Carro voador da Embraer será produzido em Taubaté e deve chegar logo

Carro voador da Embraer será produzido em Taubaté e deve chegar logo

Eve prepara eVTOL elétrico para quatro passageiros e alcance de 100 quilômetros. Quando ele deve chegar ao mercado?


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine sair de casa, chegar a um ponto de embarque e, em vez de enfrentar uma avenida congestionada, entrar em um carro voador elétrico capaz de decolar verticalmente. Alguns minutos depois, você estaria voando sobre a cidade.

A cena ainda parece saída de um filme de ficção científica, mas o conceito está sendo transformado em projeto industrial no Brasil. A Eve Air Mobility, empresa ligada à Embraer, trabalha no desenvolvimento de um eVTOL, sigla em inglês para aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical, pensado inicialmente para levar um piloto e quatro passageiros em trajetos de até 100 quilômetros.

O projeto ganhou uma nova dimensão porque não envolve apenas a criação de uma aeronave. A empresa também prepara uma estrutura industrial em Taubaté, no interior de São Paulo, com capacidade planejada de até 480 aeronaves por ano quando todos os módulos de produção estiverem instalados.

É por isso que a história desse possível carro voador brasileiro começa muito antes de uma viagem comercial. Para que uma aeronave dessas realmente faça parte da rotina das cidades, será necessário construir uma espécie de novo sistema de transporte no céu.

O desafio não é simplesmente fazer um carro voador sair do chão. É criar uma infraestrutura capaz de permitir que ele faça isso com segurança, regularidade e escala.

A configuração inicial planejada pela Eve prevê cinco ocupantes: um piloto e quatro passageiros. O alcance projetado chega a 100 quilômetros

A configuração inicial planejada pela Eve prevê cinco ocupantes: um piloto e quatro passageiros. O alcance projetado chega a 100 quilômetros

Como funciona o carro voador da Eve?

Apesar do apelido popular, o projeto não é exatamente um automóvel que ganhou asas. O eVTOL pertence à categoria de aeronaves de decolagem e pouso vertical e combina características que lembram helicópteros e aviões.

A NASA explica que esses veículos podem decolar verticalmente, permanecer em voo pairado e depois fazer a transição para o voo horizontal. Essa mudança é uma das partes mais complexas do desenvolvimento porque envolve uma alteração importante na forma como a aeronave produz sustentação e se desloca.

No caso do modelo da Eve, a proposta utiliza sistemas diferentes para as etapas do voo. Durante a decolagem e o pouso, a aeronave utiliza propulsão vertical. Depois, durante o deslocamento, entra em ação a propulsão horizontal.

Essa arquitetura permite que o veículo dispense uma pista convencional. Em vez de precisar acelerar por centenas de metros antes de levantar voo, o eVTOL pode utilizar uma área preparada para operações verticais, conceito que está por trás dos chamados vertiportos.

A tecnologia dos eVTOLs está relacionada justamente à busca por novas formas de mobilidade aérea urbana. A NASA aponta que essas aeronaves podem ocupar uma faixa do espaço entre o transporte terrestre e a aviação convencional, criando possibilidades para deslocamentos de curta distância.

Quantas pessoas cabem no carro voador?

A configuração inicial planejada pela Eve prevê cinco ocupantes: um piloto e quatro passageiros. O alcance projetado chega a 100 quilômetros, colocando o veículo principalmente no segmento de viagens urbanas e regionais de curta distância.

A ideia não é substituir aviões comerciais em grandes viagens. O conceito está mais próximo de utilizar o espaço aéreo para escapar de determinados congestionamentos terrestres e conectar pontos estratégicos de uma cidade ou região.

Um exemplo citado pela empresa envolve possíveis conexões dentro da Região Metropolitana de São Paulo. Um deslocamento entre o Aeroporto Internacional de Guarulhos e outras áreas da capital paulista poderia ser realizado pelo ar, evitando parte do tempo normalmente gasto nas rodovias.

Mas existe uma diferença importante entre imaginar essa viagem e realizá-la. O projeto ainda precisa passar por uma extensa campanha de testes e pelo processo de certificação aeronáutica.

O protótipo realizou seu primeiro voo em dezembro de 2025. Em agosto de 2026, a Eve avançou para uma etapa de transição parcial, acionando em voo a hélice traseira responsável pela propulsão horizontal.

A empresa prevê ainda a fabricação de seis aeronaves em configuração final durante 2027 para os testes relacionados à certificação. A previsão apresentada é iniciar o processo de certificação em 2028, embora esse cronograma dependa dos resultados dos ensaios e das etapas regulatórias.

Por que Taubaté pode virar uma fábrica de carros voadores?

A parte mais curiosa desse projeto talvez esteja no chão, e não no céu.

Em Taubaté, a Eve prepara uma unidade industrial instalada em uma antiga estrutura da própria Embraer. O planejamento prevê uma capacidade total de até 480 aeronaves por ano, dividida em quatro módulos de produção. Cada módulo poderá fabricar até 120 unidades anualmente.

Isso significa que a produção poderá crescer de maneira gradual. Em vez de instalar imediatamente uma fábrica operando em sua capacidade máxima, a empresa pretende ampliar a produção conforme o mercado e o programa de desenvolvimento avancem.

A escolha de utilizar uma estrutura já existente também está relacionada à experiência industrial da Embraer. A fabricante brasileira participa do projeto oferecendo suporte para processos de industrialização, produção e operação da unidade de Taubaté.

Esse detalhe ajuda a explicar por que o projeto é maior do que o desenvolvimento de um novo avião. A intenção é criar uma cadeia industrial capaz de produzir centenas de aeronaves caso a mobilidade aérea urbana alcance escala comercial.

O desafio não é simplesmente fazer um carro voador sair do chão. É criar uma infraestrutura capaz de permitir que ele faça isso com segurança, regularidade e escala.

O desafio não é simplesmente fazer um carro voador sair do chão. É criar uma infraestrutura capaz de permitir que ele faça isso com segurança, regularidade e escala

O que ainda falta para o carro voador chegar às cidades?

Existe uma longa lista de coisas que precisam funcionar antes que um passageiro possa comprar uma passagem e embarcar em um carro voador.

A primeira é a certificação da aeronave. Depois vêm questões como infraestrutura, carregamento das baterias, manutenção, procedimentos de emergência e integração com o espaço aéreo.

Os vertiportos também serão fundamentais. São estruturas destinadas ao pouso e à decolagem dessas aeronaves e poderão funcionar como uma espécie de aeroporto compacto para operações urbanas. A NASA já pesquisa como esses espaços poderiam ser integrados às cidades e à infraestrutura existente.

A Eve também terá de lidar com uma questão que costuma ser esquecida quando se fala em carros voadores: o barulho.

A empresa trabalha com uma meta de ruído entre aproximadamente 60 e 64 decibéis para seu eVTOL. Como comparação apresentada pelo CEO da Eve, um helicóptero pode chegar a aproximadamente 75 decibéis, embora a percepção sonora dependa também das frequências produzidas.

A diferença é relevante porque a proposta envolve operações frequentes em áreas urbanas. Não basta uma aeronave ser capaz de voar. Ela precisa conseguir operar perto de pessoas, edifícios e outras atividades sem transformar o céu em uma nova fonte de incômodo.

Outro ponto é o preço. As primeiras viagens provavelmente terão custos elevados porque toda a infraestrutura necessária ainda estará em fase de implantação. A expectativa da empresa é que uma maior escala operacional permita diluir despesas relacionadas à manutenção, infraestrutura e utilização das aeronaves.

E existe ainda uma etapa que parece saída de um capítulo posterior dessa história: o voo autônomo.

A primeira versão comercial prevista terá piloto. Uma eventual operação sem piloto dependerá de avanços tecnológicos, validação de segurança e autorização regulatória. Portanto, imaginar um veículo totalmente autônomo circulando pelos céus das cidades é, por enquanto, uma possibilidade futura e não a configuração inicial do projeto.

A Eve afirma ter aproximadamente 2,7 mil aeronaves entre pedidos e cartas de intenção. Esse número ajuda a dimensionar o interesse comercial em torno da tecnologia, mas não significa que todas essas aeronaves estejam vendidas ou que serão necessariamente entregues. Cartas de intenção dependem de fatores como certificação, mercado e decisões futuras dos operadores.

No fim, o aspecto mais interessante desse projeto talvez seja justamente perceber que o chamado carro voador não é apenas uma aeronave.

Ele depende de fábrica, pilotos, engenheiros, baterias, sistemas de controle, vertiportos, regras de tráfego, manutenção, recarga e uma nova maneira de organizar determinados deslocamentos urbanos.

A fábrica de Taubaté, com capacidade planejada de 480 unidades anuais, representa uma tentativa de colocar essa ideia em escala industrial. Mas entre uma aeronave experimental e um serviço cotidiano existe uma distância considerável.

O primeiro passo é fazer o eVTOL voar. O verdadeiro desafio será fazer toda a cidade aprender a conviver com ele.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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