processado e colocado em cápsulas congeladas. Os voluntários engoliram essas cápsulas sob acompanhamento médico, numa tentativa de fazer determinadas bactérias benéficas se estabelecerem no intestino.
O estudo incluiu 15 adultos entre 18 e 40 anos com alergia ao amendoim confirmada e sensibilidade elevada. Antes do tratamento, eles apresentavam reações durante testes controlados com no máximo 100 miligramas de proteína de amendoim.
Depois do transplante, seis participantes apresentaram aumento relevante na quantidade tolerada.
O número é pequeno e o estudo não possuía grupo placebo, por isso ainda não permite afirmar que o transplante de fezes seja um tratamento comprovado contra alergias alimentares. Mesmo assim, os resultados oferecem uma pista intrigante sobre algo que a ciência vem investigando há anos: a relação entre as bactérias do intestino e o funcionamento do sistema imunológico.
Talvez uma parte da resposta para algumas alergias não esteja apenas no alimento ou nos anticorpos, mas também nos microrganismos que vivem dentro de nós.

O objetivo final talvez não seja realizar transplantes de fezes, mas descobrir quais microrganismos e moléculas conseguem reproduzir o efeito de forma segura e controlada
Como o transplante de fezes alterou a reação ao amendoim?
Os pesquisadores dividiram o experimento em duas etapas.
Na primeira, dez adultos com alergia grave receberam uma única rodada de transplante de microbiota fecal. Cada participante ingeriu 36 cápsulas congeladas ao longo de algumas horas. Quatro meses depois, três deles demonstraram uma tolerância maior ao amendoim durante testes realizados em ambiente médico.
Na segunda etapa, cinco novos voluntários receberam antibióticos antes do transplante.
A ideia era reduzir temporariamente parte da microbiota já presente no intestino, criando espaço para que os microrganismos vindos do doador conseguissem se estabelecer com maior eficiência.
Três desses cinco participantes apresentaram melhora. Segundo os pesquisadores, eles conseguiram ingerir mais de quatro amendoins antes de desenvolver reação, quantidade muito superior àquela tolerada antes da intervenção.
Somando os dois grupos, seis dos 15 participantes responderam ao tratamento.
Isso também significa que nove não apresentaram a mesma melhora, um detalhe importante para interpretar o resultado corretamente.
O transplante não funcionou para todo mundo.
Além disso, como o estudo foi de fase 1, aberto e pequeno, seu principal objetivo era investigar segurança, tolerabilidade e obter os primeiros sinais de eficácia. O próprio registro do ensaio clínico descreve o projeto dessa forma.
Os pesquisadores agora tentam entender por que algumas pessoas responderam enquanto outras praticamente não mudaram.
Uma das hipóteses está na capacidade das bactérias transplantadas de realmente se estabelecerem no intestino do receptor. Apenas engolir microrganismos não garante que eles permanecerão ali, conseguirão competir com as bactérias já existentes ou modificarão de forma duradoura o ambiente intestinal.
Essa pode ser uma das explicações para o melhor resultado observado entre os participantes que receberam antibióticos antes das cápsulas.
Bactérias parecem mudar a forma como o sistema imunológico reage
A parte talvez mais interessante do estudo apareceu quando os pesquisadores olharam além do teste com amendoim e investigaram o que havia mudado biologicamente.
As pessoas que responderam ao transplante apresentaram níveis diferentes de determinados ácidos biliares no sangue.
Essas substâncias são produzidas a partir da bile e participam principalmente da digestão e absorção de gorduras. Mas a ciência descobriu que elas também funcionam como moléculas de sinalização capazes de influenciar metabolismo, intestino e sistema imunológico.
As bactérias transferidas pelo transplante pareciam processar esses compostos de maneira diferente da microbiota original dos participantes.
Em experimentos adicionais, os pesquisadores encontraram sinais de que essa transformação dos ácidos biliares favorecia células imunológicas reguladoras envolvidas na tolerância aos alimentos.
Esse conceito é fundamental.
Nosso sistema imunológico precisa realizar uma tarefa aparentemente contraditória todos os dias. Ele deve reconhecer e combater microrganismos perigosos, mas também precisa aprender a não atacar tudo o que entra no organismo.
Comida é estrangeira ao corpo. Ainda assim, para a maioria das pessoas, o sistema imunológico aprende que proteínas presentes em arroz, leite, ovos, frutas ou amendoim não são invasores que precisam ser destruídos.
Esse processo é conhecido como tolerância oral.
Nas alergias alimentares, esse equilíbrio falha. O organismo passa a interpretar determinada proteína como ameaça e pode desencadear uma resposta imunológica rápida e, em alguns casos, potencialmente fatal.
A pesquisa sugere que certas bactérias intestinais podem participar do sistema que ensina o organismo a tolerar aquilo que comemos.
Em estudos anteriores, a mesma equipe havia transplantado microbiota de bebês com e sem alergias alimentares para camundongos predispostos a reações. Animais que receberam microbiota de bebês saudáveis ficaram mais protegidos, enquanto aqueles que receberam microrganismos associados à alergia continuaram vulneráveis.
O novo trabalho é importante porque leva parte dessa hipótese do laboratório para seres humanos.

Talvez uma parte da resposta para algumas alergias não esteja apenas no alimento ou nos anticorpos, mas também nos microrganismos que vivem dentro de nós
Transplante de fezes pode virar tratamento para alergias?
Ainda é cedo para responder sim.
Os resultados são interessantes justamente porque apresentam um efeito em humanos, mas estamos falando de seis pessoas que responderam dentro de um ensaio com 15 participantes.
Não houve um grande grupo de pacientes, comparação ampla com placebo ou diversidade suficiente para saber quem realmente pode se beneficiar.
Também não sabemos ainda por quanto tempo a melhora permanecerá em todos os indivíduos.
Esse último ponto é especialmente importante porque um dos grandes desafios dos tratamentos atuais para alergias alimentares é a manutenção do efeito.
Nos Estados Unidos, por exemplo, existe imunoterapia oral aprovada para alergia ao amendoim. O tratamento expõe o paciente a doses cuidadosamente controladas do alérgeno para aumentar sua tolerância e reduzir o risco de reações graves após uma exposição acidental. Mesmo assim, os pacientes continuam precisando evitar o alimento e o tratamento pode provocar reações.
O medicamento omalizumabe também foi aprovado pela FDA para reduzir o risco de reações alérgicas após exposição acidental a um ou mais alimentos em determinados pacientes. Ele não elimina a necessidade de evitar os alimentos que provocam alergia e não funciona como tratamento emergencial para uma anafilaxia.
A adrenalina continua sendo o tratamento de primeira linha para anafilaxia. Pessoas com alergias graves devem seguir o plano elaborado por seus médicos e portar a medicação de emergência indicada quando necessário.
O que torna a estratégia do microbioma tão atraente é uma possibilidade diferente: em vez de trabalhar apenas contra um alérgeno específico, talvez seja possível modificar mecanismos mais profundos da tolerância imunológica.
Se isso for confirmado, bactérias ou substâncias produzidas por elas poderiam futuramente contribuir para terapias contra diferentes alergias alimentares.
O objetivo final talvez não seja realizar transplantes de fezes, mas descobrir quais microrganismos e moléculas conseguem reproduzir o efeito de forma segura e controlada.
A ideia é substituir as cápsulas de fezes por micróbios selecionados
Os próprios pesquisadores já estão caminhando nessa direção.
Um estudo de fase 2 está em andamento para avaliar uma formulação mais purificada de microbiota em adolescentes com alergia ao amendoim. O ensaio foi desenhado para incluir placebo e acompanhar de forma mais rigorosa se o tratamento realmente aumenta a quantidade de proteína de amendoim tolerada.
Em vez das 36 cápsulas administradas de uma única vez no primeiro estudo, a nova estratégia utiliza uma preparação concentrada de microrganismos distribuída durante várias semanas.
Os pesquisadores também estão estudando a combinação dessa terapia com a imunoterapia oral para amendoim.
Se os cientistas conseguirem descobrir quais bactérias são realmente responsáveis pelo benefício, o futuro pode ser ainda mais específico.
Em vez de transferir uma microbiota inteira, seria possível produzir uma combinação selecionada de microrganismos, quase como um medicamento probiótico de precisão.
Essa mudança também poderia ajudar a reduzir um dos principais problemas do transplante de microbiota fecal: segurança.
Fezes humanas carregam uma enorme variedade de bactérias, vírus e outros microrganismos. Por isso, a seleção de doadores e o processamento do material precisam seguir protocolos rigorosos.
A FDA já registrou casos de infecções graves relacionados à transmissão de bactérias patogênicas em transplantes fecais realizados para outras finalidades. Em um alerta, a agência informou inclusive episódios envolvendo microrganismos resistentes a antibióticos, incluindo uma morte em um paciente imunocomprometido.
Por esse motivo, ninguém deve tentar reproduzir um transplante de fezes em casa.
Não existe evidência que justifique usar fezes de familiares, amigos ou qualquer doador não testado para tentar tratar alergia. Além de não haver controle da composição da microbiota, existe risco de transmissão de bactérias, vírus, parasitas e microrganismos resistentes a antibióticos.
No estudo, os doadores foram selecionados e o material foi preparado dentro de um protocolo clínico controlado.
A própria expressão “transplante de fezes” também pode acabar desaparecendo se a pesquisa avançar.
O que realmente interessa aos cientistas não são as fezes, mas a comunidade de microrganismos e as moléculas produzidas por ela.
A pesquisa publicada em 2026 oferece uma pista de como essas bactérias podem interferir na comunicação entre intestino e sistema imunológico. É possível que, no futuro, uma terapia baseada nessa descoberta nem sequer contenha material fecal, mas apenas espécies bacterianas específicas ou seus metabólitos.
Até lá, há uma longa sequência de perguntas.
O efeito se repetirá em centenas de pacientes? Funcionará em crianças? Poderá ajudar pessoas alérgicas a leite, ovos, castanhas ou outros alimentos? Qual combinação de bactérias é necessária? Quanto tempo a proteção dura? Será possível prever quem responderá?
Responder a essas questões deve levar anos.
O mais interessante do estudo, portanto, não é imaginar que seis pessoas foram “curadas” por uma pílula de fezes. Elas não foram declaradas curadas.
A descoberta está em outro lugar.
Ela reforça a ideia de que nosso sistema imunológico não trabalha sozinho. Dentro do intestino existe uma comunidade microscópica capaz de produzir moléculas, interagir com células de defesa e possivelmente influenciar aquilo que nosso organismo considera alimento ou ameaça.
Durante muito tempo, bactérias foram vistas principalmente como inimigas a serem eliminadas.
Agora, algumas delas podem se transformar em parte de uma nova geração de tratamentos.
E talvez a terapia que um dia permita que alguém com alergia grave coma sem medo tenha começado com uma pergunta bastante improvável: será que as bactérias presentes nas fezes de uma pessoa saudável conseguem ensinar o intestino de outra pessoa a tolerar um alimento?
Pela primeira vez em humanos, a resposta parece ser: talvez.