Criador do miojo comia o produto todos os dias e morreu aos 96 anos

Criador do miojo comia o produto todos os dias e morreu aos 96 anos

Momofuku Ando criou o macarrão instantâneo no Japão do pós-guerra. A invenção nasceu para ser barata, prática e fácil de preparar.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Toda vez que alguém coloca água para ferver e abre um pacote de miojo, parece existir uma voz invisível pronta para aparecer: “isso faz mal”. O macarrão instantâneo carrega uma fama difícil. É prático, barato, rápido, amado por estudantes, trabalhadores e pessoas com pressa, mas também é frequentemente lembrado pelo excesso de sódio, por ser ultraprocessado e por não representar uma refeição completa.

Só que existe uma curiosidade capaz de deixar essa conversa muito mais interessante. Momofuku Ando, o criador do miojo, dizia comer Chicken Ramen regularmente, quase como parte de sua rotina diária, e viveu até os 96 anos. Segundo relatos publicados após sua morte, ele consumia macarrão instantâneo todos os dias e atribuía sua longevidade a uma combinação curiosa: jogar golfe e comer sua própria invenção.

A história parece uma provocação pronta para quem condena o produto sem meio-termo. Afinal, como o criador do miojo, um alimento tão criticado por nutricionistas e médicos quando consumido em excesso, conseguiu chegar perto dos 100 anos comendo macarrão instantâneo com tanta frequência?

A resposta, claro, não cabe em uma frase. A longevidade de uma pessoa não prova que um alimento seja saudável. Genética, rotina, quantidade consumida, prática de exercícios, contexto de vida, restante da dieta e acesso a cuidados médicos também contam. Ainda assim, a vida de Momofuku Ando é uma das histórias mais curiosas da indústria alimentícia moderna.

O criador do miojo não apenas inventou um produto prático. Ele criou um alimento que atravessou crises, culturas, gerações e até chegou ao espaço.

O miojo pode até ser simples no prato, mas sua história envolve guerra, fome, criatividade, globalização e exploração espacial.

O miojo pode até ser simples no prato, mas sua história envolve guerra, fome, criatividade, globalização e exploração espacial

Criador do miojo: quem foi Momofuku Ando?

Momofuku Ando nasceu em 1910, em Taiwan, em uma época em que a ilha estava sob domínio japonês. Sua trajetória empresarial teve altos e baixos, mas sua invenção mais famosa surgiu no Japão do pós-guerra, quando o país ainda enfrentava dificuldades profundas de abastecimento e reconstrução.

Depois da Segunda Guerra Mundial, muitas cidades japonesas estavam marcadas pela escassez. Filas para conseguir comida eram comuns, e uma tigela quente de lámen podia representar muito mais do que uma simples refeição. Ando observava esse cenário e desenvolveu uma convicção que guiaria sua vida: não existe paz verdadeira enquanto as pessoas estão com fome.

Foi dessa ideia que nasceu sua obsessão por criar um alimento acessível, gostoso, fácil de armazenar e rápido de preparar. Ele queria algo que pudesse ser guardado por bastante tempo e, ao mesmo tempo, ficasse pronto apenas com água quente. Hoje isso parece simples, porque o miojo está em qualquer mercado. Na época, era um desafio técnico enorme.

Aos 48 anos, Ando montou uma pequena instalação no quintal de sua casa, em Ikeda, perto de Osaka. Trabalhou por meses em experimentos, testando massas, formas de secagem, temperos e métodos de conservação. A solução apareceu quando ele desenvolveu o processo de fritura rápida dos fios já preparados.

Ao fritar o macarrão, a água evaporava e deixava pequenos espaços na estrutura da massa. Depois, quando o consumidor acrescentava água fervente, esses espaços permitiam que o macarrão fosse reidratado rapidamente. Era o nascimento de uma revolução alimentar.

Como nasceu o primeiro macarrão instantâneo?

Em 1958, Momofuku Ando lançou o Chicken Ramen, considerado o primeiro macarrão instantâneo comercial da história. O produto vinha temperado e precisava apenas de água quente para ficar pronto. Bastava colocar o bloco de macarrão em uma tigela, acrescentar água fervente, esperar alguns minutos e comer.

No começo, o Chicken Ramen não era exatamente a comida baratinha que muita gente imagina hoje. Por ser uma novidade tecnológica, chegou às prateleiras como um produto relativamente mais caro do que alguns tipos tradicionais de macarrão. Mas, com o aumento da produção, a praticidade venceu. O preço caiu, a popularidade cresceu e o alimento começou a conquistar o Japão.

A genialidade do criador do miojo estava em entender a vida real. Nem todo mundo tinha tempo, dinheiro ou estrutura para cozinhar longamente. Um alimento que ficava pronto em minutos resolvia problemas concretos. Trabalhadores, estudantes, famílias e pessoas vivendo em ambientes pequenos passaram a encontrar no macarrão instantâneo uma solução rápida para a fome.

O sucesso foi tão grande que a invenção deixou de ser apenas japonesa. O macarrão instantâneo cruzou fronteiras, ganhou sabores locais, entrou em supermercados do mundo inteiro e virou sinônimo de praticidade. No Brasil, a palavra “miojo” se tornou tão popular que muita gente usa o nome para se referir a qualquer macarrão instantâneo, mesmo quando o produto é de outra marca.

Do quintal ao copo: a ideia que mudou tudo

A segunda grande virada de Ando veio durante uma viagem aos Estados Unidos. Ao observar empresários americanos preparando o Chicken Ramen de um jeito improvisado, ele percebeu algo importante. Eles quebravam o bloco de macarrão, colocavam os pedaços dentro de copos, adicionavam água quente e comiam tudo com garfo.

Para muitos, aquilo seria apenas uma adaptação curiosa. Para Ando, foi uma revelação. Se as pessoas queriam comer o macarrão dentro de um recipiente, o recipiente poderia fazer parte do próprio produto.

Em 1971, ele lançou o Cup Noodles, colocando o macarrão instantâneo dentro de um copo resistente ao calor. A embalagem deixava de ser apenas proteção e passava a ser também o recipiente de preparo e consumo. A pessoa não precisava de panela, prato ou tigela. Bastava abrir a tampa, colocar água quente, esperar e comer.

Essa ideia parece pequena, mas mudou completamente a escala do produto. O Cup Noodles combinava alimento, embalagem e praticidade em uma única solução. Era perfeito para escritórios, viagens, lojas de conveniência, dormitórios, plantões, aeroportos e qualquer situação em que cozinhar fosse difícil.

O criador do miojo tinha uma habilidade rara: enxergar comportamento. Ele não inventou apenas um alimento. Ele entendeu como as pessoas vivem quando estão com pressa, cansadas, sem cozinha por perto ou procurando algo rápido e reconfortante.

O criador do miojo não apenas inventou um produto prático. Ele criou um alimento que atravessou crises, culturas, gerações e até chegou ao espaço.

O criador do miojo não apenas inventou um produto prático. Ele criou um alimento que atravessou crises, culturas, gerações e até chegou ao espaço

O miojo chegou até o espaço?

Sim. E essa talvez seja uma das partes mais curiosiosas da história. Mesmo depois de envelhecer, Momofuku Ando continuou interessado em inovação. Em 2005, quando já tinha 95 anos, a Nissin desenvolveu o Space Ram, uma versão de macarrão instantâneo criada para ser consumida em ambiente de baixa gravidade.

O alimento foi levado ao espaço pelo astronauta japonês Soichi Noguchi em uma missão do ônibus espacial Discovery. Para funcionar fora da Terra, o macarrão precisou de adaptações. Em gravidade zero, água e comida não se comportam como em uma cozinha comum. A textura, o caldo, a embalagem e a forma de consumo precisam ser pensados para não causar bagunça dentro da nave.

É simbólico pensar que a invenção criada em um quintal, no Japão do pós-guerra, chegou ao espaço menos de meio século depois. O produto pensado para combater fome, pressa e escassez se transformou em item global e depois em alimento espacial.

Essa trajetória ajuda a explicar por que Momofuku Ando é lembrado não apenas como empresário, mas como inventor. Ele não criou um prato sofisticado. Criou uma tecnologia alimentar simples, replicável e profundamente conectada ao cotidiano.

O miojo pode até ser simples no prato, mas sua história envolve guerra, fome, criatividade, globalização e exploração espacial.

E então voltamos à pergunta que faz essa história viralizar: se o criador do miojo comia macarrão instantâneo todos os dias e morreu aos 96 anos, isso significa que o produto não faz mal?

Não exatamente. Essa é a parte que precisa ser tratada com equilíbrio. O caso de Ando é real e curioso, mas não deve ser usado como licença para transformar miojo em base da alimentação. Uma pessoa viver muito apesar de um hábito não significa que aquele hábito seja ideal para todo mundo.

Macarrões instantâneos costumam ter quantidades elevadas de sódio, carboidratos refinados, gorduras e poucos nutrientes quando consumidos sozinhos. Estudos observacionais já associaram consumo frequente de macarrão instantâneo a alguns fatores de risco cardiometabólico, como alterações em pressão, triglicerídeos, glicemia e síndrome metabólica em determinados grupos. Isso não quer dizer que comer um pacote ocasionalmente vá causar doença, mas reforça que frequência e contexto importam.

Também há uma diferença enorme entre comer miojo de vez em quando e substituir refeições completas por ele todos os dias. O problema geralmente não está no alimento isolado, mas no padrão alimentar. Se a rotina inteira é baseada em ultraprocessados, pouco vegetal, pouca proteína, pouca fibra e muito sódio, o risco aumenta.

Por outro lado, é possível melhorar a refeição. Acrescentar ovos, frango, legumes, verduras, cogumelos, tofu ou outras fontes de proteína e fibra torna o prato mais completo. Usar apenas parte do tempero pronto também pode reduzir o sódio. O miojo deixa de ser uma refeição vazia e passa a ser uma base rápida para algo melhor.

A história de Momofuku Ando, portanto, não absolve nem condena o macarrão instantâneo. Ela mostra algo mais interessante: alimentos também são parte da cultura, da tecnologia e da sobrevivência. O miojo não nasceu para ser símbolo de alimentação perfeita. Nasceu para resolver um problema muito humano: a necessidade de comer algo quente, rápido e acessível.

Ando morreu em 2007, aos 96 anos, deixando uma invenção que mudou a forma como o mundo lida com comida rápida. Seu Chicken Ramen alimentou gerações. O Cup Noodles transformou embalagem em utensílio. O Space Ram levou sua ideia para fora do planeta.

Talvez o miojo nunca seja visto como o alimento mais saudável do mundo. Mas é difícil negar sua importância histórica. O criador do miojo conseguiu transformar uma pequena experiência de quintal em um fenômeno global. E, para completar a ironia, viveu quase um século dizendo que comia a própria criação.

No fim, essa é a curiosidade que prende a atenção: o alimento que muita gente chama de vilão foi o companheiro diário de seu inventor até uma idade que poucos alcançam. Isso não prova que o miojo seja saudável. Mas prova que a história da comida é muito mais surpreendente do que parece quando olhamos apenas para um pacote de macarrão instantâneo na prateleira.

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também