Cada encontro com um vírus não apenas nos deixa cansados, mas também nos envelhece biologicamente. Estudos recentes revelam que a idade registrada em documentos pode ser muito inferior à idade biológica em indivíduos que enfrentaram várias infecções virais ou lidam com infecções crônicas. Em alguns casos, uma pessoa de 40 anos pode apresentar um sistema imunológico comparável ao de alguém de 60 anos, impactando significativamente a qualidade de vida e a eficiência das células de defesa.
Mas como isso acontece? Como um vírus pode acelerar o envelhecimento? A resposta está nos telômeros, estruturas nas extremidades dos cromossomos, agindo como capacetes protetores. Sem esses telômeros, os cromossomos, feitos como lã, correriam o risco de desgaste e colapso.
Ao longo da vida, as células se renovam através de divisões celulares sucessivas, causando um desgaste gradual nos telômeros, conhecido como encurtamento dos telômeros. Com o tempo, essas estruturas tornam-se tão pequenas que não conseguem mais cumprir sua função protetora, resultando no desgaste e perda da formação original do cromossomo.
O encurtamento dos telômeros não é exclusivamente um processo relacionado à idade; fatores como etnia, sexo, estresse, dieta e exposição a doenças também desempenham um papel crucial.
Quando o sistema imunológico combate micro-organismos nocivos, ocorre uma expansão massiva das células de defesa, desencadeando um desgaste adicional nos telômeros. Isso aumenta a probabilidade de imunossenescência, um estado em que o sistema imunológico envelhece prematuramente. Estudos indicam que vírus como HIV, Epstein-Barr e hepatite C podem levar ao encurtamento dos telômeros, assim como observado em pacientes com covid-19 grave.
Com o envelhecimento do sistema imunológico, as células perdem a capacidade de nos proteger contra infecções, aumentando o risco de doenças infecciosas. Idosos respondem de maneira pior às infecções e vacinas, pois um sistema imunológico saudável é essencial para a eficácia das vacinas.
Além disso, o encurtamento dos telômeros pode prejudicar a regeneração de tecidos após infecções, contribuindo para sequelas e maior risco de outras condições. O envelhecimento imunológico está associado a maior suscetibilidade a infecções respiratórias, urinárias, endocardite infecciosa, sepse, câncer, Alzheimer e doenças autoimunes.
Essa relação entre infecções e envelhecimento, mediada pelo desgaste dos telômeros, destaca a necessidade de pesquisas mais aprofundadas para desenvolver estratégias que possam mitigar esse processo de envelhecimento acelerado.
Raquel Behar Lagares, Amanda Fernández Rodríguez e María Angeles Jiménez Sousa são pesquisadores do Centro Nacional de Microbiologia no Instituto de Saúde Carlos III, na Espanha.