O que explica o crescimento dos diagnósticos de autismo nos últimos anos?

O que explica o crescimento dos diagnósticos de autismo nos últimos anos?

Critérios mais amplos e maior acesso à avaliação ajudam a entender os números. Dados mostram mais pessoas identificadas no espectro.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Uma pessoa passa a infância ouvindo que é “sensível demais” aos barulhos. Aprende a ensaiar conversas antes de encontrar outras pessoas, chega exausta em casa depois de um dia comum e só na vida adulta recebe uma explicação para experiências que a acompanham há décadas: ela é autista. Histórias como essa ajudam a entender por que o autismo aparece cada vez mais nas conversas, nas escolas e nas estatísticas.

Os números chamam atenção. Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) identificou autismo em cerca de uma a cada 31 crianças de 8 anos nas áreas acompanhadas por sua rede de monitoramento em 2022. Em 2000, a proporção registrada nessa mesma série era de aproximadamente uma a cada 150. No Brasil, o Censo 2022 do IBGE identificou cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico declarado de autismo.

Isso significa que o autismo surgiu de repente em milhões de pessoas? Os dados, por si só, não permitem essa conclusão. Eles mostram quantas pessoas foram identificadas segundo os critérios, os métodos e o acesso à avaliação disponíveis em cada época. Entender essa diferença é essencial para interpretar o crescimento sem transformar uma questão complexa em uma resposta fácil.

O autismo está relacionado ao desenvolvimento do cérebro e envolve uma combinação complexa de fatores, com participação importante da genética

O autismo está relacionado ao desenvolvimento do cérebro e envolve uma combinação complexa de fatores, com participação importante da genética

O que explica o aumento dos diagnósticos de autismo?

Durante muito tempo, a descrição do autismo esteve concentrada em um grupo mais restrito de crianças. A história das primeiras pesquisas ajuda a perceber a mudança. Em 1943, o psiquiatra Leo Kanner publicou um estudo sobre 11 crianças cujas formas de comunicação e interação chamaram sua atenção. Décadas depois, profissionais passaram a reconhecer uma variedade muito maior de características e necessidades de apoio.

Hoje, o termo transtorno do espectro autista, ou TEA, reúne pessoas com experiências bastante diferentes. Algumas precisam de apoio contínuo para atividades cotidianas. Outras estudam, trabalham e vivem de forma independente, mas enfrentam dificuldades ou desgastes que nem sempre são visíveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que as habilidades e necessidades de pessoas autistas variam e podem mudar ao longo da vida.

A ampliação dos critérios diagnósticos, o maior conhecimento entre profissionais e famílias e a possibilidade de avaliar pessoas antes ignoradas contribuem para o aumento dos registros. Mulheres e adultos, por exemplo, podem chegar à avaliação depois de anos tentando compreender dificuldades que haviam recebido outras explicações. Uma pessoa autista diagnosticada aos 35 anos não se tornou autista naquela idade: seu diagnóstico passou a constar das estatísticas naquele momento.

O aumento dos diagnósticos mede, em parte, uma mudança na capacidade de reconhecer pessoas que antes passavam despercebidas.

É possível comparar diretamente os números de décadas diferentes?

É preciso cautela. O CDC acompanha crianças de 8 anos em áreas específicas dos Estados Unidos. O Censo brasileiro reúne informações declaradas pela população de todas as idades. São recortes distintos, produzidos por métodos diferentes. Até dentro de uma mesma série histórica, mudanças nos critérios, na documentação e no acesso aos serviços podem afetar o resultado.

Também há uma diferença entre prevalência, que descreve a proporção de pessoas identificadas em uma população, e incidência, que se refere a novos casos em determinado período. Quando uma manchete informa que “há mais autismo”, geralmente está falando de prevalência registrada ou de diagnósticos, não de uma prova de que a condição passou a surgir com maior frequência biológica.

Isso não quer dizer que a ciência tenha encerrado a discussão. Pesquisadores também investigam se mudanças em fatores associados ao desenvolvimento podem contribuir para parte da variação observada. Até agora, não existe uma conta capaz de atribuir uma porcentagem precisa do crescimento a cada explicação.

O que a ciência sabe sobre as causas do autismo?

O autismo está relacionado ao desenvolvimento do cérebro e envolve uma combinação complexa de fatores, com participação importante da genética. Ter familiares autistas pode aumentar a probabilidade de uma pessoa também ser autista, mas não há um único “gene do autismo” que explique todos os casos.

Pesquisas estudam ainda fatores associados à gestação e ao nascimento. Segundo a OMS, entre eles estão a idade mais avançada dos pais, certas condições de saúde na gravidez, a prematuridade e a exposição pré-natal a alguns medicamentos. A presença de uma associação em um estudo, porém, não significa que aquele fator tenha causado o autismo de uma pessoa específica. Históricos familiares e outras circunstâncias também precisam ser considerados.

Um exemplo que exige atenção é o valproato, medicamento usado para determinadas condições neurológicas. A exposição durante a gestação foi associada a maior risco de alterações no desenvolvimento, incluindo autismo. Quem usa o medicamento e planeja engravidar ou está grávida deve conversar com a equipe médica para avaliar o tratamento. Interrompê-lo por conta própria também pode trazer riscos.

O aumento dos diagnósticos mede, em parte, uma mudança na capacidade de reconhecer pessoas que antes passavam despercebidas.

O aumento dos diagnósticos mede, em parte, uma mudança na capacidade de reconhecer pessoas que antes passavam despercebidas

Vacinas ou paracetamol causam autismo?

Vacinas não causam autismo. A suspeita ganhou repercussão após um estudo publicado em 1998 que acabou retirado da literatura científica. Pesquisas posteriores não confirmaram a ligação. A OMS afirma que tanto a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola quanto outras vacinas infantis não aumentam o risco de autismo.

O paracetamol usado na gravidez também se tornou alvo de debate. Um estudo publicado em 2024 na revista JAMA acompanhou registros de quase 2,5 milhões de crianças na Suécia. Na comparação inicial, apareceu uma associação pequena. Quando os pesquisadores compararam irmãos da mesma família para reduzir a influência de fatores compartilhados, não encontraram evidência de associação entre a exposição ao medicamento e o diagnóstico de autismo. A pesquisa não sustenta a afirmação de que paracetamol cause autismo.

Esses exemplos mostram por que investigar causas exige mais do que observar que dois acontecimentos ocorreram próximos. Uma família pode notar características da criança depois de uma vacina, por exemplo, porque muitas dessas características se tornam perceptíveis na mesma fase em que as vacinas são aplicadas. A coincidência temporal não demonstra uma relação de causa e efeito.

Compreender o crescimento dos diagnósticos também significa olhar para o que acontece depois da identificação. Uma avaliação cuidadosa pode ajudar a pessoa e sua família a entender necessidades de comunicação, sensibilidades e formas de apoio. Mas receber um nome para essas experiências não resolve, sozinho, as barreiras na escola, no trabalho e no atendimento de saúde.

A pergunta sobre os números continua importante. Outra precisa acompanhá-la: agora que mais pessoas autistas estão sendo reconhecidas, estamos preparados para ouvi-las e oferecer o apoio de que cada uma necessita?

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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