Imagine caminhar diante de um shopping e levantar os olhos para uma tela enorme. Você espera encontrar o lançamento de um celular, um perfume ou o rosto de alguém famoso pelo cinema. Mas quem aparece é um pesquisador. Em outro painel, uma cientista ligada à descoberta de um medicamento. Mais adiante, um especialista que dedicou a vida a melhorar a produção de alimentos.
A cena ajuda a entender uma iniciativa chinesa que chamou atenção nas redes sociais: dar aos cientistas parte da visibilidade normalmente destinada à publicidade. O contraste provoca curiosidade porque desloca o foco do produto que podemos comprar para o conhecimento que tornou alguma transformação possível.
Por trás das imagens, existe uma pergunta que também cabe fora da China: sabemos reconhecer o rosto de quem contribuiu para mudar nossa vida? E o que aconteceria se essas pessoas estivessem mais presentes nos lugares por onde passamos todos os dias?

É possível imaginar um estudante vendo um desses retratos e procurando saber quem está ali. Esse encontro pode abrir uma conversa sobre profissões, descobertas e problemas
Como os cientistas foram parar nos telões da China?
Segundo uma reportagem do People’s Daily Online, veículo da imprensa estatal chinesa, a iniciativa começou no fim de agosto de 2026, de forma voluntária, com empresas comerciais da província de Shandong. Uma homenagem ao cientista de foguetes Qian Xuesen apareceu em uma grande tela externa e ganhou repercussão.
O movimento alcançou cidades como Zhengzhou, Hangzhou e Chongqing. Painéis de LED e espaços publicitários passaram a apresentar também nomes como a pesquisadora Tu Youyou, o especialista em agricultura Yuan Longping e o físico nuclear Deng Jiaxian. A proposta levou personagens da história científica chinesa para ambientes de grande circulação.
Uma fachada comercial pode parecer um cenário improvável para falar de pesquisa. Justamente por isso, a escolha tem força visual. O pedestre não precisa entrar em um museu, assistir a uma palestra ou procurar uma biografia para encontrar aquele nome. A homenagem aparece no caminho de uma compra, de um compromisso ou da volta para casa.
A China deixou de anunciar com celebridades?
A informação disponível não sustenta essa conclusão. A reportagem descreve homenagens em espaços publicitários e sua disseminação por diferentes cidades. Isso não equivale a uma proibição nacional de anúncios com artistas, atletas ou influenciadores.
A diferença importa porque uma história interessante não precisa virar uma transformação absoluta para merecer atenção. Reservar espaço para pesquisadores já permite discutir quais realizações recebem reconhecimento público e quais permanecem distantes do cotidiano.
Também não é necessário tratar entretenimento e ciência como adversários. Uma sociedade pode admirar músicos, acompanhar esportes e conhecer melhor seus pesquisadores. A questão provocada pelos telões é a possibilidade de ampliar esse repertório.
Quem merece ocupar os maiores espaços da nossa atenção?
Quem são os cientistas homenageados?
Entre os nomes apresentados está Qian Xuesen, associado ao desenvolvimento de foguetes e à trajetória espacial chinesa. Seu retrato aproxima o público de uma área em que geralmente conhecemos melhor as máquinas do que as pessoas envolvidas na construção do conhecimento.
Tu Youyou oferece outro exemplo, ligado à saúde. Ela recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2015 por descobertas relacionadas a uma nova terapia contra a malária. Conforme explica o site oficial do Prêmio Nobel, suas pesquisas com a planta Artemisia annua levaram à obtenção da artemisinina, substância capaz de combater o parasita causador da doença.
Sua trajetória mostra como uma pergunta científica pode atravessar diferentes campos. O estudo de preparações tradicionais foi um ponto de partida, mas identificar uma substância e demonstrar sua utilidade exigiu investigação. A descoberta permite falar tanto de curiosidade quanto do trabalho necessário para transformar uma observação em conhecimento aplicável.
Já Yuan Longping ficou conhecido pelo desenvolvimento do arroz híbrido. A Fundação World Food Prize registra que ele recebeu a premiação em 2004 por avanços em materiais genéticos e tecnologias essenciais à obtenção de variedades de arroz de alta produtividade.
Nesse caso, o tema parece distante de quem nunca visitou uma área de cultivo, mas se aproxima rapidamente quando pensamos na alimentação. Melhorar uma cultura agrícola envolve perguntas concretas: quanto é possível colher, quais características uma planta apresenta e como desenvolver variedades que atendam às necessidades da produção.
Reunidos, esses exemplos oferecem diferentes portas de entrada para a ciência. Há quem se encante pela exploração espacial, quem se interesse por medicamentos e quem queira compreender a origem dos alimentos. O rosto no painel pode ser apenas o começo de uma busca.

O pedestre não precisa entrar em um museu, assistir a uma palestra ou procurar uma biografia para encontrar aquele nome
Uma homenagem pode despertar novas vocações?
É possível imaginar um estudante vendo um desses retratos e procurando saber quem está ali. Esse encontro pode abrir uma conversa sobre profissões, descobertas e problemas ainda sem solução. No entanto, as informações consultadas não demonstram que a iniciativa tenha aumentado o ingresso em carreiras científicas.
Inspirar é uma possibilidade; medir esse efeito exige pesquisa. Seria necessário acompanhar o público, investigar o que ele aprendeu e observar se o contato teve alguma influência nas escolhas posteriores. A repercussão de uma imagem, sozinha, não responde a essas perguntas.
Há ainda outro cuidado: contar histórias de grandes cientistas sem transformar a pesquisa em uma atividade de gênios isolados. Um rosto facilita a identificação, mas uma descoberta costuma envolver equipes, instituições, recursos e contribuições acumuladas. A homenagem fica mais rica quando desperta interesse também por esse trabalho coletivo.
Da mesma forma, reconhecimento visual e apoio à pesquisa cumprem funções diferentes. Um painel pode tornar um nome conhecido. Para que novos pesquisadores desenvolvam seus projetos, são necessárias oportunidades de formação, infraestrutura e condições de trabalho.
Ainda assim, a cena tem valor como convite à curiosidade. Ao passar por uma tela e descobrir que aquele rosto está ligado a uma pesquisa sobre alimentos ou medicamentos, alguém pode perceber a ciência mais perto da própria rotina.
Talvez a pergunta mais interessante não seja quem deveria desaparecer dos anúncios, mas quem ainda falta aparecer. Se uma grande tela da sua cidade fosse dedicada a cientistas, qual história você gostaria de ver contada?
