Em uma sala cercada por bandeiras, fotógrafos e assessores, uma conversa entre dois presidentes pode decidir muito mais do que os termos de um acordo diplomático. Quando Xi Jinping e Donald Trump se encontrarem em Washington, uma ilha localizada a mais de 12 mil quilômetros da capital norte-americana estará no centro das atenções: Taiwan.
O presidente chinês deve pressionar o governo dos Estados Unidos a interromper a venda e a entrega de armamentos à ilha. Para reforçar seu argumento, Xi Jinping pretende recorrer a um documento assinado em 1982, quando Washington declarou a intenção de reduzir gradualmente o fornecimento de armas a Taiwan.
O encontro ocorre em um momento de competição intensa entre as duas maiores potências econômicas do planeta. Além de Taiwan, a agenda envolve comércio, inteligência artificial, terras raras, tecnologia e conflitos no Oriente Médio. Ainda assim, poucos assuntos têm tanta importância para Pequim quanto o futuro da ilha.
Para Pequim, Taiwan representa soberania. Para Washington, representa equilíbrio estratégico. Para os taiwaneses, representa o direito de decidir o próprio futuro.

Trump com Xi em Pequim, em maio: agenda bilateral e cenário político mundial no centro dos desafios entre os dois líderes – (crédito: Brendan SMIALOWSKI/AFP)
O que Xi Jinping quer dos Estados Unidos?
A principal exigência de Xi Jinping será a interrupção das vendas norte-americanas de armas a Taiwan. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a China também pretende pedir que Washington suspenda a entrega de equipamentos militares que já foram comprados pelo governo taiwanês.
Pequim considera Taiwan parte de seu território e trata qualquer apoio militar estrangeiro à ilha como interferência em uma questão interna. O governo chinês afirma preferir uma reunificação pacífica, mas nunca descartou o uso da força para assumir o controle do território.
Taiwan, por sua vez, possui governo, eleições, moeda, forças armadas e instituições próprias. O governo da ilha rejeita a reivindicação de soberania de Pequim e sustenta que a República Popular da China nunca administrou Taiwan.
Os Estados Unidos mantêm uma posição cuidadosamente ambígua. Washington reconhece diplomaticamente o governo de Pequim desde 1979 e adota a política de “Uma China”, mas não reconhece a soberania chinesa sobre Taiwan. Ao mesmo tempo, a legislação norte-americana determina que a ilha tenha acesso aos recursos necessários para manter sua capacidade de defesa.
Essa combinação permite que os Estados Unidos apoiem Taiwan sem reconhecer oficialmente sua independência. A estratégia procura impedir tanto uma invasão chinesa quanto uma declaração formal de independência que possa provocar uma reação militar de Pequim.
Por que o comunicado de 1982 voltou ao debate?
O documento citado por Xi Jinping é o terceiro comunicado conjunto firmado entre China e Estados Unidos. Assinado em 17 de agosto de 1982, ele foi resultado de aproximadamente oito meses de negociações e buscava evitar que a questão de Taiwan provocasse uma ruptura entre Washington e Pequim.
No comunicado, os Estados Unidos declararam que não pretendiam manter indefinidamente as vendas de armas a Taiwan. O governo norte-americano também indicou que reduziria gradualmente o nível desses fornecimentos. O histórico oficial do Departamento de Estado confirma que o documento foi criado para administrar uma das questões mais delicadas das relações entre os dois países.
Entretanto, a promessa não era incondicional. Um memorando elaborado pelo então presidente Ronald Reagan vinculou a redução das vendas ao compromisso chinês com uma solução pacífica para as divergências no Estreito de Taiwan.
Também em 1982, Washington estabeleceu as chamadas Seis Garantias. Entre outros pontos, os Estados Unidos afirmaram que não haviam definido uma data para encerrar as vendas de armas e que não consultariam previamente Pequim para autorizar novos negócios militares com Taiwan.
Na prática, os dois lados passaram a interpretar os compromissos de maneiras diferentes. A China enfatiza a promessa de redução progressiva. Os Estados Unidos destacam que qualquer redução dependeria da manutenção da paz e da ausência de ameaças contra a ilha.
O que está em jogo nos pacotes bilionários?
O debate não se limita a documentos diplomáticos antigos. Há bilhões de dólares em equipamentos militares envolvidos na negociação.
Em dezembro de 2025, o governo Trump aprovou um pacote de aproximadamente US$ 11 bilhões em armas para Taiwan, considerado o maior já autorizado para a ilha. Outro conjunto de equipamentos, avaliado em cerca de US$ 14 bilhões, permanece suspenso há meses.
Trump chegou a descrever o segundo pacote como uma importante moeda de negociação. A declaração aumentou a preocupação entre autoridades taiwanesas e parlamentares norte-americanos, que temem que o apoio à ilha seja reduzido em troca de concessões econômicas ou diplomáticas da China.
Os equipamentos destinados a Taiwan fazem parte de uma estratégia conhecida como defesa assimétrica. Em vez de tentar reproduzir toda a estrutura militar chinesa, algo financeiramente impossível, a ilha investe em mísseis, drones, sistemas de vigilância, defesa aérea e armas capazes de dificultar uma invasão.
Xi Jinping pretende convencer Trump de que Taiwan é a principal fonte de instabilidade nas relações entre China e Estados Unidos. Pequim pode oferecer cooperação em outros temas internacionais para tentar obter uma mudança na posição norte-americana. Entretanto, integrantes do Partido Republicano já pressionam Trump a não enfraquecer o apoio à ilha.

Para Pequim, Taiwan representa soberania. Para Washington, representa equilíbrio estratégico. Para os taiwaneses, representa o direito de decidir o próprio futuro
Por que Taiwan é tão importante para China e EUA?
A origem do conflito atual remonta à guerra civil chinesa. Em 1949, os comunistas liderados por Mao Zedong assumiram o controle da China continental e fundaram a República Popular da China. O governo derrotado da República da China refugiou-se em Taiwan, onde manteve suas instituições.
Desde então, os dois territórios permaneceram sob administrações separadas. Pequim interpreta essa divisão como uma consequência temporária da guerra civil e afirma que a reunificação é inevitável. Taiwan consolidou-se como uma democracia e grande parte de sua população desenvolveu uma identidade política diferente da China continental.
A importância da ilha também é econômica. Taiwan ocupa uma posição estratégica nas rotas marítimas do Pacífico e desempenha um papel fundamental na fabricação de semicondutores avançados, componentes presentes em celulares, veículos, computadores, armamentos e sistemas de inteligência artificial.
Para os Estados Unidos, a preservação do equilíbrio no Estreito de Taiwan influencia a segurança de aliados como Japão, Coreia do Sul e Filipinas. Uma mudança forçada no controle da ilha poderia ampliar a presença militar chinesa no Pacífico e alterar profundamente a distribuição de poder na região.
A China intensificou exercícios militares ao redor de Taiwan nos últimos anos, especialmente depois da visita da então presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, a Taipei, em 2022. Aviões, navios e manobras de grande escala passaram a fazer parte da pressão exercida sobre o governo taiwanês.
Ao mesmo tempo, autoridades de Taiwan afirmam que desejam manter a paz e o diálogo, mas rejeitam a ideia de subordinação política a Pequim. O presidente Lai Ching-te já ofereceu conversas, porém é tratado pelo governo chinês como separatista.
Por isso, o encontro entre Xi Jinping e Trump será acompanhado com tanta atenção. Uma declaração aparentemente pequena pode fortalecer a segurança de Taiwan, ampliar a pressão chinesa ou criar dúvidas sobre o compromisso norte-americano com a ilha.
Não é esperado que uma única reunião encerre uma disputa acumulada durante mais de sete décadas. O resultado mais provável é a manutenção de um equilíbrio desconfortável, no qual China, Estados Unidos e Taiwan testam limites sem desejar uma guerra aberta.
O perigo está justamente nesse jogo de sinais. Quanto maior a presença de navios, aeronaves, mísseis e exercícios militares, maior o risco de um erro de cálculo. Um encontro criado para reduzir tensões também pode revelar o tamanho da distância entre as posições de Xi Jinping e do governo norte-americano.
No centro de tudo permanece Taiwan, uma ilha democrática pressionada por uma potência que a considera parte de seu território e protegida por outra que evita prometer publicamente até onde está disposta a ir. É um dos tabuleiros geopolíticos mais delicados do mundo, onde história, tecnologia e poder militar se encontram.