Imagine abrir um livro escrito há mais de um século porque um jogador do seu time falou sobre ele depois de sair de campo. Foi o que aconteceu com muitos torcedores do Atlético-MG após Gustavo Scarpa publicar uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch, do escritor russo Liev Tolstói. A indicação ultrapassou o círculo de quem já acompanhava literatura e deu origem a um clube de leitura entre atleticanos.
No vídeo publicado no Canal do Scarpinha, no YouTube, o meio-campista comenta uma obra sobre um juiz que adoece e começa a questionar as escolhas que fez ao longo da vida. A conversa encontrou leitores dispostos a conhecer a história e a discuti-la com outras pessoas. Segundo reportagem do Metrópoles publicada em 19 de setembro de 2026, edições do livro tiveram estoques esgotados, e o título chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon Brasil após a repercussão do vídeo.
A história ganhou um capítulo brasileiro que Tolstói dificilmente poderia imaginar. Uma torcedora criou a Galeitura, nome que junta “Galo” e “leitura”, para reunir pessoas interessadas em ler o mesmo livro e trocar impressões. O que começou com a recomendação de Gustavo Scarpa se transformou em uma atividade coletiva fora dos estádios.

Um livro pode chegar ao leitor por muitos caminhos. Neste caso, passou por uma resenha de futebol e encontrou uma torcida inteira disposta a conversar sobre ele
Que livro Gustavo Scarpa indicou aos torcedores?
Publicado em 1886, A Morte de Ivan Ilitch acompanha a trajetória de um homem que construiu uma vida considerada bem-sucedida. Ivan tem carreira, posição social e uma rotina organizada. Quando enfrenta uma doença grave, porém, passa a examinar com outros olhos tudo o que antes parecia suficiente.
O título revela desde o começo o destino do protagonista. O interesse da obra está na maneira como ele reage a essa descoberta e observa as pessoas ao seu redor. A história abre espaço para perguntas difíceis: quanto das nossas escolhas fazemos por vontade própria? O que acontece quando a vida que parecia correta deixa de fazer sentido? É um tema capaz de provocar conversas mesmo entre leitores que nunca tiveram contato com a literatura russa.
Um livro pode chegar ao leitor por muitos caminhos. Neste caso, passou por uma resenha de futebol e encontrou uma torcida inteira disposta a conversar sobre ele.
Gustavo Scarpa já compartilhava leituras antes desse episódio. Ao longo dos anos, publicou comentários sobre autores como Dostoiévski, Kafka e Machado de Assis. Seu jeito informal de falar sobre os livros ajuda a tirar dessas obras a aparência de que são reservadas a especialistas. Ele comenta o que leu como alguém dividindo uma descoberta com outras pessoas, sem exigir que o público conheça previamente o autor ou a época em que viveu.
O livro ficou entre os mais vendidos por quanto tempo?
A reportagem registra que A Morte de Ivan Ilitch alcançou o topo das vendas da Amazon Brasil após a indicação. Essa é uma posição observada naquele período, não uma classificação permanente. Também não é possível atribuir cada compra exclusivamente ao vídeo, embora a sequência entre a publicação da resenha e a procura pelo título tenha chamado atenção.
O resultado mais interessante aparece além do ranking: pessoas buscaram diferentes edições de uma obra do século 19 e quiseram lê-la juntas. Para uma história que discute solidão e a forma como nos relacionamos, o surgimento de um grupo de leitores parece até uma resposta inesperada ao livro.

O que começou com a recomendação de Gustavo Scarpa se transformou em uma atividade coletiva fora dos estádios
Como nasceu a Galeitura, clube inspirado por Gustavo Scarpa?
A Galeitura foi criada pela torcedora Carolina Marques. De acordo com o Metrópoles, o grupo de WhatsApp reuniu mais de 400 pessoas em menos de 24 horas e contava com cerca de 500 participantes quando a reportagem foi publicada. O perfil do projeto no Instagram também passou a atrair interessados em acompanhar a iniciativa.
O primeiro título escolhido foi justamente A Morte de Ivan Ilitch. A leitura começou em 16 de setembro, com um calendário de três semanas, conversas semanais e um encontro final on-line. A divisão permite que os participantes avancem juntos e discutam a história sem antecipar acontecimentos para quem ainda está nas primeiras páginas. A proposta divulgada é manter o ritmo de um livro por mês, a partir das recomendações do jogador.
Por que um clube de leitura criado por torcedores chama atenção?
A torcida já sabe o que significa compartilhar uma experiência. Pessoas que nunca se encontraram pessoalmente comentam o mesmo jogo, discutem um lance e levam aquela conversa para o dia seguinte. Na Galeitura, o ponto de encontro passou a ser também uma página: cada participante lê no seu tempo, mas encontra outras pessoas com quem conversar sobre o que a história despertou.
Isso torna mais fácil começar um livro que, sozinho na estante, talvez parecesse distante. Quem não entendeu uma passagem pode perguntar. Quem chegou ao fim pode ouvir uma interpretação diferente da sua. O vínculo com o Atlético aproxima os participantes; a leitura dá a eles um novo assunto para permanecerem juntos.
Gustavo Scarpa não precisou apresentar a literatura como uma obrigação para provocar esse movimento. Compartilhou uma leitura que o interessou, e a torcida criou seu próprio espaço para continuar a conversa. Ainda é cedo para saber quantos títulos passarão pela Galeitura ou como o grupo vai crescer. Seu começo, porém, já mostra algo curioso: às vezes, basta alguém falar de um livro com entusiasmo para que centenas de pessoas resolvam abri-lo.