Há sofrimentos que não aparecem em exames, não deixam hematomas e quase nunca são percebidos por quem olha de fora. Uma pessoa pode continuar trabalhando, sorrindo, conversando e publicando fotografias enquanto enfrenta, por dentro, uma dor emocional difícil de explicar.
É contra essa invisibilidade que o Setembro Amarelo procura agir. Durante o mês, monumentos recebem iluminação amarela, empresas organizam palestras e mensagens sobre saúde mental ocupam as redes sociais. No entanto, o verdadeiro significado da campanha não está apenas nas cores, nas faixas ou nas publicações.
O propósito central é construir uma sociedade na qual alguém possa dizer “eu não estou bem” sem ser tratado como fraco, ingrato ou exagerado. Quando o sofrimento encontra espaço para ser compartilhado, aumentam as possibilidades de acolhimento, atendimento profissional e recuperação.
O Setembro Amarelo também lembra que o suicídio é um problema complexo de saúde pública. Não existe uma causa única nem uma explicação capaz de servir para todas as histórias. Fatores emocionais, sociais, econômicos, culturais, biológicos e ambientais podem se combinar de maneiras diferentes ao longo da vida.
A principal mensagem do Setembro Amarelo é que ninguém deveria enfrentar sozinho um sofrimento que já se tornou pesado demais.

Escutar não significa resolver sozinho o sofrimento de alguém. Significa permanecer presente e ajudar essa pessoa a chegar ao cuidado adequado
Como surgiu o Setembro Amarelo?
A história que ajudou a transformar o amarelo em símbolo da prevenção começou nos Estados Unidos, em 1994. Naquele ano, o adolescente Mike Emme, de 17 anos, morreu por suicídio. Ele era conhecido pela habilidade com automóveis e havia restaurado um Ford Mustang 1968, pintando o veículo de amarelo.
Depois de sua morte, familiares e amigos distribuíram cartões presos a fitas amarelas. As mensagens incentivavam pessoas em sofrimento a procurar ajuda e indicavam que aquele pequeno cartão poderia ser entregue quando alguém não conseguisse encontrar palavras para explicar o que estava sentindo.
A iniciativa contribuiu para o surgimento do Yellow Ribbon Suicide Prevention Program, ou Programa de Prevenção do Suicídio da Fita Amarela. O automóvel restaurado por Mike acabou se tornando parte de uma história internacional de conscientização, transformando uma cor ligada à memória do adolescente em um símbolo de escuta e cuidado.
No Brasil, a campanha ganhou projeção nacional por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria. Em 2013, a entidade ajudou a dar notoriedade à mobilização no país. Desde 2014, a ABP e o Conselho Federal de Medicina promovem conjuntamente o Setembro Amarelo, reunindo instituições, profissionais e comunidades em ações de prevenção.
Por que setembro e a fita amarela foram escolhidos?
O mês foi escolhido porque 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A data concentra ações internacionais voltadas à redução do estigma, à divulgação de informações responsáveis e ao fortalecimento de políticas públicas de saúde mental.
A fita amarela, por sua vez, preserva a referência ao carro de Mike Emme. Com o passar dos anos, ela deixou de representar apenas uma história individual e passou a simbolizar uma mensagem coletiva: procurar ajuda não é fracasso, e oferecer escuta não exige ter todas as respostas.
A campanha é necessária porque os números revelam a dimensão do problema. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos. Em 2021, essa foi a terceira principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no mundo, e 73% dos casos ocorreram em países de baixa e média renda.
Esses dados, porém, não devem ser vistos apenas como estatísticas. Cada número representa uma pessoa, uma família, amigos e uma comunidade afetada. Também existem tentativas não notificadas e muitas pessoas que convivem com pensamentos suicidas sem contar a ninguém.
O suicídio pode afetar indivíduos de diferentes idades, origens, classes sociais, orientações sexuais e identidades de gênero. Transtornos mentais sem tratamento, violência, discriminação, perdas afetivas, isolamento, dificuldades financeiras, doenças crônicas e uso problemático de álcool ou outras drogas podem aumentar a vulnerabilidade. Nenhum desses fatores, isoladamente, determina que alguém tentará tirar a própria vida.
Como o Setembro Amarelo pode ajudar de verdade?
A campanha produz resultados quando transforma conscientização em atitude. Compartilhar mensagens pode ser importante, mas não substitui escuta, atendimento profissional, acesso à saúde e políticas públicas permanentes.
Durante muito tempo, ansiedade, depressão, esgotamento e sofrimento emocional foram tratados como falta de força de vontade. Ainda hoje, pessoas em crise escutam frases como “você precisa reagir”, “pense positivo” ou “tem gente em situação pior”.
Essas respostas podem parecer encorajadoras, mas frequentemente aumentam a sensação de culpa e incompreensão. A dor emocional não desaparece por comparação. Quando alguém encontra dificuldade até para realizar atividades básicas, dizer apenas que precisa se esforçar mais pode aprofundar o isolamento.
Cuidar da saúde mental significa reconhecer que emoções, pensamentos, relações, condições de trabalho, experiências traumáticas, sono e qualidade de vida também fazem parte da saúde. Assim como uma dor física persistente merece investigação, mudanças emocionais que comprometem a rotina também precisam de atenção.
O acompanhamento pode envolver psicoterapia, avaliação psiquiátrica, medicamentos quando indicados, apoio familiar, mudanças na rotina e atuação de outros profissionais. Buscar ajuda antes que a situação se transforme em emergência é uma forma de prevenção.
Também é importante abandonar a ideia de que falar sobre suicídio incentiva sua prática. Uma conversa responsável, sem sensacionalismo ou romantização, pode criar uma oportunidade para que a pessoa expresse aquilo que vinha escondendo.
Escutar não significa resolver sozinho o sofrimento de alguém. Significa permanecer presente e ajudar essa pessoa a chegar ao cuidado adequado.

A principal mensagem do Setembro Amarelo é que ninguém deveria enfrentar sozinho um sofrimento que já se tornou pesado demais
Quais sinais merecem atenção e como acolher?
Não existe um comportamento isolado capaz de prever com certeza uma crise. O próprio Ministério da Saúde alerta que os sinais não devem ser analisados separadamente. A atenção precisa aumentar quando várias mudanças aparecem juntas, tornam-se frequentes ou se intensificam.
Isolamento repentino, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações importantes no sono ou na alimentação, abandono do autocuidado, uso mais intenso de álcool ou outras drogas e falas sobre culpa, inutilidade, morte ou desejo de desaparecer merecem cuidado.
Despedidas incomuns, distribuição de objetos pessoais importantes e mudanças bruscas de comportamento também não devem ser ignoradas. Esses sinais não servem para diagnosticar alguém, mas podem indicar que chegou o momento de se aproximar.
Uma conversa pode começar com uma observação simples: “Percebi que você não está bem. Quer conversar?”. Ao ouvir, é importante evitar sermões, acusações, comparações e promessas de sigilo absoluto quando houver risco imediato.
Frases como “estou aqui com você”, “o que você sente é importante” e “vamos procurar ajuda juntos” costumam acolher melhor do que conselhos rápidos. Se a pessoa demonstrar intenção de se machucar, ela não deve ser deixada sozinha. Familiares, profissionais de saúde ou serviços de emergência precisam ser acionados.
O Setembro Amarelo não pode ficar restrito a setembro. Prevenção também significa fortalecer os Centros de Atenção Psicossocial, as Unidades Básicas de Saúde, as escolas, os ambientes de trabalho e as redes comunitárias. Significa combater bullying, violência, discriminação e outras condições que ampliam o sofrimento.
Empresas precisam criar ambientes nos quais adoecer emocionalmente não seja confundido com incompetência. Escolas devem manter canais seguros de acolhimento. Famílias precisam aprender a ouvir sem transformar toda conversa em julgamento. Governos devem garantir acesso contínuo a profissionais e serviços de saúde mental.
Se você estiver passando por um momento difícil ou pensando em se machucar, procure ajuda imediatamente. O Centro de Valorização da Vida oferece escuta gratuita, sigilosa e sem julgamentos pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia e sem custo de ligação. O atendimento também ocorre por outros canais no site da instituição.
Em uma situação de risco imediato, ligue para o SAMU pelo número 192 ou procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital. Também é possível buscar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde ou em um Centro de Atenção Psicossocial.
A fita amarela nasceu de uma tragédia, mas se transformou em um chamado coletivo. Ela lembra que uma conversa pode interromper o silêncio, que a escuta pode reduzir o isolamento e que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de continuar.