AnúncioAnuncie aqui

Anuncie
Entenda por que Elon Musk levou filhotes de Lula ao espaço

Entenda por que Elon Musk levou filhotes de Lula ao espaço

Mais de 120 pequenas lulas embarcaram em uma missão de 2021 para investigar uma relação essencial à vida.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine nascer e, pouco depois, embarcar em um foguete. Enquanto outros animais da sua espécie começam a explorar um ambiente marinho, você atravessa a atmosfera dentro de uma cápsula carregada de equipamentos científicos. Parece uma aventura inventada para o cinema, mas esse foi o destino de mais de 120 filhotes de lula enviados à Estação Espacial Internacional em junho de 2021.

Os pequenos passageiros viajaram em uma missão de abastecimento da SpaceX, empresa fundada por Elon Musk. A pesquisa, porém, fazia parte de um projeto científico da NASA conduzido por pesquisadores interessados em uma relação que costuma passar despercebida: a convivência entre animais e microrganismos benéficos.

O lançamento aconteceu em 3 de junho de 2021, quando um foguete Falcon 9 decolou do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, levando a cápsula Dragon na missão CRS-22. Entre os materiais transportados estavam experimentos que ajudariam a investigar diferentes aspectos da vida no espaço. As lulas eram uma das cargas mais curiosas dessa viagem.

Mas o que um pequeno animal marinho poderia ensinar sobre astronautas? A resposta começa com uma bactéria capaz de produzir luz.

Os pequenos passageiros viajaram em uma missão de abastecimento da SpaceX, empresa fundada por Elon Musk

Os pequenos passageiros viajaram em uma missão de abastecimento da SpaceX, empresa fundada por Elon Musk

Por que os filhotes de lula foram escolhidos?

Os animais pertenciam à espécie Euprymna scolopes, conhecida como lula-de-cauda-curta havaiana. Seu interesse para a ciência está em uma associação bastante específica com a bactéria Vibrio fischeri, que coloniza um órgão especializado do animal e produz luminosidade.

Na natureza, essa luz ajuda a disfarçar a silhueta da lula quando observada por baixo. As bactérias, por sua vez, encontram no hospedeiro um ambiente favorável e nutrientes. É uma relação de benefício mútuo que oferece aos pesquisadores uma oportunidade de acompanhar como duas formas de vida estabelecem uma parceria.

Segundo a Universidade do Havaí, os filhotes enviados à estação espacial eram descendentes de uma lula coletada na baía de Maunalua. A instituição tem uma longa trajetória de pesquisa sobre essa associação entre o animal e suas bactérias.

A escolha dessa espécie também facilita a investigação. Em vez de começar pela enorme diversidade de microrganismos associados ao corpo humano, os cientistas podem observar uma relação mais simples e bem delimitada.

Pense na diferença entre tentar acompanhar todas as conversas de uma festa e ouvir um diálogo entre duas pessoas. O segundo cenário não explica tudo o que acontece no primeiro, mas permite perceber detalhes que poderiam se perder no barulho.

Uma parceria que começa depois do nascimento

Um detalhe tornou os filhotes de lula especialmente úteis: os pesquisadores podiam acompanhar o início da associação com as bactérias. Isso permitia investigar a formação da parceria, em vez de observar apenas uma convivência já estabelecida.

O experimento recebeu o nome de UMAMI, sigla em inglês para Understanding of Microgravity on Animal-Microbe Interactions. Conforme a descrição científica publicada pela NASA, os animais foram enviados sem exposição prévia às bactérias, que seriam introduzidas em parte deles durante o experimento. Outro grupo permaneceria sem os microrganismos, funcionando como comparação.

Essa diferença entre os grupos era fundamental. Para compreender o efeito de uma parceria biológica, é necessário observar também o que acontece quando ela não se estabelece. Assim, os pesquisadores podem distinguir mudanças relacionadas à presença das bactérias de outras respostas do animal.

AnúncioAnuncie aqui

Para investigar como a vida funciona longe da Terra, às vezes é preciso começar por uma parceria microscópica.

O lançamento aconteceu em 3 de junho de 2021, quando um foguete Falcon 9 decolou do Centro Espacial Kennedy, na Flórida

O lançamento aconteceu em 3 de junho de 2021, quando um foguete Falcon 9 decolou do Centro Espacial Kennedy, na Flórida

O que os filhotes de lula podem ensinar sobre astronautas?

Os seres humanos também convivem com microrganismos que participam de processos importantes para a saúde, incluindo funções relacionadas à digestão e ao sistema imunológico. Viajar ao espaço significa levar esse conjunto de relações biológicas junto com o corpo.

Na apresentação dos experimentos transportados pela missão CRS-22, a NASA destacou que o UMAMI investigaria como as condições do voo espacial afetam as interações entre animais e micróbios benéficos. A expectativa era produzir conhecimento que pudesse contribuir para proteger astronautas em missões prolongadas.

A lula, portanto, funciona como um modelo experimental. Isso não significa que seu organismo seja equivalente ao humano ou que uma observação feita nela possa ser transformada imediatamente em uma recomendação para astronautas. O valor do estudo está em investigar mecanismos básicos que poderão orientar outras pesquisas.

É uma diferença importante entre uma descoberta científica e sua aplicação prática. Primeiro, é preciso entender o que acontece, verificar os resultados e descobrir até onde aquela explicação pode ser estendida.

Como os cientistas acompanharam o experimento?

O planejamento do UMAMI incluía equipamentos automatizados que preservariam amostras ao longo do estudo. O início da associação entre as lulas e as bactérias seria acompanhado durante 12 horas. Ao final, os animais seriam preservados e congelados para o retorno à Terra.

Os tecidos permitiriam examinar mudanças na atividade dos genes, comparando os grupos com e sem bactérias. Em linguagem simples, os pesquisadores buscavam sinais de como o organismo respondia à presença do parceiro microscópico no ambiente espacial.

A responsável pelo projeto era Jamie Foster, pesquisadora da Universidade da Flórida que realizou seu doutorado na Universidade do Havaí. Essa trajetória ajuda a entender como estudos desenvolvidos em laboratórios ligados ao ambiente marinho acabaram chegando a uma estação em órbita.

A NASA também apontou que uma compreensão melhor dessas interações poderia ter relevância para pesquisas sobre saúde na Terra. A possibilidade estava no conhecimento produzido sobre a comunicação entre microrganismos e tecidos animais, e não em um tratamento já pronto.

A história dos filhotes de lula revela um lado menos visível da exploração espacial. Foguetes, motores e cápsulas tornam a viagem possível, mas manter organismos saudáveis exige investigar processos que não aparecem nas imagens do lançamento.

Afinal, quando uma pessoa deixa a Terra, ela leva consigo muito mais do que bagagem. Leva um corpo que depende de relações biológicas construídas ao longo da evolução. E pequenas lulas havaianas ajudaram a levar essa pergunta para o espaço: o que acontece com essas parcerias quando mudamos radicalmente o ambiente em que elas existem?

AnúncioAnuncie aqui

Reportar um erro

Encontrou um erro neste conteúdo? Descreva o problema abaixo e nossa equipe verificará.

Reportar-erro

Compartilhar

Siga o Já Imaginou Isso?

Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

Saiba mais

Veja também

Compartilhar