Às vezes, o sofrimento não chega fazendo barulho. Ele pode estar escondido atrás de um sorriso, de uma rotina aparentemente normal ou de respostas automáticas como “está tudo bem”. Por isso, uma pergunta feita com atenção, uma conversa sem julgamentos ou a disposição de permanecer ao lado de alguém pode ter uma importância muito maior do que imaginamos.
Observado em 10 de setembro, o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio amplia a conscientização sobre um grave problema de saúde pública e transmite uma mensagem essencial: o suicídio pode ser prevenido.
A data foi criada em 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio, a IASP, em conjunto com a Organização Mundial da Saúde. Desde então, campanhas realizadas em diferentes países procuram combater o preconceito, estimular o diálogo e mostrar que pedir ajuda não representa fraqueza.
Em 2026, o tema internacional é “Mudando a Narrativa sobre o Suicídio”. A proposta é substituir o silêncio e a incompreensão por abertura, empatia e apoio, incentivando pessoas, comunidades, organizações e governos a conversarem de forma responsável sobre o assunto.
No Brasil, a discussão ganha força durante o Setembro Amarelo. Mais do que iluminar prédios ou compartilhar frases nas redes sociais, a campanha lembra que prevenção envolve escuta, acesso aos serviços de saúde, acompanhamento profissional e construção de redes de apoio.

Acolher não é ter todas as respostas. Muitas vezes, é permanecer presente enquanto a ajuda adequada é encontrada
Por que o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio importa?
Mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, segundo dados atualizados da Organização Mundial da Saúde. Entre pessoas de 15 a 29 anos, o suicídio aparece como a terceira principal causa de morte em nível global.
Esses números ajudam a dimensionar o problema, mas cada estatística representa uma vida, uma história e uma rede de pessoas afetadas. Famílias, amigos, colegas e comunidades inteiras podem conviver por anos com o impacto de uma perda.
O comportamento suicida não possui uma causa única. Pode estar relacionado a uma combinação de fatores psicológicos, sociais, culturais, biológicos e ambientais. Transtornos mentais, conflitos familiares, discriminação, isolamento, violência, perdas, dificuldades financeiras, uso prejudicial de álcool e outras drogas, doenças incapacitantes e dores crônicas podem aumentar a vulnerabilidade.
Isso não significa que toda pessoa exposta a essas situações tentará tirar a própria vida. Cada história é diferente, e o sofrimento emocional não pode ser reduzido a uma explicação simples ou a um julgamento sobre força de vontade.
A dor não precisa ser completamente compreendida por quem está de fora para ser reconhecida como real.
Frases como “você tem tudo”, “isso é falta do que fazer”, “pense positivo” ou “existem pessoas em situação pior” não resolvem o problema. Pelo contrário, podem aumentar a culpa e fazer com que alguém esconda ainda mais o que está sentindo.
Comparar sofrimentos cria uma espécie de competição impossível. Uma pessoa em crise não precisa provar que sua dor é legítima. Ela precisa encontrar um ambiente seguro, ser levada a sério e ter acesso ao cuidado adequado.
Quais são os possíveis sinais de alerta?
Não existe uma fórmula capaz de identificar com certeza quando alguém está em risco. Os sinais precisam ser observados em conjunto e dentro do contexto de cada pessoa. Ainda assim, mudanças intensas ou persistentes de comportamento merecem atenção.
Isolamento repentino, abandono do autocuidado, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações marcantes de humor, desesperança e comentários frequentes sobre morte ou desaparecimento podem indicar sofrimento importante.
Também merecem atenção frases como “queria dormir e não acordar”, “vou deixar vocês em paz” ou “nada mais tem solução”. O Ministério da Saúde orienta que manifestações desse tipo não sejam tratadas como drama, ameaça ou chantagem emocional. Elas podem representar um pedido de ajuda.
Nem todas as pessoas demonstram a dor da mesma maneira. Algumas falam abertamente, enquanto outras se afastam, tornam-se mais irritadas ou se esforçam para esconder o sofrimento. Conhecer alguém e perceber mudanças relevantes em sua maneira de agir pode ajudar na identificação de uma crise.
Como ajudar alguém durante uma crise emocional?
Ao perceber que uma pessoa pode estar em sofrimento, procure um momento tranquilo e um lugar reservado para conversar. Demonstre preocupação verdadeira e permita que ela fale no próprio ritmo.
Escutar é diferente de interrogar. Evite interromper, dar sermões, oferecer soluções rápidas ou tentar convencer a pessoa de que ela não deveria se sentir daquela forma. Você não precisa compreender cada detalhe para acolher o que está sendo dito.
Perguntas diretas e cuidadosas podem abrir espaço para o diálogo: “Você quer conversar?”, “Como posso ajudar?” ou “Você tem pensado em se machucar?”. Perguntar responsavelmente sobre pensamentos suicidas não coloca essa ideia na cabeça de alguém. A conversa pode permitir que a pessoa revele o risco e receba proteção.
Acolher não é ter todas as respostas. Muitas vezes, é permanecer presente enquanto a ajuda adequada é encontrada.
Incentive a procura por psicólogos, psiquiatras, Unidades Básicas de Saúde ou Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. Caso seja possível, ajude a marcar o atendimento ou ofereça companhia. Durante uma crise, até uma ligação ou um pequeno deslocamento podem parecer tarefas difíceis.
Se houver risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha. Procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou ligue para o SAMU pelo número 192. Também é importante reduzir o acesso a armas, medicamentos, pesticidas e outros meios que possam ser utilizados para provocar ferimentos.
O cuidado não termina quando a crise mais intensa passa. Uma mensagem, uma ligação ou uma visita nos dias seguintes ajuda a demonstrar que aquela pessoa continua acompanhada e que seu sofrimento não foi esquecido.

A dor não precisa ser completamente compreendida por quem está de fora para ser reconhecida como real
O que fazer quando a dor parece insuportável?
Se você está enfrentando pensamentos de morte, vontade de desaparecer ou a sensação de que não existe saída, procure não permanecer sozinho. Conte a alguém de confiança o que está acontecendo, mesmo que seja difícil organizar as palavras.
Você pode começar com uma frase simples: “Eu não estou bem e preciso de ajuda”, “Estou com medo do que posso fazer” ou “Preciso que você fique comigo agora”. Não é necessário explicar tudo perfeitamente para merecer apoio.
Procure atendimento em uma Unidade Básica de Saúde, em um CAPS ou com um profissional de saúde mental. Diante de perigo imediato, vá a uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acione o SAMU pelo número 192.
Também é possível conversar com o Centro de Valorização da Vida pelo telefone 188. A ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas por dia em todo o país. O CVV oferece escuta sigilosa, sem julgamentos, e também disponibiliza atendimento por chat e e-mail.
Durante a crise, permaneça em um ambiente seguro e próximo de alguém. Evite álcool e outras drogas, pois essas substâncias podem aumentar a impulsividade e dificultar a percepção de alternativas.
O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio não existe apenas para lembrar uma data. Ele convida a sociedade a mudar a forma como enxerga e recebe o sofrimento humano. Essa mudança começa quando substituímos frases prontas por escuta, preconceito por acolhimento e silêncio por uma conversa responsável.
Uma conversa não substitui o tratamento profissional, mas pode ser o primeiro passo para que alguém chegue até ele. Prevenir também é perceber, perguntar, escutar e permanecer por perto.
Se você ou alguém próximo estiver em perigo imediato, procure uma emergência ou ligue para o SAMU pelo 192. Para apoio emocional, ligue gratuitamente para o CVV pelo 188.