Quem venceria no Brasil se usássemos o mesmo sistema eleitoral dos EUA?

Quem venceria no Brasil se usássemos o mesmo sistema eleitoral dos EUA?

Uma adaptação do Colégio Eleitoral aos votos brasileiros mostra como outra regra poderia transformar o resultado. Com os votos de 2022, o vencedor mudaria na simulação.


Jordão Vilela
Por Jordão Vilela

Imagine acompanhar a apuração presidencial até o último voto. Um candidato termina com a maior votação nacional, seus apoiadores começam a comemorar, mas o resultado aponta outra pessoa como vencedora. Parece um erro de contagem? Em uma eleição decidida por um Colégio Eleitoral, essa situação pode acontecer sem que exista qualquer falha na soma.

Agora imagine essa lógica aplicada ao Brasil. São Paulo, Bahia, Minas Gerais e as demais unidades da Federação passariam a representar blocos de votos eleitorais. Conquistar um estado por uma diferença mínima poderia entregar a mesma quantidade de pontos que uma vitória por larga margem naquele território.

Uma adaptação do sistema eleitoral dos EUA aos resultados brasileiros produz um cenário curioso: com os votos do segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro ficaria à frente de Lula. Aplicando a mesma fórmula ao primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro também ultrapassaria a maioria necessária nesse colégio hipotético.

Isso é uma simulação matemática com votos já registrados. Ela permite observar o efeito de outra regra de contagem, mas não demonstra como teria sido uma eleição realmente disputada sob condições diferentes.

O exercício revela que regras diferentes podem produzir resultados diferentes. Determinar qual modelo é preferível envolve outra discussão

O exercício revela que regras diferentes podem produzir resultados diferentes. Determinar qual modelo é preferível envolve outra discussão

Como o sistema eleitoral dos EUA funcionaria no Brasil?

Na eleição presidencial americana, os cidadãos participam da escolha dos integrantes do Colégio Eleitoral, que votam formalmente para presidente e vice. Segundo os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, esse colégio reúne 538 votos eleitorais. Para alcançar a maioria, são necessários 270.

Cada estado recebe votos eleitorais equivalentes ao número de representantes que possui na Câmara, acrescido de dois, correspondentes aos seus senadores. O Distrito de Columbia tem uma regra própria e recebe três.

Em 48 estados e no Distrito de Columbia, quem vence a votação popular local conquista todo o bloco eleitoral. Maine e Nebraska adotam uma distribuição diferente, com parte dos votos atribuída por distrito. Essa característica ajuda a explicar por que o total nacional de votos populares pode divergir do resultado presidencial.

Para adaptar essa lógica ao Brasil, o exercício utiliza a distribuição de 513 deputados federais apresentada pela Câmara e acrescenta dois votos para cada uma das 27 unidades da Federação. A conta fica assim: 513 + 54 = 567 votos eleitorais, com maioria de 284.

Nesse desenho, São Paulo teria 72 votos; Minas Gerais, 55; Rio de Janeiro, 48; e Bahia, 41. Todas as unidades seguiriam a regra de entregar o bloco inteiro ao candidato mais votado.

Há uma escolha metodológica importante: o Brasil possui três senadores por unidade federativa, mas a simulação acrescenta dois para imitar a fórmula dos estados americanos. O Distrito Federal também recebe o mesmo tratamento dos estados brasileiros. Portanto, estamos diante de uma adaptação específica, e não de uma reprodução integral do sistema estrangeiro.

Por que vencer por pouco poderia valer tanto?

Vamos imaginar uma disputa com dois candidatos em São Paulo. Se um deles recebesse 50,1% dos votos válidos, conquistaria os 72 votos eleitorais do estado. O adversário, mesmo com 49,9%, não receberia nenhum voto daquele bloco.

Se a vitória fosse por 70% a 30%, o prêmio continuaria igual: 72 votos. A vantagem adicional aumentaria o total de votos populares, mas não acrescentaria pontos ao Colégio Eleitoral.

Nesse modelo, importa tanto onde o candidato vence quanto a quantidade de pessoas que votam nele.

Essa diferença mudaria a maneira de olhar para o mapa brasileiro. Pela soma nacional, um voto adicional contribui para o total do candidato independentemente do estado. Na simulação por blocos, seu efeito sobre o placar eleitoral depende de ajudar a conquistar a liderança naquela unidade.

Isso também sugere uma mudança nas campanhas. Disputas estaduais apertadas tenderiam a receber atenção especial, porque uma pequena mudança de preferência poderia transferir um bloco inteiro de um candidato para outro.

Quem venceria nas simulações de 2022 e 2026?

Com os pesos definidos, o cálculo consiste em identificar o candidato mais votado em cada unidade e somar os blocos correspondentes. Os resultados são estes:

Votação utilizada Candidato Votos eleitorais simulados Parcela do colégio
Segundo turno de 2022 Jair Bolsonaro 304 53,62%
Segundo turno de 2022 Lula 263 46,38%
Primeiro turno de 2026 Flávio Bolsonaro 359 63,32%
Primeiro turno de 2026 Lula 208 36,68%

Os percentuais da tabela representam a participação no colégio hipotético. Não representam a porcentagem de brasileiros que votou em cada candidato.

Em 2022, Lula venceu a eleição real com aproximadamente 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Jair Bolsonaro. O petista liderou nos nove estados nordestinos e também em Amazonas, Pará, Tocantins e Minas Gerais. Bolsonaro venceu nas outras 14 unidades, incluindo o Distrito Federal.

Aplicando os pesos escolhidos a esse mapa, Bolsonaro chegaria a 304 votos eleitorais, acima dos 284 necessários. Lula somaria 263. Assim, o vencedor mudaria nessa simulação de 2022, embora Lula tenha vencido legitimamente pelas regras que efetivamente organizaram a eleição.

Para 2026, o exercício utiliza o primeiro turno de 4 de outubro. O TSE confirmou que Flávio Bolsonaro e Lula disputarão o segundo turno. Portanto, o cenário simulado não substitui nem antecipa o resultado da eleição brasileira.

Nesse recorte, Lula liderou nos nove estados do Nordeste e em Amazonas, Pará e Amapá. Flávio ficou à frente nas outras 15 unidades, incluindo o Distrito Federal. Com a fórmula adotada, os blocos de Lula somam 208, enquanto os de Flávio chegam a 359.

Minas Gerais ajuda a entender a diferença entre os dois mapas: seus 55 votos hipotéticos ficam com Lula no recorte de 2022 e com Flávio no de 2026. Amapá e Tocantins também mudam de lado, mas seus efeitos se compensam, porque cada um vale dez votos no modelo.

Uma adaptação do sistema eleitoral dos EUA aos resultados brasileiros produz um cenário curioso: com os votos do segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro ficaria à frente de Lula

Uma adaptação do sistema eleitoral dos EUA aos resultados brasileiros produz um cenário curioso: com os votos do segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro ficaria à frente de Lula

A simulação mostra qual sistema é melhor?

O exercício revela que regras diferentes podem produzir resultados diferentes. Determinar qual modelo é preferível envolve outra discussão: o peso que uma sociedade deseja atribuir à soma dos votos individuais e à representação territorial.

Também seria precipitado concluir que o sistema eleitoral dos EUA favoreceria sempre um determinado campo político no Brasil. O resultado depende da distribuição das preferências, dos pesos estaduais e das candidaturas de cada eleição.

Existe ainda um limite que merece atenção: os eleitores votaram sob as regras brasileiras. Se a disputa fosse organizada por blocos estaduais, partidos poderiam mudar alianças, direcionar recursos para outros lugares e adotar estratégias diferentes. Os próprios cidadãos poderiam alterar suas escolhas ou sua decisão de comparecer.

Trocar a fórmula depois da votação mostra o efeito da regra sobre os números. Trocar a regra antes da campanha também poderia mudar os números.

Além disso, a comparação reúne turnos distintos: o segundo de 2022 e o primeiro de 2026. O modelo aplica a regra de bloco integral a todas as unidades e não cria uma representação específica para os votos no exterior. Esses critérios precisam acompanhar qualquer divulgação dos placares.

A curiosidade permanece: os mesmos votos podem contar histórias diferentes conforme a maneira de transformá-los em poder político. Ao imaginar o Brasil com o sistema eleitoral dos EUA, a pergunta deixa de ser apenas quem ganharia. Passa a incluir o que consideramos mais importante na escolha de um presidente e como essa decisão influencia toda a disputa.

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Sobre o autor

Jordão Vilela

Jordão Vilela é publicitário, criador de conteúdo e curioso por natureza. Apaixonado por cultura, ciência, comportamento e tudo aquilo que faz a gente parar e pensar “já imaginou isso?”.

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