Psicodélico da ayahuasca pode ajudar o cérebro a produzir novos neurônios

Psicodélico da ayahuasca pode ajudar o cérebro a produzir novos neurônios


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

DMT da ayahuasca pode ampliar a plasticidade cerebral? Durante boa parte do século 20, estudantes aprenderam que o cérebro humano chegava à vida adulta com uma quantidade praticamente definitiva de neurônios. A partir daí, essas células poderiam morrer, mas dificilmente seriam substituídas. Era como receber uma máquina complexa sem peças de reposição.

A ciência descobriu que a história pode ser mais interessante. Existem células-tronco e progenitoras neurais capazes de participar da formação de novas células no sistema nervoso, embora sejam raras e permaneçam a maior parte do tempo em repouso. Estudos recentes identificaram progenitores em proliferação e neurônios imaturos no hipocampo adulto, área ligada à memória e ao aprendizado, mas o tamanho e a importância desse processo em seres humanos continuam sendo investigados.

Uma nova pesquisa brasileira acrescentou uma peça surpreendente a esse quebra-cabeça. Cientistas observaram que a dimetiltriptamina, conhecida como DMT, estimulou a multiplicação de células-tronco neurais humanas cultivadas em laboratório.

O DMT é o principal composto responsável pelos efeitos psicodélicos da ayahuasca, bebida utilizada há séculos por diferentes povos originários da Amazônia em cerimônias, práticas espirituais e contextos tradicionais de cuidado.

O resultado despertou atenção porque sugere que a substância pode agir não apenas sobre a percepção e a consciência, mas também sobre mecanismos celulares ligados à plasticidade cerebral. A descoberta, porém, não significa que beber ayahuasca faça automaticamente o cérebro produzir novos neurônios.

O estudo não administrou a bebida a voluntários. Os pesquisadores aplicaram DMT isolado em células cultivadas dentro de placas de laboratório. Entre uma célula que começa a se multiplicar e um neurônio funcional integrado ao cérebro existe uma longa jornada biológica.

A ciência está investigando se o DMT poderá se transformar em ferramenta terapêutica, mas isso é muito diferente de considerar a ayahuasca uma cura comprovada.

A ciência está investigando se o DMT poderá se transformar em ferramenta terapêutica, mas isso é muito diferente de considerar a ayahuasca uma cura comprovada

O que o estudo descobriu sobre a ayahuasca e o DMT?

Publicado em julho de 2026 na revista científica ACS Chemical Neuroscience, o trabalho foi conduzido por pesquisadores ligados ao Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, à Universidade Federal do Rio de Janeiro e à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, entre outras instituições.

Os cientistas utilizaram células adultas humanas que haviam sido reprogramadas para retornar a um estado semelhante ao embrionário. Essas estruturas são chamadas de células-tronco pluripotentes induzidas. Com os estímulos adequados, elas foram transformadas em células-tronco neurais, criando um modelo vivo para estudar acontecimentos que não poderiam ser provocados diretamente no cérebro de uma pessoa.

As células foram expostas ao DMT durante 24 horas. O tratamento aumentou sua proliferação de maneira dependente da concentração, ou seja, determinadas concentrações provocaram uma resposta maior. Os pesquisadores também encontraram alterações em reguladores relacionados à fase inicial do ciclo celular.

Isso indica que uma parcela maior das células deixou o estado de repouso e começou a copiar seu material genético, preparando-se para a divisão.

A DMT também alterou moléculas ligadas à sobrevivência e à adaptação das células neurais. A expressão do gene do fator de crescimento do nervo, conhecido como NGF, aumentou aproximadamente 9,5 vezes. Já a expressão do BDNF, fator neurotrófico derivado do cérebro, cresceu cerca de 4,6 vezes. O nível da proteína BDNF dentro das células também aumentou.

Esses fatores são importantes porque participam de processos como crescimento, manutenção, sobrevivência celular e plasticidade neural. Isso não significa, porém, que uma elevação observada em uma cultura de células produziria necessariamente os mesmos efeitos dentro de um cérebro vivo.

A descoberta mostra que o DMT fez células-tronco neurais humanas iniciarem a multiplicação, não que a ayahuasca tenha criado novos neurônios em pessoas.

Depois da exposição, os pesquisadores retiraram completamente o DMT e reuniram as células em estruturas tridimensionais chamadas neuroesferas. As células que haviam entrado em contato com a substância formaram neuroesferas maiores e metabolicamente mais ativas durante os primeiros dias.

A molécula já não estava presente, mas alguns efeitos permaneceram. Ao mesmo tempo, a proporção dos diferentes tipos de células não mudou de maneira significativa, sugerindo que o DMT aumentou principalmente a quantidade de células, sem alterar claramente o caminho de maturação que elas estavam seguindo.

Multiplicar células não é o mesmo que produzir neurônios

A palavra neurogênese descreve um processo complexo. Para que um novo neurônio surja, uma célula-tronco precisa sair do repouso, multiplicar-se, sobreviver, diferenciar-se, amadurecer e desenvolver conexões.

Depois disso, a nova célula ainda precisa integrar-se aos circuitos existentes e funcionar de maneira adequada. Apenas aumentar a proliferação representa o começo dessa trajetória.

O estudo de 2026 observou principalmente essa primeira etapa. Os pesquisadores não demonstraram que as células expostas ao DMT se transformaram em neurônios maduros, nem que conseguiriam estabelecer conexões ou melhorar a memória de uma pessoa.

Também é necessário lembrar que as células foram cultivadas em condições cuidadosamente controladas. Dentro do cérebro, elas interagem com vasos sanguíneos, células de defesa, hormônios, neurotransmissores e milhares de sinais químicos.

Apesar dessas limitações, o resultado não surgiu completamente isolado. Em 2020, pesquisadores já haviam observado que o DMT estimulou etapas relacionadas à neurogênese em camundongos, incluindo proliferação de células-tronco neurais, migração de neuroblastos e geração de novos neurônios no hipocampo. Os animais tratados também apresentaram melhor desempenho em tarefas de memória e aprendizado espacial.

Os resultados em animais não podem ser transferidos automaticamente para seres humanos. O cérebro de um camundongo possui diferenças importantes em relação ao nosso, e as doses, os métodos de administração e o metabolismo também podem variar.

A relevância da nova pesquisa está justamente no uso de células humanas. Ela diminui uma parte da distância entre os experimentos com roedores e a biologia humana, mas ainda não substitui estudos realizados em pessoas.

A descoberta mostra que o DMT fez células-tronco neurais humanas iniciarem a multiplicação, não que a ayahuasca tenha criado novos neurônios em pessoas.

A descoberta mostra que o DMT fez células-tronco neurais humanas iniciarem a multiplicação, não que a ayahuasca tenha criado novos neurônios em pessoas

A ayahuasca poderá ser usada para regenerar o cérebro?

A resposta mais responsável, neste momento, é que ainda não sabemos.

A ayahuasca normalmente é preparada com plantas que fornecem DMT e beta-carbolinas capazes de inibir a enzima monoamina oxidase. Sem essa inibição, o DMT ingerido seria rapidamente degradado pelo organismo e teria pouca ação psicoativa por via oral.

Isso significa que a ayahuasca é uma mistura farmacologicamente complexa. O novo estudo avaliou DMT isolado, não a bebida completa. Portanto, não é possível concluir que todos os efeitos encontrados nas células também ocorram após uma cerimônia ou que os demais componentes da preparação não interfiram no resultado.

Pesquisas anteriores indicaram que alcaloides da planta Banisteriopsis caapi, frequentemente utilizada no preparo, também estimularam proliferação, migração e diferenciação de células progenitoras neurais de camundongos em laboratório. Esses dados reforçam o interesse pela mistura, mas continuam sendo resultados pré-clínicos.

O campo dos psicodélicos tem investigado a hipótese de que substâncias como DMT e psilocibina possam aumentar a plasticidade cerebral. Em vez de simplesmente fabricar uma enorme quantidade de neurônios, elas poderiam modificar conexões, estimular o crescimento de ramificações e tornar determinados circuitos mais flexíveis.

Essa possibilidade interessa especialmente ao estudo da depressão, condição associada, em algumas pesquisas, a alterações em circuitos neurais e padrões mentais persistentes.

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte avaliou DMT vaporizado em pessoas com depressão resistente ao tratamento. O trabalho foi pequeno e aberto, sem um grupo paralelo recebendo placebo, mas encontrou redução rápida dos sintomas após uma única administração. Os resultados são promissores, porém precisam ser confirmados por estudos maiores, controlados e capazes de separar os efeitos biológicos da experiência subjetiva.

Outros ensaios clínicos também estão testando diferentes formulações de DMT em pessoas com depressão resistente. Uma película bucal de DMT sintético, por exemplo, está sendo comparada com placebo em uma pesquisa clínica.

A ciência está investigando se o DMT poderá se transformar em ferramenta terapêutica, mas isso é muito diferente de considerar a ayahuasca uma cura comprovada.

Por que o resultado não autoriza a automedicação?

O novo estudo não avaliou benefícios clínicos, doses seguras para estimular células neurais ou resultados de longo prazo. Ele também não demonstrou que consumir mais DMT produziria maior regeneração cerebral.

A proliferação celular precisa ser cuidadosamente regulada. Fazer células se multiplicarem não é sempre positivo, especialmente quando não se sabe como elas irão amadurecer, onde irão se integrar e por quanto tempo o efeito permanecerá.

A ayahuasca também pode provocar náuseas, alterações cardiovasculares, ansiedade intensa, desorientação e experiências psicologicamente difíceis. Estudos clínicos com psicodélicos são realizados com triagem, preparação, controle da dose, supervisão e acompanhamento dos participantes. Revisões científicas mostram que essas substâncias foram geralmente toleradas nos ambientes de pesquisa, mas eventos adversos podem ocorrer.

As beta-carbolinas presentes na bebida inibem a monoamina oxidase e podem interagir com determinados medicamentos. A combinação com alguns antidepressivos serotoninérgicos, por exemplo, é apontada como potencialmente perigosa.

Pessoas com predisposição a transtornos psicóticos também exigem atenção especial. Uma revisão de estudos humanos recomendou avaliação psiquiátrica e ambientes controlados para reduzir o risco de reações graves.

Nada disso diminui a importância cultural e espiritual da ayahuasca para comunidades tradicionais e grupos religiosos. Significa apenas que uma descoberta celular não deve ser transformada apressadamente em recomendação médica.

O estudo brasileiro abre uma pergunta fascinante. Uma molécula conhecida por alterar profundamente a percepção também parece capaz de despertar células neurais humanas que estavam em repouso.

Ainda não sabemos se essas células completariam o caminho até se tornarem neurônios, se conseguiriam funcionar dentro do cérebro ou se esse processo teria algum benefício terapêutico.

A descoberta não prova que a ayahuasca regenera o cérebro. Ela mostra algo mais modesto, mas cientificamente relevante: após uma breve exposição ao DMT, células-tronco neurais humanas demonstraram maior disposição para se multiplicar e produzir sinais associados ao crescimento e à plasticidade.

Talvez futuras pesquisas descubram uma maneira segura de transformar esse mecanismo em tratamento. Até lá, o que existe é uma pista promissora, observada dentro de uma placa de laboratório, e não uma receita pronta para criar novos neurônios.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também