Imagine olhar para o relógio nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, ver os ponteiros se aproximando das 10h33 e começar a imaginar se, de repente, cadeiras, carros, pessoas e até a água dos oceanos poderiam começar a flutuar.
Parece roteiro de ficção científica.
Mas uma história que circula há meses nas redes sociais afirma exatamente isso: a Terra vai ficar sem gravidade durante alguns segundos hoje e o fenômeno provocaria uma catástrofe mundial.
Algumas versões falam em sete segundos. Outras chegam a especificar 7,3 segundos e apontam até um horário para o suposto evento. A explicação apresentada parece científica o suficiente para impressionar quem lê rapidamente: ondas gravitacionais produzidas pela colisão de buracos negros passariam pelo planeta e cancelariam temporariamente a gravidade terrestre.
Há até um suposto programa secreto da NASA chamado “Project Anchor”, ou Projeto Anchor, que teria sido criado para preparar autoridades para o desastre.
O problema é simples.
Nada disso é verdade.
A NASA já rejeitou o rumor e não existe evidência de um programa da agência chamado Project Anchor relacionado a uma suposta perda da gravidade. A versão viral foi rastreada por checadores até publicações em redes sociais que começaram a circular no fim de 2025 e ganharam novas camadas à medida que eram compartilhadas.
O mais curioso é que a história mistura elementos completamente reais da astronomia com uma conclusão impossível.
Buracos negros existem.
Ondas gravitacionais existem.
E um eclipse solar total realmente acontece nesta quarta-feira.
Mas nenhuma dessas coisas fará você flutuar pela sala.
A previsão de que a Terra perderá a gravidade por alguns segundos em 12 de agosto de 2026 não possui fundamento científico.

Quando objetos extremamente massivos, como buracos negros, orbitam e colidem, podem produzir ondulações no próprio espaço-tempo
Terra vai ficar sem gravidade por 7 segundos? Não
Para entender por que a teoria não funciona, basta começar pela pergunta mais básica: de onde vem a gravidade da Terra?
A resposta está na própria Terra.
A NASA explica que qualquer objeto que possui massa exerce gravidade. Quanto maior a massa, maior pode ser a atração gravitacional. Toda a massa do nosso planeta, incluindo núcleo, manto, crosta, oceanos e atmosfera, participa do campo gravitacional que mantém pessoas e objetos junto à superfície.
É por isso que você volta ao chão depois de pular.
É por isso que a atmosfera não simplesmente escapa para o espaço.
É também por isso que a Lua permanece em órbita ao redor da Terra e a Terra permanece em órbita ao redor do Sol.
A gravidade não funciona como a energia elétrica de uma casa.
Não existe um interruptor escondido em algum lugar do Universo capaz de desligá-la durante sete segundos e religá-la logo depois.
Enquanto a Terra continuar existindo com aproximadamente a mesma massa, continuará possuindo seu campo gravitacional.
Existem pequenas variações na intensidade da gravidade em diferentes regiões do planeta porque a massa terrestre não está distribuída de maneira perfeitamente uniforme. A NASA inclusive utiliza missões espaciais para medir essas diferenças minúsculas. Isso está muito distante, porém, de uma situação em que a gravidade simplesmente chega a zero.

A previsão de que a Terra perderá a gravidade por alguns segundos em 12 de agosto de 2026 não possui fundamento científico
E as ondas gravitacionais de dois buracos negros?
É provavelmente aqui que o boato consegue parecer mais convincente.
Ondas gravitacionais realmente existem.
Elas foram previstas pela Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein e detectadas diretamente pela primeira vez em 2015 pelo observatório LIGO. Aquela detecção veio de uma colisão entre dois buracos negros ocorrida há cerca de 1,3 bilhão de anos.
Quando objetos extremamente massivos, como buracos negros, orbitam e colidem, podem produzir ondulações no próprio espaço-tempo.
A NASA explica essas ondas como perturbações que atravessam o espaço à velocidade da luz. Quando passam por uma região, produzem minúsculos efeitos de alongamento e compressão.
Mas existe uma diferença gigantesca entre isso e “cancelar a gravidade da Terra”.
Ondas gravitacionais provenientes de eventos cósmicos distantes chegam ao nosso planeta extremamente enfraquecidas. É justamente por isso que cientistas precisam de instrumentos extraordinariamente sensíveis, como o LIGO, para detectar alterações minúsculas provocadas por elas.
Se essas ondas fossem capazes de desligar a gravidade terrestre por vários segundos, ninguém precisaria de equipamentos sofisticados para perceber.
O fenômeno seria dramaticamente óbvio.
Mais importante ainda, esse não é o funcionamento previsto pela física.
Ondas gravitacionais não chegam à Terra para enfrentar o campo gravitacional do planeta como duas forças opostas que se anulam. Elas são perturbações no espaço-tempo causadas pelo movimento de grandes massas.
A história viral pega um fenômeno verdadeiro e lhe atribui um efeito que ele não possui.
É como afirmar que, porque ondas do mar existem, uma delas poderia desligar temporariamente toda a água do oceano.
Os conceitos estão relacionados, mas a conclusão não faz sentido.

A parte mais eficiente do boato foi misturar conceitos científicos reais com números, horários e um projeto fictício para criar a aparência de uma informação vazada
De onde surgiu a história de que a Terra vai ficar sem gravidade?
Uma das primeiras versões rastreadas do boato apareceu no final de dezembro de 2025.
Segundo a checagem do Snopes, publicações afirmavam que em 12 de agosto de 2026 a humanidade experimentaria aproximadamente sete segundos sem gravidade. O conteúdo citava um suposto documento secreto da NASA e o chamado “Project Anchor”. Não foi apresentada evidência de que esse documento ou programa existisse.
À medida que a história circulou, surgiram novas versões.
Algumas acrescentaram números enormes de possíveis mortes. Outras falaram em bunkers, sistemas especiais de proteção e preparação secreta de governos. A precisão aparente aumentou até chegar a horários específicos, como 14h33 UTC, equivalente a 11h33 pelo horário de Brasília em 12 de agosto, e versões diferentes também circularam com outros horários.
Esse tipo de detalhamento pode tornar uma história falsa mais convincente.
Um boato dizendo apenas “algo estranho acontecerá em agosto” parece vago.
Quando aparecem horário, duração, nome de projeto, orçamento e explicação pseudocientífica, cria-se uma sensação de documentação.
Mas quantidade de detalhes não é evidência.
Não existe anúncio oficial da NASA prevendo perda de gravidade em 12 de agosto.
Não existe evidência apresentada de um Projeto Anchor com essa finalidade.
E, principalmente, a física não oferece um mecanismo capaz de produzir o evento descrito.
A parte mais eficiente do boato foi misturar conceitos científicos reais com números, horários e um projeto fictício para criar a aparência de uma informação vazada.
O eclipse solar de hoje ajudou o rumor a ganhar força
Existe uma coincidência particularmente conveniente para quem criou a teoria.
Hoje realmente acontece um grande fenômeno astronômico.
Em 12 de agosto de 2026, um eclipse solar total atravessa regiões da Rússia, Groenlândia, Islândia, Oceano Atlântico, Espanha e uma pequena área de Portugal. Outras regiões do Hemisfério Norte verão o eclipse parcialmente.
Isso significa que, durante alguns minutos, pessoas localizadas dentro da faixa de totalidade verão o Sol desaparecer atrás da Lua e o céu escurecer em pleno dia.
É o cenário perfeito para alimentar uma história apocalíptica.
Mas eclipses solares são eventos completamente previsíveis.
Eles acontecem quando a Lua passa entre a Terra e o Sol e sua sombra é projetada sobre uma parte do nosso planeta. A NASA calcula trajetórias de eclipses com enorme antecedência justamente porque os movimentos orbitais envolvidos são conhecidos e previsíveis.
O alinhamento não faz a gravidade terrestre desaparecer.
Na realidade, Sol e Lua exercem influência gravitacional sobre a Terra continuamente.
A Lua, por exemplo, desempenha um papel importante nas marés dos oceanos. A própria NASA explica que sua atração gravitacional desloca as águas terrestres.
Nada de especial acontece com a gravidade apenas porque visualmente Sol e Lua aparecem alinhados no céu.
E existe uma maneira simples de perceber isso.
Eclipses solares acontecem regularmente.
Se o alinhamento entre Sol, Lua e Terra fosse capaz de desligar a gravidade, a humanidade já teria experimentado esse fenômeno inúmeras vezes ao longo da história.
Não experimentou.
O eclipse de 8 de abril de 2024, por exemplo, atravessou México, Estados Unidos e Canadá diante de milhões de observadores. Pessoas viram o céu escurecer, observaram a coroa solar e depois continuaram exatamente onde estavam.
O mesmo vale para eclipses anteriores.
Nesta quarta-feira, quem estiver dentro da faixa de totalidade poderá assistir a um fenômeno astronômico extraordinário, mas permanecerá firmemente preso ao chão.
E quem está no Brasil?
Também continuará normalmente no chão.
O eclipse solar de 12 de agosto de 2026 sequer será visível do território brasileiro. A NASA mostra que sua área de observação está concentrada no Hemisfério Norte.
Portanto, se você encontrou uma publicação dizendo que a Terra vai ficar sem gravidade nesta quarta-feira, não precisa amarrar os móveis, evitar lugares altos ou se preparar para sair flutuando.
Também não existe motivo para esperar que os oceanos subam para o céu, aviões percam sustentação ou pessoas sejam arremessadas pelo planeta.
Às 10h33, 11h33 ou em qualquer outro horário indicado pelas diferentes versões da história, a gravidade continuará funcionando.
A Terra continuará com sua massa.
A Lua continuará em sua órbita.
O planeta continuará girando.
E, algumas horas depois, em determinados lugares da Europa e do Ártico, a Lua realmente ficará na frente do Sol.
Talvez essa seja a parte mais curiosa dessa história.
O Universo já oferece fenômenos suficientemente extraordinários sem precisarmos inventar outros.
Ondas produzidas pela colisão de buracos negros atravessam o cosmos.
A Lua consegue esconder uma estrela cerca de 400 vezes maior do que ela porque, vista da Terra, está aproximadamente 400 vezes mais próxima.
E nós vivemos presos à superfície de uma enorme esfera que percorre o espaço graças às mesmas leis gravitacionais que fazem planetas, estrelas e galáxias se movimentarem.
Nada disso precisa que a gravidade seja desligada por sete segundos para ser impressionante.