Nesta madrugada teremos a chuva de meteoros Sextântidas Diurnas

Nesta madrugada teremos a chuva de meteoros Sextântidas Diurnas

A passagem de setembro para outubro oferece uma oportunidade de observação, mas a atividade visível deve ser pequena. Vale a pena tentar assistir.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

A cidade ainda está silenciosa, o café começa a passar e o horizonte permanece escuro. De repente, um traço de luz atravessa o céu e desaparece antes que alguém consiga apontar. É uma cena possível para quem decidir observar a última parte da madrugada na passagem desta quarta-feira, 30 de setembro, para quinta-feira, 1º de outubro de 2026.

As Sextântidas Diurnas estão próximas de seu período de maior atividade. Mas, antes de preparar o despertador, é importante saber que essa chuva de meteoros oferece um desafio: a observação visual é difícil e pode terminar sem nenhum registro.

O calendário de 2026 da Organização Internacional de Meteoros, a IMO, indica atividade entre 20 de setembro e 6 de outubro, com máximo previsto para 1º de outubro. Portanto, o fenômeno não começa nem termina nesta madrugada. Trata-se de uma oportunidade dentro de um período que se estende por vários dias.

Uma chuva de meteoros pode estar ativa mesmo quando quase nenhum de seus integrantes é visível para quem observa do chão.

Uma chuva de meteoros pode estar ativa mesmo quando quase nenhum de seus integrantes é visível para quem observa do chão

O que são as Sextântidas Diurnas e por que têm esse nome?

Apesar do apelido popular de “estrelas cadentes”, meteoros não são estrelas caindo. São fenômenos luminosos produzidos quando pequenas partículas vindas do espaço entram na atmosfera em alta velocidade. A interação com o ar gera o brilho que enxergamos como um risco passageiro.

Conforme explica a NASA sobre meteoros e meteoritos, essas partículas podem fazer parte de rastros de detritos encontrados pela Terra durante sua órbita. Quando muitos meteoros estão associados a uma mesma corrente de partículas, temos uma chuva de meteoros.

O nome Sextântidas faz referência à direção da constelação de Sextante, onde fica o radiante: o ponto do céu de onde os trajetos parecem se espalhar. Isso não significa que as partículas venham das estrelas daquela constelação. É uma referência de posição aparente no céu.

Já a palavra “diurnas” explica a principal dificuldade. O radiante fica próximo da direção do Sol, de modo que sua passagem pelo céu acontece, em grande parte, sob a claridade do dia. Essa luminosidade impede que a maioria dos meteoros seja percebida a olho nu.

Uma chuva diurna pode ser observada no escuro?

Existe uma possibilidade limitada antes do amanhecer. Nesse intervalo, a região do radiante começa a aparecer acima do horizonte, mas a luz do dia ainda não dominou completamente o céu. É uma disputa entre dois fatores: a posição do radiante melhora enquanto a escuridão diminui.

O acompanhamento por técnicas de rádio tem especial importância para essa chuva justamente porque não depende de enxergar um rastro luminoso contra um fundo escuro. O calendário de outubro da União dos Astrônomos Amadores Italianos destaca esse interesse pelas Sextântidas Diurnas e apresenta o valor indicativo de cerca de cinco meteoros por hora em condições idealizadas.

Para o observador visual, entretanto, a experiência pode ser bem mais discreta. O termo “chuva” descreve a associação dos meteoros a uma corrente de partículas; não garante uma sequência intensa de luzes atravessando o céu.

Uma chuva de meteoros pode estar ativa mesmo quando quase nenhum de seus integrantes é visível para quem observa do chão.

Como tentar observar as Sextântidas Diurnas no Brasil?

A melhor tentativa é feita na parte final da madrugada, antes de o céu clarear, com uma vista aberta para o leste, a direção do nascer do Sol. Não existe um horário único adequado para todo o Brasil: a janela depende da localização e dos horários locais do amanhecer.

Escolha um ponto seguro, com pouca iluminação direta e sem prédios ou árvores bloqueando grande parte do horizonte. Observe uma área ampla do céu, sem fixar o olhar exclusivamente no radiante. Os meteoros podem surgir afastados desse ponto, embora seus trajetos aparentes possam ser prolongados em direção a ele.

Nesta semana, a Lua também atrapalha. Depois da fase cheia de 26 de setembro, ela permanece brilhante durante parte da noite e da madrugada, reduzindo a percepção dos meteoros mais fracos. Nuvens e luzes urbanas acrescentam outras limitações.

Assim, dizer que é possível tentar observar as Sextântidas Diurnas do Brasil não equivale a garantir visibilidade em todas as cidades. Um céu completamente encoberto, por exemplo, inviabiliza a busca visual.

A observação deve acontecer enquanto houver escuridão suficiente. Nunca olhe diretamente para o Sol nem aponte instrumentos ópticos para ele nessa tentativa. O interesse está nos meteoros antes do amanhecer, não na observação solar.

O nome Sextântidas faz referência à direção da constelação de Sextante, onde fica o radiante: o ponto do céu de onde os trajetos parecem se espalhar

O nome Sextântidas faz referência à direção da constelação de Sextante, onde fica o radiante: o ponto do céu de onde os trajetos parecem se espalhar

Quantos meteoros realmente podem aparecer?

O número de aproximadamente cinco meteoros por hora exige contexto. A taxa horária zenital, conhecida pela sigla ZHR, é uma referência normalizada para condições idealizadas, incluindo céu escuro e radiante em posição favorável. Ela não corresponde automaticamente ao que uma pessoa verá durante uma hora no quintal.

No caso das Sextântidas Diurnas, a geometria é especialmente desfavorável: quando ainda há escuridão, o radiante está baixo. Quando ele sobe mais, a claridade interfere. Portanto, a contagem visual pode ficar muito abaixo daquela referência.

O boletim de Robert Lunsford para 26 de setembro a 2 de outubro apresenta uma estimativa inferior a um meteoro por hora dessa chuva nas condições de referência da tabela. Os valores correspondem à noite de 26 para 27 de setembro, dentro do período analisado, e não constituem uma previsão exata para cada cidade brasileira na madrugada de 1º de outubro.

Também há diferenças entre as referências sobre a data do máximo. Enquanto o calendário da IMO indica 1º de outubro, a tabela de Lunsford aponta 2 de outubro. Isso reforça a importância de tratar o início do mês como um período de interesse, sem anunciar um horário preciso em que o céu necessariamente ficará mais movimentado.

Outro detalhe merece atenção: nem todo meteoro visto nessa madrugada será uma Sextântida. Há meteoros esporádicos e outras fontes de atividade. Associar um rastro à chuva exige observar sua trajetória e outras características, algo que vai além de simplesmente perceber um clarão.

Vale acordar cedo? Para quem aprecia astronomia e entende a baixa expectativa, pode ser uma experiência interessante. Mas não é necessário transformar a ocasião em uma noite inteira sem dormir à espera de um grande espetáculo.

As Sextântidas Diurnas convidam a uma observação paciente. Talvez apareça um breve risco luminoso; talvez não. O fascínio está nessa possibilidade de encontrar, entre os últimos minutos de escuridão e a chegada do dia, um pequeno fragmento do espaço tornando-se luz.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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